Sexta-feira, 23 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

Imprensa, racha na oposição e a candidatura dos “influenciadores”

(Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Os rachas políticos entre os seguidores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, criam as condições para o surgimento, entre eles, de um “candidato da internet”, como são chamados os “coach” e influenciadores das redes sociais que disputarão, muitos deles pela primeira vez, cargos eletivos em 2026. Como aconteceu nas eleições municipais de São Paulo, em 2024. O cargo foi disputado por 10 candidatos. Bolsonaro apoiava o prefeito Ricardo Nunes (MDB), 57 anos, que concorria à reeleição e tinha como principal adversário Guilherme Boulos (PSOL), 43 anos. Nas primeiras semanas de campanha surgiu o ex-coach e influenciador Pablo Marçal (PRTB), 38 anos, pedindo o apoio do ex-presidente a sua candidatura. Alegava ter usado o seu prestígio nas redes sociais e dinheiro para ajudar a eleger Bolsonaro presidente em 2018. Dois dos filhos de Bolsonaro, Carlos, 42 anos, vereador da cidade do Rio, e Flávio, 44 anos, senador do Estado do Rio de Janeiro, sentiram que o objetivo maior de Marçal era tomar o lugar do pai na política. E abriram as baterias contra o influenciador, que não foi para o segundo turno por detalhe – fez 28,14% dos votos válidos contra 29,48% de Nunes e 29,07% de Boulos. Nunes venceu as eleição.

Oponto mais polêmico na disputa pela prefeitura de São Paulo aconteceu no debate entre os candidatos realizado na TV Cultura em um domingo (15/9). Na ocasião, o apresentador de TV José Luiz Datena, 68 anos, que concorria a prefeito pelo PSDB, deu uma cadeirada em Marçal. Ele tem dito que irá concorrer a presidente em 2026. Não vou discutir o assunto, muitos menos os processos a que o influenciador responde na Justiça. O que vou discutir é que ele surgiu de um racha entre os bolsonaristas. Em agosto de 2024 publiquei o post Racha entre os bolsonaristas em São Paulo vai se alastrar para o Sul do Brasil? Na época Bolsonaro já acumulava uma montanha de processos contra si na Justiça, mas na prática era apenas inelegível por uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Desde então, a situação de ex-presidente piorou muito. Foi condenado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) a 27 anos de prisão por cinco crimes, entre eles o de ser o líder uma organização criminosa, formada por 36 ex-ministros e altos funcionários do seu governo, que tentou dar um golpe de estado. Atualmente, está em prisão domiciliar e nos próximos dias começará a cumprir a pena em um presídio. A indicação para substituí-lo na disputa pela Presidência da República contra o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que buscará a reeleição, tem, em um dos lados, os filhos Carlos, Flávio e Eduardo, 41 anos, deputado federal por São Paulo. Eles defendem que, por ser patrimônio do seu pai, a indicação deve ficar na família. Do outro lado, disputam a indicação quatro governadores: Ratinho Júnior (PSD), 44 anos, do Paraná, Ronaldo Caiado (União Brasil), 76 anos, de Goiás, Romeu Zema (Novo), 61 anos, de Minas Gerais, e Tarcísio de Freitas (Republicanos), 50 anos, de São Paulo. Ex-ministro e afilhado político de Bolsonaro, Tarcísio tem o apoio dos parlamentares do Centrão, assim chamados por sempre fazerem parte do governo, seja lá quem for o presidente. “E também do pessoal da Faria Lima”, acusa o deputado Eduardo, referindo-se aos empresários e operadores do mercado financeiro da Avenida Brigadeiro Faria Lima, da cidade de São Pulo, o principal centro econômico da América do Sul.

Além destes dois grupos que disputam o direito ao legado político de Bolsonaro há um terceiro, formado por parlamentares e governadores que se elegeram em 2022 graças ao prestígio do ex-presidente. Nesta disputa vale “dedo no olho” e “soco abaixo da cintura”, descreveu uma fonte. Tudo indica que para não perder poder o ex-presidente anunciará o seu substituto aos 46 minutos do segundo tempo, quase no final do jogo. Até as pedras dos calçamentos das ruas do Brasil sabem que quem Bolsonaro indicar terá uma chance de vencer Lula. Por quê? Simples: a polarização entre os dois, como indicam as pesquisas. E como todos nós jornalistas sabemos, não existe lugar vago na política. Atualmente, há uma vaga para concorrer contra Lula. A história de que Bolsonaro será o candidato é “conversa pra boi dormir”, como diz o dito popular. Aliás, várias bandeiras defendidas pelos bolsonaristas são coisas fora da realidade, como a defesa da anistia ampla, geral e irrestrita para os golpistas que tentaram derrubar o governo. Todos sabem que se o projeto fosse aprovado no Congresso seria derrubado pelos ministros do STF por ser inconstitucional. A soma de todas essas confusões cria um ambiente propício para o surgimento e a consolidação de um “candidato da internet” nas eleições de 2026. Como se descrevia nos tempos das barulhentas máquinas de escrever nas redações: “é uma porta aberta para a entrada de estranhos na disputa política”. Não dá para especular como seria o comportamento do “candidato da internet”. Apenas dizer que um novato estará iniciando uma nova carreira. Vou lembrar um fato. Algumas décadas atrás, as pessoas que disputavam cargos eleitorais tinham origem conhecida. Isso acabou com a internet e toda a nova parafernália eletrônica.

Para arrematar a nossa conversa. Sei que faltam braços e pernas para as redações conseguirem acompanhar o dia a dia dos bastidores da política, especialmente das eleições presidenciais de 2026. Mas é necessário ficar atento às oportunidades criadas para o surgimento de “candidatos surpresa”, atraídos pelo vácuo deixado pela insistência do ex-presidente Bolsonaro em só decidir aos 46 minutos do segundo tempo que irá substituí-lo. Claro, ele tem os seus motivos. Mas é sempre bom lembrar que não existem lugares vazios na política.

Publicado originalmente em “Histórias mal Contadas”

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.