
(Foto: Bruno Thethe/Unsplash)
Exibida pouco antes do carnaval, a série de reportagens “Vilões do Subterrâneo”, produzida pelo Bom Dia São Paulo, da TV Globo, oferece um retrato emblemático de uma frustração recorrente no Brasil: diante de gargalos estruturais conhecidos e persistentes, a sociedade espera respostas proporcionais, contínuas e preventivas por parte do poder público — respostas que raramente se concretizam na mesma medida do problema.
A apuração jornalística expôs uma engrenagem recorrente nos alagamentos da capital paulista: falhas de manutenção, descarte irregular de resíduos e ausência de campanhas educativas permanentes. O que se vê não é um evento isolado provocado apenas pela intensidade das chuvas, mas a soma de omissões governamentais sucessivas e da falta de cultura preventiva. Quando essa combinação se repete, ano após ano, como é o caso dos alagamentos, fica evidente que problemas sociais não podem ser tratados como fatalidades sazonais.
As matérias mostram os elos do desleixo: incapacidade dos órgãos municipais na limpeza, população mal orientada e a gestão da cidade sem mecanismos eficientes e permanentes de monitoramento das galerias pluviais. Um especialista aponta graves defeitos na construção e instalação de algumas bocas de lobo (mal projetadas, mal instaladas, sem declividade suficiente, sem desempenho esperado) e antecipa uma solução: basta um efetivo programa de manutenção, em toda a cidade, a partir dos pontos críticos e respectivos níveis de impactos.
O tema “cobertura de alagamentos” oferece quatro premissas válidas para a comunicação pública e para a gestão do Estado, de norte a sul do País.
A primeira é a ressaltar a relevância da cobertura jornalística que estabelece interseção direta com a comunicação pública de prestação de serviços. A série de reportagens investiga um problema recorrente, informa o telespectador e pressiona o poder municipal. A equipe de reportagem Bom Dia São Paulo utilizou-se de minicâmeras que sequer conseguem avançar nas galerias fluviais de tão sedimentadas, uma vez que prédios em construção ou em reformas despejam rejeitos de obras no sistema pluvial. Mas o descaso não é só de construtoras. Colchões, madeiras, garrafas de plásticos, fraldas, absorventes, cabos de vassoura, entre outros itens, mostram como o descarte de lixo, por parte da população, ocorre de forma desordenada. No caso de entupimento por folhas e galhos, em zonas arborizadas, a falta de cuidado é atribuída aos departamentos públicos de limpeza urbana.
A segunda premissa é a centralidade da voz popular. Chama atenção que as denúncias são confrontadas por notas oficiais protocolarmente tranquilizadoras. Do outro lado, os depoimentos da população desmoralizam os comunicados burocráticos: “Estou aqui há 15 anos e não muda nada”, diz um morador. Um vendedor ambulante informa que semanalmente retira lixo da boca de lobo da rua por conta própria. O dono da oficina conta que convive com a água invadindo o estabelecimento e mostra um depósito de peças perdidas no alagamento e prejuízo de mais de trezentos mil reais.
Essas falas revelam percepção de abandono e descrédito nas providências governamentais. Quando a população relata que o problema ocorre há muitos anos, está apontando para uma falha de gestão. Já a prefeitura, ao responder com números agregados — dezenas de milhares de desentupimentos realizados – acaba sendo desmentida pela realidade local onde o problema permanece inalterado.
Chega-se, então, à terceira premissa: a necessidade de responsabilidade compartilhada na solução de problemas. No caso dos entupimentos das redes subterrâneas, a manutenção da rede de drenagem exige ação diligente do Estado — planejamento por níveis de criticidade, limpeza regular, fiscalização de obras, correção de falhas construtivas. Mas também requer campanhas educativas contínuas. Água de chuva não é destino de lixo. Sem apoio da população, a infraestrutura se degrada; sem infraestrutura que funciona, a própria população paga a conta. Estamos falando, portanto, de comunicação de utilidade pública.
