Sexta-feira, 31 de julho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1399

Eufórica por “negócio da China”, imprensa vende discurso do poder e censura o contraditório

(Foto: Victor Moragriega/Pexels)

Um surto de euforia contagiou as redações dos principais veículos de imprensa capixabas nos últimos meses, e o motivo tem três letras: GWM. São as iniciais de Great Wall Motors, gigante chinesa da indústria automobilística e referência global em carros elétricos e híbridos. A empresa, no início deste ano, escolheu o município de Aracruz, no norte do Espírito Santo, como sede da segunda fábrica em território brasileiro, a maior fora da China.

Animados com a decisão, portais e TVs locais tornaram o assunto um dos mais noticiados nas editorias de economia e negócios dos últimos tempos, o que, para mim, suscitou questões caras ao jornalismo. Então, decidi analisar os noticiários de seis grupos de comunicação que deram ampla cobertura à vinda da GWM: A Gazeta/TV Gazeta, Folha Vitória/TV Vitória, Tribuna Online/TV Tribuna, Sim Notícias/TV Sim, ES Brasil e Século Diário. Da assinatura do termo de compromisso de investimento entre o governo do Estado e os chineses, em janeiro, ao lançamento da fábrica, em junho, o que se viu foi o domínio absoluto do discurso único do poder econômico no noticiário.

Antes, porém, é preciso contextualizar. Próximo à Grande Vitória, Aracruz é um lugar de contrastes socioambientais, lar de comunidades pesqueiras, quilombolas, indígenas e de um litoral rico em biodiversidade. A monocultura do eucalipto ocupa imensas áreas do município desde a chegada da Aracruz Celulose (hoje Suzano), tornando-o cenário de conflitos agrários e fundiários. A cidade virou o maior destino da expansão industrial e portuária no estado, cujas sequelas têm sido apagadas da cobertura jornalística.

Com GWM, imprensa vende prosperidade

Em geral, as reportagens se resumem a enaltecer, exaustivamente, os números vultuosos do investimento chinês, sempre com lugar de destaque nas manchetes dos portais e nas chamadas dos telejornais, mesmo que tudo ainda esteja em um plano hipotético, sem a confirmação dos investidores. Talvez sejam números que jamais se realizem plenamente, pois, como sabemos, a economia globalizada é dinâmica e sujeita a mudanças bruscas em razão de crises constantes e conflitos geopolíticos. Isso contrasta com a postura cautelosa dos executivos chineses ao tratarem do investimento (ainda em fase de estudos técnicos e trâmites públicos burocráticos), revelando um jornalismo que destoa de sua função pública e social, vocalizando suas próprias vontades na boca de terceiros.

Perspectivas positivas para a economia do ES dominaram a paisagem discursiva das fontes oficiais repercutidas pela imprensa, sem o contraditório, mesmo diante de um investimento de proporções gigantescas e de altíssimo impacto socioambiental, dois aspectos continuamente descartados pela cobertura analisada. O que se anuncia, em uníssono e com grande empolgação, é o novo eldorado, induzindo o público à falsa ideia de que todos serão beneficiados por uma nova era de prosperidade econômica com a GWM. O fato é que não se sabe ao certo o que virá com a instalação e a operação da montadora, o que impede quaisquer projeções.

É óbvio que trará mudanças significativas na economia, impulsionadas por um novo processo de (re)industrialização, o que não significa, necessariamente, avanços na qualidade de vida e na distribuição de renda; pelo contrário. A história da industrialização capixaba, entre as décadas de 1960 e 1980, nos ensina que o roteiro costuma divergir do futuro perfeito vendido pela imprensa, em sintonia com o mercado e o Estado. O crescimento urbano acelerado da região metropolitana de Vitória, impulsionado por grandes empreendimentos portuários e industriais, deixou cicatrizes. Questões estruturais ainda carecem de melhorias concretas, como moradia, saneamento básico, segurança e transporte público, meio ambiente etc. Esse é um capítulo da história que deveria compor o manual de redação dos profissionais de imprensa.

