Monday, 04 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

A justa medida para narrar um acontecimento esmagador

A covid-19 provocada pelo vírus Sars-Cov-2 é o mais gigantesco desafio com que eu já vi o jornalismo confrontado – e não apenas o jornalismo de ciência, mas o jornalismo em geral e no mundo inteiro. Ao afirmar isso, tenho em mente um intervalo de tempo de quase 51 anos de minha prática jornalística, dos quais 32 voltados ao jornalismo de ciência.

Estamos todos nós, jornalistas, ante um fato esmagador, ligado originalmente ao campo das ciências biológicas e da ecologia, da medicina e da saúde pública, e que daí se espraia para todas as dimensões da vida humana, até as existenciais mais profundas e as densamente filosóficas, passando pelas econômicas e sociais.

Ebola na África Ocidental (1995 e 2013-2017), H1N1 pelo mundo todo (2009), SARS (2002-2003) e zika (2015-2016) foram fatos desafiadores, mas nada na dimensão da pandemia atual. Talvez só a gripe espanhola de 1918-1919, provocada por uma variante do mesmo H1N1 que assombraria o mundo noventa anos depois, lhe seja comparável – isso veremos ainda, mas não conheço relatos de jornalistas sobre o desafio de narrá-la, dia após dia, até findar com seus estimados 21 a 50 milhões de mortes, talvez 100 milhões. Então, silencio a esse respeito, pelo menos até concluir a leitura das 561 poderosas páginas, desde o prólogo, de John M. Barry em The great influenza, de 2004, e finalmente ler Metrópole à beira-mar, de Ruy Castro, lançado no ano passado, agora de olho também no relato que ele faz dos estragos da gripe de 1918-1919 no Rio de Janeiro.

Outros temas alvos de grandes coberturas em que o conhecimento científico, mais que qualquer outro, toma a palavra com autoridade – e vamos aos exemplos do primeiro transplante de um órgão humano, um coração, em 1967, da chegada do homem à Lua, em 1969, do sequenciamento pioneiro do genoma humano, em 2004, do primeiro bom resultado, ansiosamente esperado e temido, do LHC, o Grande Colisor de Hádrons da Organização Européia para a Pesquisa Nuclear (CERN), em 2008 etc. – não envolviam a tremenda complexidade com que a pandemia do novo coronavírus nos desafia.

Porque, se eram em grande medida complicados de traduzir em seus detalhes científicos e tecnológicos para uma linguagem de amplo senso comum, se produziriam formidáveis impactos no conhecimento e na realidade social, nenhum deles, entretanto, irrompeu tão violentamente no cotidiano da humanidade, sem nenhuma preparação prévia. Em segundo lugar, nenhum deles punha a sociedade humana de um jeito tão radical diante do ancestral e abissal terror de seu próprio desaparecimento. É dessa ordem a complexidade do acontecimento que temos a obrigação de narrar, em um sem número de abordagens possíveis, e em meio a um jorro absurdamente irresponsável de fake news que se espalha pelas redes sociais.

Essa angústia da morte mal se disfarça, mesmo quando lembramos que somos aproximadamente 7,5 bilhões de indivíduos neste planeta, ao se falar de um vírus com potencial para contaminar fração majoritária da humanidade, adoecer dezenas de milhões e matar alguns milhões de pessoas. Um vírus para o qual, até este momento, não existem vacinas nem tratamentos específicos e tudo que os governos podem fazer é implantar as formas de contenção possível (distanciamento social, isolamento, quarentena, testes em massa) e determinar, além de dar suporte efetivo para tanto, que os sistemas de saúde pública direcionem todo o arsenal disponível, farmacológico e de equipamentos, para o tratamento dos sintomas mais graves numa luta titânica para vencer a morte.

Num tal cenário, o grande desafio para cada jornalista, daquele vinculado a um veículo poderoso, com toda a infraestrutura econômica e tecnológica, ao comunicador que se desdobra em condições as mais precárias num veículo na periferia urbana para levar a seus vizinhos um relato fiel do que afinal se passa – que hecatombe, enfim, é essa? -, o grande desafio é encontrar a justa medida para narrar o acontecimento com extremo rigor profissional e profundo compromisso ético.

Essa justa medida, não importa o tamanho do texto, o tempo do vídeo, os minutos da narração radiofônica, o objeto da fotografia, não importa, ela está na precisão dos dados e na escolha sensível e criteriosa da palavra, da imagem, do som com que estamos propriamente narrando a quente o acontecimento, um acontecimento gigantesco, em maiúsculas, o Kairós, o acontecimento que corta, quebra fragorosamente, interrompe, o domínio de Kronos, a cronologia dos tempos normais.

Essa justa medida deve presidir nosso trabalho em toda a imensa gama de abordagens possíveis às nossas pautas, decorrentes elas mesmas da imensa complexidade do acontecimento de que falamos, deve presidi-lo em toda a variedade e profundidade de camadas em que o fenômeno pode ser olhado, e nem de longe compreendido ainda, em sua avassaladora dimensão. No Brasil, sequer sabemos ainda (e torçamos para que não o saibamos) a profundidade do trauma coletivo de ser parte de uma sociedade que tem uma miríade de corpos amontoados por enterrar.

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Mariluce Moura é jornalista e pesquisadora. Criadora e ex-diretora da revista de divulgação científica Pesquisa Fapesp e do projeto “Ciência na Rua”, em parceria com Labjor/Unicamp. Foi presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico.