Wednesday, 10 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Imprensa fala do custo Bolsonaro sem explicar do que se trata

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Nos últimos meses, aqui e ali já vinha sendo usado pelos comentaristas de assuntos econômicos o termo custo Bolsonaro para dimensionar ao leitor o tamanho do estrago causado pelas lambanças do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), na economia nacional. O uso se intensificou e se espalhou para outras editorias dos jornais após a tentativa de golpe dada pelo presidente no Dia da Independência, quando as empresas brasileiras perderam o valor de R$ 195,3 bilhões nas bolsas — há matérias na internet. Nós temos que explicar melhor para os nossos leitores a história do custo Bolsonaro porque ele vai muito além de uma operação matemática. É sobre isso que vamos conversar.

Antes uma explicação para quem não é jornalista. Nas redações, os jornalistas são distribuídos por assuntos que chamamos de editorias. Dada a explicação, vamos aos fatos. Logo no início do governo Bolsonaro não eram claras as reais intenções dele e dos grupos políticos que gravitam ao seu redor sobre a administração do país. Se não tivesse acontecido a pandemia causada pela Covid-19 creio que até hoje não se teria certeza das intenções do presidente da República e seus apoiadores sobre o futuro do Brasil. Elas começaram a se desenhar com clareza assim que Bolsonaro se posicionou negando o poder de contágio e a mortalidade do vírus e transformou o seu negacionismo em política de governo. A intenção é se perpetuar no poder corroendo as instituições por dentro e reinstalando a ditadura militar que governou o país de 1964 a 1985. E o aríete usado por ele para tentar arrombar os pilares da democracia brasileira foi o vírus. Ele foi derrotado pelo vírus, que já causou 580 mil mortes no país e deixou um rastro de destruição nas famílias e na economia. A dimensão do estrago está sendo auditada pela Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19 do Senado, a CPI da Covid, que deverá publicar o seu relatório final nos próximos meses.

No episódio da tentativa de golpe no Dia da Independência, o presidente recuou e publicou uma carta em que faz uma “Declaração à Nação” — há matéria na internet. Na questão da sua política de governo negacionista em relação à Covid, ele segue de cabeça em pé, pregando contra ciência e tentando varrer para baixo do tapete episódios como a falta de oxigênio hospitalar em Manaus (AM) e no interior do Pará, que causou a morte por asfixia de dezenas de pacientes de Covid nos hospitais. Portanto, se no episódio no Dia da Independência o custo Bolsonaro foi a perda de valor de mercado de empresas brasileiras nas bolsas de R$ 195,3 bilhões e a subida do dólar em 2,99%, como vamos quantificar o custo Bolsonaro no caso do vírus? Pelo número de mortes? Acredito que essas perguntas serão respondidas pelo relatório da CPI da Covid. E nos relatórios da Polícia Federal (PF) encontraremos uma parte importante da devastação causada pela política genocida do governo federal à Floresta Amazônica e aos povos indígenas que vivem na região. A política foi executada pelo então ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, que pediu demissão por estar sendo investigado pela PF por contrabando de madeiras nobres para os Estados Unidos. Graças a essa política, a invasão de garimpeiros em áreas indígenas nunca foi tão intensa como é nos dias atuais (setembro de 2021). Os danos causados pela devastação da Floresta Amazônica e dos povos indígenas que vivem lá não são só um problema brasileiro. Mas de interesse do mundo — há matérias na internet.

Hoje nós já temos uma ideia bem consistente do que significa para o dia a dia dos brasileiros o custo Bolsonaro no episódio do Dia da Independência, na política negacionista em relação à Covid e na devastação da Floresta Amazônica e dos povos que vivem lá. Tenho 40 e poucos anos de profissão, sendo que uns 30 e tantos trabalhei em redação fazendo cobertura de conflitos. Não lembro de um governo ter causado tantos danos para o cotidiano do brasileiro como o atual. Portanto, a realidade que o repórter enfrenta hoje no seu trabalho jamais aconteceu antes. Ele precisa costurar os assuntos para ajudar o leitor a entender a situação. Já disse antes e vou repetir. Não dá para adicionar a cada notícia que publicamos uma tese de mestrado explicando a dimensão do problema. Mas podemos colocar ali uma palavra ou duas, alertando o leitor que o rolo é bem maior. Lembro os meus colegas repórteres jovens, de meia-idade e velhos com eu que é preciso aproveitar cada chance que se tem para mostrar aos nossos leitores a dimensão da notícia que publicamos. Por quê? É nosso dever informar de maneira simples, elegante e precisa.

Para fechar a nossa conversa. Não é necessário dizer. Mas vou dizer por considerar necessário. Tudo que escrevi não é opinião. São fatos que já publicamos. O que fiz e tenho feito é não perder a oportunidade de lembrar aos colegas a necessidade de explicar melhor as coisas para o leitor. Faz parte do modo de operar do repórter acreditar que todo leitor é um profundo conhecedor do assunto sobre o qual ele está escrevendo. Eu cometo esse erro repetidas vezes quando trato de assuntos relacionados a conflitos agrários, migrações e crime organizado nas fronteiras, porque sou especializado nesses temas e escrevo a notícia como se todo mundo entendesse do que estou tratando. Portanto, nunca é demais alguém lembrar que é preciso explicar melhor o que estamos falando.

Texto publicado originalmente pelo blog Histórias Mal Contadas.

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais.