Sexta-feira, 23 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

Infocracia e infosfera: a reconfiguração do poder e da existência na era digital

(Foto: Rodion Kutsaiev/Unsplash)

A contemporaneidade digital nos coloca diante de uma dupla transformação que reconfigura simultaneamente as condições do poder político e as próprias bases ontológicas da existência. De um lado, a infocracia nomeia o regime de governança característico de nossa época, fundado na circulação acelerada da informação como vetor de dominação. De outro, a infosfera designa o ambiente global integrado onde essa informação circula, um espaço que não é apenas técnico, mas ontológico, no qual humanos, máquinas e dados coexistem em interdependência.

Compreender a articulação entre esses dois conceitos é fundamental para diagnosticar as formas contemporâneas de exercício do poder e para imaginar possibilidades de resistência e reexistência em um mundo onde a informação se tornou, ao mesmo tempo, condição de vida e instrumento de controle.

A infocracia representa uma ruptura com as formas clássicas de dominação. Diferentemente do poder disciplinar, que opera pela vigilância e pela repressão dos corpos, ou do biopoder, que gere a vida das populações, o poder infocrático se exerce pela hiperprodução e circulação de mensagens. Sua lógica não é a coerção, mas a dispersão; não é o silêncio forçado, mas o ruído estrutural.

Como observa Byung-Chul Han, esse regime transforma a comunicação em mecanismo de dissolução do espaço público. O excesso de informação não amplia a compreensão, ao contrário, destrói a confiança e impossibilita a mediação racional. O ideal habermasiano de consenso, fundado no diálogo argumentativo, cede lugar a uma guerra de percepções em que a viralidade vale mais do que a veracidade. A verdade perde sua função reguladora, e o que confere legitimidade não é mais a coerência lógica, mas a velocidade de circulação e o volume de engajamento.

Nesse contexto, a política se converte em performance de opinião. O cidadão é substituído pelo usuário, o argumento pela reação, o diálogo pela métrica. A liberdade de expressão, paradoxalmente, torna-se dever de exposição. Participa-se não para agir politicamente, mas para permanecer visível. O espaço público transforma-se em um feed infinito de autoexpressões que se neutralizam mutuamente, uma política sem comunidade, um regime que governa pela entropia comunicacional.

Se a infocracia nomeia o regime político da era digital, a infosfera designa o ambiente ontológico que torna esse regime possível. Proposto por Luciano Floridi, o conceito de infosfera implica uma virada filosófica em que o mundo contemporâneo não é mais apenas físico ou social, mas infosférico, um continuum entre o real e o digital, entre matéria e dado.

Na infosfera, a informação deixa de ser apenas meio de comunicação para se tornar condição do existir. Tudo o que existe pode ser descrito, processado e transmitido como padrão informacional. O mundo se torna uma ecologia de dados, e o ser humano, apenas um dos agentes comunicativos entre múltiplos fluxos de sentidos. Essa perspectiva dissolve as fronteiras entre sujeito e meio, emissor e receptor, real e virtual. O humano não está “dentro” da comunicação, ele é comunicação, um nodo em uma rede sensível de relações informacionais.

Essa ontologia informacional aproxima-se, em certo sentido, da noção heideggeriana de Gestell, mas a reconfigura, pois o mundo não é apenas enquadrado como recurso, mas vivido como rede. No entanto, o perigo persiste. O excesso de informação pode reduzir o ser à pura disponibilidade, dissolvendo o sentido na conectividade total.

A infocracia e a infosfera não são fenômenos separados, mas dimensões interligadas de uma mesma reconfiguração histórica. A infocracia só pode operar em um ambiente infosférico, isto é, em um mundo onde a informação se tornou a própria textura da realidade. Por sua vez, a infosfera só adquire sua configuração atual porque é colonizada por lógicas infocráticas de poder.

Essa articulação revela a natureza técnica e política do poder contemporâneo. A infocracia não governa apenas por discursos ou ideologias, mas por algoritmos que selecionam, hierarquizam e distribuem o que é visto e o que é silenciado. O poder deixa de estar nas mãos de emissores humanos e passa a residir nas infraestruturas – plataformas, servidores, modelos preditivos. Essa reconfiguração articula-se à colonialidade algorítmica, a reprodução, nas redes digitais, das hierarquias epistêmicas e culturais do sistema-mundo moderno.

Assim, a infosfera, que poderia ser um ambiente de pluralidade epistêmica, em que múltiplas racionalidades coexistem, é convertida em infraestrutura de controle. A circulação incessante de informação produz não apenas ruído comunicacional, mas também servidão informacional voluntária, pois o sujeito acredita ser livre porque pode se expressar, mas é prisioneiro dos circuitos de visibilidade que transformam sua fala em dado extraível.

Tanto a infocracia quanto a infosfera são ambivalentes. Se, por um lado, o ambiente infosférico permite novas formas de colaboração, inteligência coletiva e cosmopolitismo informacional, por outro, concentra poderes inéditos de vigilância e manipulação. A infocracia, ao governar pela dispersão, não exclui a possibilidade de dissenso, mas o transforma em ruído neutralizado, em polarização destrutiva que reforça o próprio sistema.

Diante desse diagnóstico, o desafio ético e político contemporâneo é duplo. Em termos políticos, trata-se de pensar, com Chantal Mouffe, a reconstrução de espaços agonísticos de disputa simbólica, onde o conflito possa se expressar sem se converter em guerra de percepções gerenciadas por algoritmos. A democracia informacional exige uma ética da lentidão e da escuta, capaz de resistir à lógica da aceleração e do engajamento compulsório.

Em termos ontológicos, é preciso repolitizar a infosfera, deslocar o paradigma da extração de dados para o da coexistência informacional. Isso implica preservar a opacidade, o mistério e a diversidade epistêmica contra a transparência total que o capitalismo de vigilância e de plataformas almeja. Trata-se de reencontrar a comunicação como relação, não como captura; de habitar tecnicamente o mundo de modo que a técnica seja cuidado, não controle.

Como sugere Yuk Hui, a infosfera pode ser pensada como cosmotécnica, o lugar onde cada cultura articula suas próprias formas de existir informacionalmente, suas próprias cosmologias digitais. Reinterpretar a infosfera a partir de epistemologias críticas e comunicacionais permite concebê-la não apenas como rede técnica, mas como ecologia de saberes comunicacionais, em que racionalidades humanas e mais-que-humanas coexistem em tensão e tradução.

A infocracia inaugura o que Byung-Chul Han chama de crise comunicacional da democracia. O excesso de comunicação dissolve o espaço público como lugar de deliberação. Mas essa crise não é apenas política, é ontológica. Ela nos obriga a repensar o que significa existir, comunicar e conhecer em um mundo infosférico. Resistir à infocracia não é negar a infosfera, mas rehabitá-la de outro modo. É desacelerar quando tudo acelera. É restituir o silêncio quando tudo é ruído. É reabrir o espaço do sensível e do dissenso, transformando a circulação da informação em produção de relações.

A aposta é pela comunicação como vínculo, não como métrica. Pela técnica como cuidado, não como exploração. Pelo dado como mundo, não como mercadoria. Rehabitar eticamente a infosfera é, afinal, reencontrar a possibilidade da comunidade em meio ao fluxo, é tornar a informação novamente lugar de encontro, e não de dispersão.

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Ramsés Albertoni é Professor, Pós-doutorando em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF), Pesquisador dos Grupos de Pesquisa Arte & Democracia e Comcime.