Sunday, 14 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Como a cloroquina acelera a mudança da cultura jornalística contemporânea

(Foto: Reprodução Facebook)

A polêmica mundial sobre a eficiência ou não da cloroquina e seus derivados no enfrentamento da covid-19 tornou brutalmente clara a nossa dificuldade de lidar com informações complexas que contrariam a velha tendência de classificar as notícias entre boas ou más.

Já se passaram mais de três meses desde o inicio da pandemia do Coronavírus e, até agora, nem mesmo os cientistas mais qualificados, não tem certeza se a cloroquina pode resolver a mortandade mundial provocada pela covid-19. Os estudos se sucedem, revistas técnicas publicam textos assinados por especialistas renomados, a polêmica salta para o terreno politico-ideológico,  mas a dúvida continua e com ela o dilema da imprensa em lidar com dicotomias tipo certo ou errado, verdadeiro ou falso, confiável ou não confiável.

O que temos hoje diante de nós é um típico quadro de incerteza informativa criado pela complexidade crescente do fenômeno em estudo e pela avalanche de dados, geralmente contraditórios, lançados pela imprensa na cada vez mais confusa arena da opinião pública.

A cada novo estudo divulgado pela imprensa mundial sobre o uso da cloroquina na pandemia, aumenta o detalhamento dos argumentos e contra argumentos dos especialistas em infectologia e virologia. Quando estes dados, fatos e argumentos caem na mesa do jornalista, ele é forçado a escolher entre publicar ou não publicar, numa decisão arriscada porque raramente o profissional  dispõe do instrumental científico para avaliar a qualidade do material em avaliação. Diante deste impasse, a alternativa é publicar os dois lados e aí a confusão é transferida para o leitor que tem ainda menos condições para formar uma opinião.

No dia 22 de maio, a revista científica Lancet publicou um estudo feito com 96 mil pacientes em 671 hospitais do mundo inteiro afirmando que a cloroquina e seus derivados, além de não reduzir os efeitos do Coronavírus em pessoas infectadas, as tornam vulneráveis a problemas cardíacos potencialmente letais. As conclusões do estudo provocaram uma tremenda polêmica internacional, porque o presidente Trump e seu discípulo brasileiro Jair Bolsonaro são propagandistas do uso da droga no tratamento da covid-19.

Oito dias depois, um grupo de 100 pesquisadores e médicos liderados pelo espanhol Pedro Alonso, responsável pelo combate mundial à malária na Organização Mundial de Saúde (OMS), afirmaram que o estudo publicado pela Lancet apresentava sérios problemas de confiabilidade e que não poderia ser levado a sério. Os pesquisadores questionaram desde a não publicação dos dados originais da pesquisa sobre a qual se baseou a condenação do uso da cloroquina na covid-19, até a metodologia usada, problemas na identificação dos hospitais investigados e a impossibilidade de uma reprodução independente do estudo realizado com o apoio da empresa norte-americana Surgisphere, especializada em pesquisas médicas.

Novo foco profissional

Quando os argumentos técnicos, estatísticos e clínicos se misturam com questões políticas e ideológicas, a missão informativa do jornalismo fica ainda mais complicada e controversa, o que prejudica a relação com o público acostumado a esperar da imprensa uma orientação segura.

A multidisciplinaridade e complexidade do debate público atual tornaram anacrônica a função de porteiro da notícia, ainda vigente nos manuais de redação de muitos jornais. Não temos mais condições de saber o que é certo ou errado, o que merece ou não passar pela “porteira” da redação. Não dá para ser especialista em todos os temas que entram hoje na agenda jornalística, cada vez mais congestionada pela avalanche de dados, fatos e eventos disseminados pela internet e pelas redes sociais.

O caso da cloroquina mostra como o jornalismo está sendo empurrado para uma mudança de foco que altera drasticamente o conjunto de rotinas, normas e valores da profissão. Em vez de dizer o que está acontecendo, o jornalismo passa a ter que explicar qual o significado dos acontecimentos.

Trata-se de uma função bem mais complicada do que a de simples mensageiro, pois exige mais conhecimentos e maior engajamento do profissional com leitores, ouvintes ou telespectadores. Ainda mais quando está em jogo a esperança de milhões de pessoas em relação à cura da maior pandemia dos últimos três séculos no planeta.

No caso da polêmica atual sobre antídotos da covid-19, o desafio jornalístico não é tanto noticiar a publicação de estudos científicos, mas sim  identificar as questões mais relevantes para o público e mostrar o que elas significam para a tomada de uma decisão sobre usar ou não a cloroquina e seus derivados.

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Carlos Castilho é jornalista, graduado em mídias eletrônicas, com mestrado e doutorado em Jornalismo Digital e pós-doutorado em Jornalismo Local.