Sexta-feira, 29 de maio de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1390

Os ataques à imprensa e o risco estrutural para o ecossistema de comunicação

(Foto: Gustavo Fring/Pexels)

Em 2024, o Brasil registrou cerca de 700 mil ataques à imprensa. Minha projeção para 2026, ano de eleições gerais, é que esse número, no mínimo, dobre e alcance a casa de 1,4 milhão. Não se trata de uma estimativa retórica. Essa é uma leitura de padrão e que leva em conta também a consolidação da IA generativa no dia a dia da sociedade brasileira.

Sim, ataques à imprensa não são novos, mas sua intensidade e escala ganham mais contornos dentro de um ambiente de informação altamente digitalizada.

Ao mesmo tempo em que traz benefícios, como a possibilidade de uma inserção mais democrática, também traz o desafio de lidar com um modelo de descredibilização do jornalismo profissional, que ganha nuances de estratégia deliberada.

Em outras palavras, não estamos falando apenas de um subproduto da polarização: os ataques à imprensa, hoje, fazem parte do jogo e é preciso buscar caminhos para fortalecer veículos e profissionais que se atentam aos preceitos básicos do jornalismo como a checagem e pluralidade de fontes, ética e respeito à democracia.

Esse desafio fica mais evidente em períodos eleitorais. Durante o primeiro turno das eleições municipais de 2024, a Coalizão em Defesa do Jornalismo registrou mais de 44 mil ataques contra jornalistas e veículos em cerca de sete semanas de monitoramento. A análise, feita em parceria com o Laboratório de Internet e Ciência de Dados da Universidade Federal do Espírito Santo, acompanhou centenas de contas em diferentes plataformas e identificou não apenas volume, mas padrão de comportamento.

Inicialmente, o X concentrava a maior parte das ocorrências, com mais de 34 mil registros em poucas semanas. Após o bloqueio temporário da plataforma no Brasil no período, o fluxo de ataques se redistribuiu e o TikTok passou a liderar em densidade de hostilidade em um intervalo mais curto, seguido pelo Instagram, que também apresentou crescimento relevante.

E esse panorama segue se deteriorando. Segundo o Ranking dos Repórteres Sem Fronteiras, a liberdade de imprensa atingiu, em 2025, o pior nível da sua história, mantendo uma trajetória de queda observada nos últimos anos.

Mas os ataques não se sustentam apenas por dinâmicas sociais. Há um componente econômico que ajuda a explicar sua persistência. Um relatório da NewsGuard em parceria com a Comscore aponta que cerca de US$ 2,6 bilhões em receita publicitária global são direcionados, todos os anos, a sites de desinformação por meio de publicidade programática. Isso significa que há incentivo financeiro direto, ainda que involuntário, para a produção e circulação desse tipo de conteúdo.

E esse movimento só se intensifica com a evolução tecnológica. Ferramentas de geração de conteúdo sintético, como deepfakes de áudio e vídeo, ampliam a capacidade de fabricar fake news plausíveis em tempo reduzido, enquanto a checagem, por definição, opera em outro ritmo: mesmo quando o desmentido ocorre, ele já disputa espaço com uma narrativa que circulou antes e, muitas vezes, com mais intensidade.

Assim, é possível afirmar que a desinformação está inserida em uma lógica de escala, monetização e distribuição algorítmica intencional e sistematizada. Diante desse cenário, a projeção de duplicação dos ataques à imprensa em 2026 não parece exagerada. Ela decorre da convergência de múltiplos fatores e é nesse contexto complexo que é preciso agir na defesa da imprensa, que atua como última instância mediadora do que é fato verificável.

Esse ponto é especialmente relevante quando pensamos na fragilidade financeira de parte relevante da imprensa. Investigações mais profundas, estruturas robustas de checagem e proteção institucional demandam recursos. Em um panorama de pressão constante por eficiência, essa equação se torna ainda mais difícil de sustentar.

O copo meio cheio desse debate está no fato de que boa parte da sociedade acredita na necessidade de ações efetivas contra a desinformação. Uma pesquisa do DataSenado, por exemplo, indica que 81% dos brasileiros acreditam que notícias falsas podem influenciar significativamente os resultados eleitorais. Além disso, 72% afirmam ter tido contato recente com esse tipo de conteúdo e consideram relevante algum nível de controle para garantir equilíbrio no processo democrático.

Diante de tudo isso, estamos falando de um problema complexo que não pode ficar apenas sob responsabilidade da imprensa, já que seus efeitos afetam todo o ecossistema de comunicação (empresas, marcas, agências e profissionais de relações públicas e marketing).

Afinal de contas, a qualidade do ambiente informacional impacta diretamente a capacidade de construir reputação, estabelecer confiança e sustentar narrativas consistentes.

Para tanto, são necessários alguns passos importantes: elevar o padrão da informação que entregamos com dados, fontes claras e contexto; priorizar a consistência em detrimento da velocidade quando o conteúdo exige verificação; colaborar com processos de checagem e, sobretudo, não normalizar a desinformação. São movimentos que, isoladamente, parecem pequenos, mas que, em conjunto, ajudam a reequilibrar o sistema.

Há também uma dimensão mais ampla e fundamental para a própria democracia. Em um ambiente em que a credibilidade da imprensa é constantemente tensionada, o silêncio tende a operar como conivência tácita.

A questão, portanto, não é mais se os ataques vão aumentar. Os sinais indicam que vão. A questão é como diferentes atores do ecossistema irão responder a esse movimento, pois a reputação da imprensa é um ativo coletivo e essencial para a economia e sociedades realmente livres.

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Guga Peccicacco é gerente de Comunicação e Relações Públicas para a América Latina na Infor.