Sexta-feira, 23 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

O jornalismo vai precisar dos “influenciadores”

(Foto: Anete Lusina/Pexels)

Parece uma afirmação despropositada, mas a realidade indica que o jornalismo tradicional já não consegue mais dar conta sozinho da avalanche de dados, fatos e eventos publicados na internet. Acredita-se que existam no Brasil entre três a dez milhões de pessoas classificadas com “influenciadores” digitais (1) que produzem notícias, enquanto o número oficial de jornalistas em atividade no país não passa dos cem mil profissionais (2).

Esta contabilidade, embora imprecisa, mostra como indivíduos sem formação jornalística têm muito mais chances de testemunhar fatos noticiáveis do que repórteres e fotógrafos profissionais. É por isto que ganha cada vez mais força a tendência mundial das notícias de atualidade dura (hard news) serem publicadas por indivíduos sem formação acadêmica em jornalismo. (3)

É o resultado da inovação tecnológica que deu às pessoas comuns o poder de publicar dados, fatos, eventos e ideias diretamente na internet sem passar pelas redações jornalísticas. Não é um fenômeno passageiro e sim uma transformação estrutural na sociedade contemporânea. Isto não acaba com o jornalismo que, ao mesmo tempo que perde a exclusividade na divulgação da atualidade dura, ganha novas e transcendentais funções como investigar, contextualizar e verificar os dados e fatos publicados por pessoas comuns, entre elas milhares que se autodefinem como “influenciadores” digitais.

Os quatro dilemas do jornalismo

A interdependência entre profissionais e os chamados influenciadores é uma questão complicada. Primeiro, porque o termo influenciador embute a ideia de que alguém está influenciando alguém, tentando induzir uma ideia ou visão da realidade, ou vender um produto ou um serviço. Quando o tema da interação é a notícia, o uso da expressão influenciador pode gerar a percepção de que há um interesse oculto na publicação do fato, dado ou evento. Sabemos que não há objetividade e isenção absolutas no exercício do jornalismo, mas é imprescindível dar ao público a certeza de que o profissional procura ser o mais realista possível.

O segundo dilema envolvendo a participação de pessoas comuns na produção de conteúdos informativos é estabelecer uma diferenciação clara entre quem procura disseminar notícias que atendam às necessidades e interesses do público e os indivíduos que usam a internet para promoção pessoal, comércio, proselitismo ou para criar desinformação através de notícias falsas. A diferenciação virou um problema porque o marketing online privilegia o uso da expressão “influenciador”, contando inclusive com a colaboração de boa parte da imprensa. Começa a ganhar visibilidade o uso da expressão “produtor de conteúdo”, mas ela ainda não decolou. Por isto estamos usando o substantivo “influenciador” entre aspas para deixar claras as dúvidas a respeito da definição da atividade no que se refere à produção de notícias.

O terceiro e talvez o maior problema na abordagem da relação entre jornalismo e pessoas comuns na disseminação de notícias é a monetização dos conteúdos informativos produzidos por independentes. Como acontece sempre que uma inovação muda rotinas, regras e valores, surgem pessoas que aproveitam a nova situação para ganhar dinheiro. O poder de publicar qualquer informação aliado às facilidades de monetização de audiências oferecida pelas plataformas digitais gerou um espetacular crescimento de marqueteiros amadores que se autointitulam “influenciadores” (4). Isto tornou muito difícil distinguir quem publica um dado, pensando no interesse e nas necessidades do público, daqueles que visam apenas ganhar dinheiro de forma nem sempre ética e legal.

A tutoria jornalística

Como o exercício do jornalismo na era digital implicará algum tipo de relação entre os profissionais e “influenciadores”, caberá aos primeiros desenvolverem parâmetros que permitam identificar, entre os produtores individuais de conteúdos informativos, quem age priorizando o interesse público e aqueles que não passam de vendedores de algum produto, serviço ou ideia. Não será uma tarefa fácil, mas ela já é quase obrigatória diante dos desafios enfrentados atualmente pelo jornalismo e pelas empresas de comunicação.

Isto leva ao quarto dilema da relação entre jornalismo e produção amadora de conteúdos informativos. As pessoas comuns não têm preparo para lidar com a informação num contexto altamente complexo, como é o criado pela avalanche de notícias, a disseminação de dados falsos, a desinformação e os efeitos, potencialmente letais, da manipulação de informações. Cabe ao jornalismo desempenhar a função de tutor dos amadores na produção e disseminação de notícias. É uma função nova e que coloca o jornalismo como parte da estrutura social criada pela internet baseada na informação e no conhecimento.

  1. O Instituto Nielsen estimou em 10 milhões o número de “influenciadores” em atividade na web brasileira. Já o Influencer Marketing Benchmark Report 2025, diz que o total não passa dos 3,8 milhões, enquanto um levantamento das organizações Influency.me em parceria com o Opinion Box afirma que o número estimado é de apenas dois milhões. A divergência de números está ligada a diferentes definições usadas para caracterizar os “influenciadores” digitais (Informações recolhidas pelo programa Gemini).
  2. Este dado é da Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ) e se refere a todos os que trabalham com jornalismo profissional. A entidade, no entanto, tem só 40 mil associados.
  3. A empresa de consultoria Goldman Sachs calcula em 67 milhões de “influenciadores” no mundo inteiro, com uma projeção de crescimento de até 107 milhões por volta de 2030.
  4. Um relatório da empresa Market Research Future estimou em 92,5 bilhões de dólares o faturamento de “influenciadores” em todo o mundo. 

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Carlos Castilho é jornalista, doutor em Mídias do Conhecimento (UFSC) e pesquisador associado do objETHOS