A exaltação da mídia não foi apenas aos investimentos prometidos pelos chineses. O noticiário comemorou até mesmo a elevação dos preços do metro quadrado dos imóveis e o lançamento de empreendimentos residenciais privados na esteira do boom populacional. Exclui-se de análises e reportagens a possibilidade da falta de moradias aos milhares que irão buscar uma vaga de trabalho entre as previstas pelo mercado e alardeadas à exaustão pela imprensa. Um risco sempre real, como acontece em outros centros urbanos, onde o crescimento acelerado impede a inclusão de todos, elevando o número de pessoas em situação de rua ou forçando a ocupação de áreas de risco em razão da privatização de espaços estratégicos das cidades, da alta dos aluguéis, da supervalorização dos imóveis e da carência de moradias populares. Problemas inerentes à realidade brasileira e menosprezados pela imprensa local.

Num cenário de aridez informativa, pude identificar alguns momentos de alívio em duas reportagens de um mesmo veículo (ES Brasil) que, embora em tom de propaganda oficial, mencionam o crescimento urbano desordenado e apontam medidas estruturais do poder público para o que chamam de “desafio” gerado pela expansão industrial de Aracruz. No entanto, mesmo sendo temas que impactam diferentes áreas, apenas o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico foi consultado.

Porta-voz do poder

E são as fontes procuradas pela imprensa que acentuam essa paisagem discursiva pobre e árida do jornalismo econômico capixaba. A preferência é sempre por autoridades políticas — como governador, vice, secretários das áreas econômicas e de desenvolvimento e prefeitos —, representantes de entidades empresariais e executivos da GWM. Para estes, só há lugar para o otimismo diante de “tão grandioso investimento”, sinônimo de desenvolvimento, emprego qualificado, renda e ampliação da cadeia produtiva. Ao “outro lado” da notícia não resta sequer o papel de coadjuvante.

Pelo contrário, é nítida entre os maiores veículos a preferência por um jornalismo que se assemelha a informes publicitários do mercado ou a releases de governo, em detrimento de argumentos críticos sobre o investimento chinês, predominando a versão homogênea dos poderes estatal e econômico. Em vez de pôr em prática princípios dos quais se apoderou ao longo da história, como imparcialidade e liberdade de expressão, a imprensa tradicional se comporta como porta-voz de interesses econômicos privados.

É missão hercúlea distinguir o que é discurso das fontes e discurso jornalístico, já que ambos se alinham e se confundem. Sintomas de uma imprensa que reproduz versões oficiais sem confronto ou análise crítica, numa sequência de aspas sem fim. O mesmo ocorre quando comparamos colunas de análise, editoriais e notícias. Ideias e versões se repetem, fatos e opiniões se fundem num só corpo semântico, o que induz o leitor a enxergar as opiniões de um segmento social como fatos objetivos ou verdades absolutas.

O “outro lado” invisibilizado

Mas, afinal, o que seria esse “outro lado” que tanto faz falta? É simples: o contraditório reside no dever jornalístico de abordar todos os elementos e contradições que envolvem um investimento industrial da magnitude da GWM, haja vista os impactos sociais e ambientais gerados. Noticiar apenas o que consideram como “pontos positivos” para a economia deixa de ser jornalismo e vira propaganda, abandona questões transversais de primeira ordem e tira da sociedade o direito à voz e a uma informação contextualizada, em que estão presentes todos os lados inerentes ao fato.

A cobertura sobre a GWM ainda deixa outros assuntos relevantes em aberto e sem um debate aprofundado, ainda que citados em diversas reportagens por autoridades públicas. É o caso da alta demanda por água e energia para alimentar esse gigante industrial, dos impactos socioambientais na instalação e na operação da fábrica, bem como da pressão sobre a infraestrutura urbana de Aracruz e municípios vizinhos com o crescimento populacional. Ao contrário, a imprensa buscou repercutir o esforço que governo e fábrica empreendem a fim de atrair fornecedores, novas indústrias e erguer uma estrutura público-privada para sua operação, dotando a empresa de mimos e benesses estratégicos.

