Sexta-feira, 10 de abril de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1383

Entre a prescrição e a informação: como a mídia interfere no cuidado de enfermagem

(Foto: RDNE Stock project/Pexels)

A mídia contemporânea, especialmente as redes sociais e portais de notícias, exerce influência significativa no cuidado de enfermagem, mediando a relação entre prescrições profissionais e a percepção pública sobre saúde. Essas interferências podem tanto empoderar o paciente quanto gerar confusões que comprometem a adesão terapêutica e a autonomia da equipe de enfermagem.

No contexto de saúde digital, a mídia emerge como um ator central entre a área da saúde e a informação acessível ao público. De acordo com a pesquisa TIC Domicílios 2019, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), 47% dos brasileiros utilizam a internet para buscar informações sobre saúde antes de procurar um profissional, o que redefine a dinâmica tradicional do cuidado em enfermagem. O aumento do acesso à internet durante a pandemia de COVID-19 intensificou esse comportamento, impactando diretamente a confiança da população nos protocolos assistenciais. Assim, embora a mídia tenha potencial para democratizar o conhecimento, ela também pode distorcer informações, gerando ansiedade e dificultando a adesão às condutas baseadas em evidências.

Durante a pandemia de COVID-19, narrativas disseminadas nas redes sociais geraram resistência da sociedade frente a medidas de saúde essenciais, como a intubação orotraqueal. Em alguns casos, mensagens virais contribuíram para interpretações equivocadas sobre o procedimento, embora esta seja uma intervenção potencialmente salvadora em casos graves. Essas crenças, amplificadas por conteúdos digitais, levaram pacientes a recusarem cuidados fundamentais, agravando quadros clínicos e aumentando a mortalidade. Paralelamente, houve a promoção nas redes do uso da ivermectina, bem como tratamentos tidos como “cura milagrosa”, mesmo diante da ausência de comprovação científica, incentivando assim a automedicação. De acordo com a (OMS, 2021), não há evidências que sustentem o uso da ivermectina para tratamento da COVID-19 fora de ensaios clínicos, reforçando o risco dessas práticas.

Entretanto, é fundamental destacar que a disseminação de desinformação durante a pandemia não se restringiu a usuários leigos ou influenciadores digitais. Parte significativa dessas narrativas foi impulsionada por autoridades públicas, representantes governamentais e até profissionais da saúde, que utilizaram a mídia como meio de legitimação de discursos sem respaldo científico. No Brasil, houve posicionamentos institucionais contrários a medidas como o isolamento social, o uso de máscaras e a vacinação, além da promoção de tratamentos ineficazes. De acordo com o relatório do Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário (CEPEDISA/USP) em parceria com a Conectas Direitos Humanos (2021), foram identificadas ações sistemáticas que contrariaram recomendações científicas durante a pandemia, incluindo a defesa do chamado “tratamento precoce”. Além disso, de acordo com o Observatório COVID-19 da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz (2022), a comunicação governamental ambígua contribuiu para a desinformação da população e para a baixa adesão às medidas sanitárias. Esse cenário evidencia que a desinformação, quando associada a figuras de autoridade, adquire maior poder de convencimento, influenciando diretamente o comportamento coletivo e agravando crises sanitárias.

No contexto brasileiro, a atuação do governo federal durante a pandemia também contribuiu para a amplificação de discursos que fragilizaram as medidas de saúde pública. Durante a gestão do então presidente Jair Bolsonaro, houve reiteradas manifestações públicas minimizando a gravidade da COVID-19, além de posicionamentos contrários ao uso de máscaras e ao distanciamento social. De acordo com o relatório do CEPEDISA/USP, foram identificadas ações e comunicações oficiais que contrariaram recomendações científicas amplamente aceitas. Além disso, episódios em que o uso de máscaras foi tratado com ironia ou descrédito em declarações públicas contribuíram para enfraquecer a adesão da população às medidas preventivas. Esse tipo de posicionamento, quando emitido por lideranças políticas, tende a influenciar comportamentos coletivos, dificultando a implementação de estratégias sanitárias e impactando diretamente o trabalho das equipes de saúde.

No início da pandemia, falas como “é só uma gripezinha” foram o ponto inicial para que a população tratasse a pandemia como algo banal. A crise de oxigênio no Amazonas evidenciou o despreparo governamental frente a problemas de saúde pública.

A rejeição ao uso de máscaras, frequentemente associada a discursos ideológicos, exemplifica como os meios digitais podem enfraquecer estratégias básicas de prevenção. Conteúdos antivacina e antimáscara alcançaram grande visibilidade, reduzindo a adesão da população às medidas de proteção. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS, 2020), a desinformação em saúde durante a pandemia — caracterizada como “infodemia” — dificultou a implementação de políticas públicas eficazes ao comprometer a confiança da população nas orientações científicas.