De acordo com os normativos da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom/PR), entendimento extensivo às administrações municipais e estaduais, a publicidade de utilidade pública é aquela destinada a informar, orientar, alertar e mobilizar a população para a adoção de comportamentos que gerem benefícios individuais ou coletivos, ou que garantam o exercício de direitos e o acesso a serviços públicos.
O problema é que, no Brasil, investe-se mais em publicidade institucional do que em comunicação de utilidade pública. A publicidade institucional, muitas vezes, funciona como um grande guarda-chuva narrativo que projeta uma imagem abstrata de cidade “feliz”, “segura”, “inteligente” ou “próspera”, sem necessariamente traduzir em informação concreta aquilo que impacta o cotidiano do cidadão.
São peças que reforçam slogans de governo, em geral mostram pessoas sorridentes em torno das entregas feitas, mas deixam em segundo plano dados objetivos, orientações práticas e serviços de utilidade pública — como, por exemplo, dicas para manter a cidade limpa, acidentes no trânsito, prevenção de fraudes, calendário de vacinação, protocolos de emergência, canais de atendimento ou critérios de acesso a benefícios.
Em vez de explicar direitos, deveres e procedimentos, a comunicação se concentra em afirmar virtudes genéricas da gestão. O resultado é uma estética de positividade (todo mundo feliz) que promove a imagem da administração. Nas palavras de Eugênio Bucci, emerge um Estado de Narciso que coloca a comunicação pública a serviço da vaidade particular. Promover o “Estado Narciso” não fortalece políticas públicas, não facilita o acesso a serviços e nem consolida a prestação de contas para a população.
Por sua vez, utilidade pública não funciona em “picos” (lançar uma campanha quando o problema estoura), mas em presença contínua, com repetição, linguagem simples e distribuição nos meios de comunicação que a população de fato consome.
Essa assimetria também aparece nos números e na demonstração de como o dinheiro está distribuído. De acordo com a Folha de S.Paulo, (edição 16/11/2025) os gastos têm oscilado nos últimos anos. Em 2015, início do segundo mandato da gestão Dilma Rousseff, 70% do orçamento foi destinado a campanhas de utilidade pública. No último ano de Jair Bolsonaro, em 2022, a verba caiu para cerca de 49%. Na gestão Lula, no ano passado, 57% dos recursos custearam propaganda institucional, enquanto 43% foram reservados para ações de utilidade pública.
Publicidade de utilidade pública é investimento social, enquanto publicidade promocional é investimento de imagem. A primeira salva vidas, previne danos, estimula comportamentos coletivos e amplia o acesso a direitos. A segunda pode até gerar percepção favorável momentânea, mas não reduz enchentes, não aumenta a cobertura vacinal, não evita acidentes nem orienta a população diante de riscos.
Em uma sociedade desigual e exposta à desinformação, a prioridade ética do Estado deve ser comunicar para proteger, esclarecer e capacitar o cidadão — não para enaltecer dirigentes. Quando o orçamento público privilegia informação que orienta condutas e facilita acesso aos serviços, fortalece-se a confiança democrática. Quando privilegia slogans, enfraquece-se o pacto republicano.
Trata-se de decidir como as verbas de propaganda governamental serão efetivamente utilizadas. Se a palavra oficial vai servir à construção de uma cultura de direitos, prevenção e responsabilidade coletiva — ou se será canalizada como instrumento de valorização circunstancial de governos.
Comunicação pública orientada à utilidade social fortalece a cidadania e sustenta a democracia. Já a comunicação cuja centralidade é a autopromoção dispersa recursos e ignora as carências e situações vulneráveis da população. A ênfase entre a publicidade autopromocional e a de utilidade pública define o tipo de Estado que queremos construi.
***
Armando Medeiros de Faria, vice-presidente da Associação Brasileira de Comunicação Pública, professor da pós-graduação da PUC-MG. Coordenador do Projeto Legado de Brumadinho e diretor da LCM Conexão Pública.