Trâmites indispensáveis à correta instalação e funcionamento da montadora, como o licenciamento ambiental, foram tratados como “problemas concretos” a serem sanados dentro de um pacto acordado entre Estado e empresa. Também normalizado pela euforia que parte de uma instituição secular que se autodefine “fiscal do poder” foi o desejo expresso pelo dono da montadora de “acelerar as próximas fases” e “fazer pressão” para ver os primeiros carros sendo fabricados “o mais rápido possível”. Segundo a imprensa, o governo se comprometeu a “acompanhar o andamento do processo de perto para evitar tropeços”.

E o que deveria se tornar um grande debate público conduzido pelo jornalismo não passou de uma votação em tempo recorde e sem alarde. Foi assim com o projeto de lei apresentado pelo governo ao legislativo que doou uma área (de quase dois milhões de metros quadrados) à GWM. Dos parlamentares partiram fortes divergências, que passaram despercebidas pelos jornalistas da mídia hegemônica – exceto de A Gazeta, que, por outro lado, abusou das aspas e silenciou a sociedade civil. Isso talvez quebraria o encanto criado pelo discurso único da imprensa até então. De todo modo, são exemplos reveladores de como os anseios do mercado são pauta prioritária e incontestável.

A exceção à regra

Trilhando caminho inverso ao da mídia tradicional, o portal Século Diário foi o único a fazer uma cobertura que evidenciou os mais divergentes pontos em torno da GWM. O jornal ouviu lideranças ambientais e das comunidades tradicionais de Aracruz e concedeu amplo espaço às discussões geradas na Assembleia Legislativa pelo projeto do governo.

A partir da visão de lideranças indígenas e de pescadores, o veículo denunciou como essas comunidades vêm sendo duramente impactadas com a chegada de empreendimentos industriais. Um ponto em comum nas matérias é o pouco enfoque dado aos números faraônicos que cercam a montadora, destacando a necessidade de clareza e transparência na condução dos trâmites que cabem ao poder público, bem como os impactos nos territórios e comunidades.

Sociedade plural, jornalismo do capital

O jornalista Bernardo Kucinski alertou, trinta anos atrás, para o problema sobre o qual reflito quando publicou “Os paradoxos do jornalismo econômico”. Num país dividido política e ideologicamente, o jornalismo, segundo ele, tornou-se homogêneo, “suprimindo as divergências existentes na sociedade, especialmente em relação aos temas que as classes dominantes devem considerar estratégicos”. Ou seja: não se questiona o que é bom para o capital; pois se é bom para ele, será para todos. Essa é a lógica que molda a notícia na imprensa hegemônica. Na visão do linguista Noam Chomsky, a mídia serve às elites quando usa a notícia como instrumento de propaganda do poder econômico, oferece um conjunto limitado de versões e marginaliza outras, direcionando a opinião pública a uma visão parcial da realidade. É aí que entra o otimismo viral no caso da GWM.

Revelar as contradições e as diferentes dimensões de um fato relevante como a chegada da GWM ao ES é dever da imprensa, malgrado suas ligações umbilicais com o poder econômico. Não é sobre o “jornalismo ideal”, que, num cenário como esse, não passa de utopia. É sobre um esforço ético e intelectual de profissionais e instituições de imprensa na realização de um trabalho que tenha entre seus compromissos o de retratar a pluralidade e os contrastes de uma sociedade historicamente fundada em processos políticos e econômicos geradores de desigualdades profundas.

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Vilson Vieira Junior é jornalista formado em Comunicação Social e mestre em Ciências Sociais, ambos pela UFES.