Nesse contexto, a enfermagem e os demais profissionais de saúde enfrentaram desafios éticos e operacionais significativos. Muitos pacientes chegaram aos serviços de saúde influenciados por informações falsas, recusando tratamentos ou exigindo intervenções inadequadas. Essa realidade impacta diretamente a triagem, o acolhimento e a condução do cuidado, além de contribuir para o desgaste físico e emocional das equipes. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2020), o aumento da sobrecarga emocional entre profissionais da saúde durante a pandemia esteve associado, entre outros fatores, à dificuldade em lidar com pacientes influenciados por desinformação.

A mídia atua, portanto, como um filtro entre o conhecimento científico e o público leigo, moldando percepções e expectativas sobre saúde. Plataformas digitais ampliaram o alcance de conteúdos sem validação científica, influenciando decisões individuais e coletivas. Isso evidencia que a interferência midiática não é apenas um fenômeno comunicacional, mas um fator que impacta diretamente a qualidade e a segurança do cuidado em saúde.

Por outro lado, é importante reconhecer que a mídia também pode exercer um papel positivo quando alinhada à ciência. Campanhas educativas baseadas em evidências possuem grande potencial de alcance e podem fortalecer a autonomia do paciente. No entanto, esse potencial só se concretiza quando há compromisso com a veracidade das informações e responsabilidade na sua disseminação.

A interferência midiática revela, assim, uma dicotomia: enquanto a enfermagem atua com base em protocolos científicos e diretrizes institucionais, a mídia frequentemente opera sob a lógica do engajamento, priorizando conteúdos de alto impacto emocional. Esse contraste pode gerar conflitos no processo de cuidado, especialmente quando o paciente passa a confiar mais em informações digitais do que na orientação profissional.

No âmbito de doenças crônicas e condições como o câncer, a disseminação de “curas milagrosas” sem comprovação científica representa um risco ainda maior. Pacientes desinformados podem abandonar tratamentos eficazes em busca de alternativas divulgadas nas redes sociais, comprometendo seu prognóstico e desvalorizando o trabalho das equipes de saúde.

Diante desse cenário, torna-se evidente que a mídia interfere profundamente no cuidado de enfermagem ao entrelaçar prescrição e informação. Embora possa empoderar, também pode distorcer. Por isso, é fundamental que profissionais de saúde adotem uma postura crítica e proativa frente à desinformação.

Conclui-se que é imprescindível investir em estratégias de educação em saúde voltadas à população, promovendo a alfabetização em saúde e o pensamento crítico. Além disso, é necessário reforçar a responsabilidade ética de profissionais, autoridades e veículos de comunicação na divulgação de informações. Somente assim será possível garantir que a mídia atue como aliada na promoção de um cuidado seguro, ético e baseado em evidências científicas.

FONTES:

BRASIL. Infodemia tem tornado a resposta às emergências de saúde ainda mais difícil, afirma OPAS. Brasília, 17 ago. 2020. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/87754-infodemia-tem-tornando-resposta-%C3%A0s-emerg%C3%AAncias-de-sa%C3%BAde-ainda-mais-dif%C3%ADcil-afirma-opas Acesso em: 7 abr. 2026.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Clinical management of COVID-19: interim guidance. Washington, D.C.: OPAS, 2020. Disponível em: https://www.paho.org/pt/documents/clinical-management-covid-19-interim-guidance-who Acesso em: 7 abr. 2026.

COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL (CGI.br). Três em cada quatro brasileiros já utilizam a Internet, aponta pesquisa TIC Domicílios 2019. São Paulo, 25 maio 2020. Disponível em: https://cgi.br/noticia/releases/tres-em-cada-quatro-brasileiros-ja-utilizam-a-internet-aponta-pesquisa-tic-domicilios-2019/ Acesso em: 7 abr. 2026.

CENTRO DE ESTUDOS E PESQUISAS DE DIREITO SANITÁRIO (CEPEDISA/USP); CONECTAS DIREITOS HUMANOS. Boletim Direitos na Pandemia nº 10. São Paulo: CEPEDISA/USP; Conectas, 2021. Disponível em: https://conectas.org/publicacao/boletim-direitos-na-pandemia-no-10/ Acesso em: 7 abr. 2026.

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Junior Matos Souza é estudante de Enfermagem (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná, com atuação na área de Ciências da Saúde. Desenvolve pesquisas e análises no campo de saúde, com interesse em saúde pública e na avaliação crítica da informação em saúde.