Saturday, 20 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

As várias dimensões das fake news e a relação com os modelos de produção jornalística

(Imagem de WOKANDAPIX por Pixabay)

A dimensão mais evidente das fake news é a da mentira deliberada. Aquela notícia produzida com a nítida intenção de enganar um público, gerar prejuízo a alguém ou a alguma instituição, espalhar um conteúdo que a pessoa que compartilha sabe que é mentira. Mas a face mais sórdida da “notícia falsa” é apenas a tradução mais imediata, evidente e mal intencionada de um fenômeno que tem muitas nuances e desenvolve a cada evento formas novas de ser propagada e de operar no contexto amplo do fenômeno social e de comunicação. Para espanto de quem faz e estuda jornalismo, para além da mentira deliberada, muito conteúdo, especialmente on-line, que pode caber no espectro das fake news está relacionado a métodos e construções estéticas e de linguagem associadas à produção jornalística.

A complexidade das fake news já tem sido mapeada por muita gente que vem pesquisando o fenômeno e as diversas novas possibilidades de se propagar inverdades. Em inglês, o que usamos como o conceito guarda-chuva das fake news é dividido em duas expressões: a desinformação (disinformation) e a má informação (misinformation). Por aqui também refletimos sobre as diferenças entre a mentira deliberada e a falta de informação, a apuração incompleta, a apuração mal feita, a ausência de apuração. Mas, habitualmente, vemos as pessoas debatendo fora dos círculos especializados, nos meios profissionais de comunicação e nas redes, sobre as fake news. Muitas vezes apenas numa corrida em atribuir o conteúdo alheio ou que está distante das suas convicções como fake news. Como um selo, mais do que como um termo que implica em uma construção complexa e de muitas nuances.

Mas o que isso tem a ver com estruturas e premissas do jornalismo além do fato de ser ou ser chamada de “notícia falsa”? Com deliberada intenção de enganar ou não, a primeira condição é pensar o quanto as fake news se parecem na forma e na linguagem com uma notícia jornalística clássica. Aquela que por décadas gerações foram acostumadas a identificar como notícia. Se falamos hoje em educação midiática, precisamos começar por duas compreensões. Por um lado, entender como está articulado e estruturado (ainda que isso se transforme permanentemente) o novo ecossistema comunicativo (pra usar uma expressão do antropólogo e filósofo colombiano Jesús Martín-Barbero). Falo de uma comunicação em rede, predominantemente digital, mas sobretudo multiplataforma, que reúne novas e velhas mídias. Onde o espalhamento de informações e produções ganha uma capacidade jamais experimentada e ainda estudada. Por outro lado, a educação midiática também pressupõe compreender como fomos educados para ler notícias. E como essa estrutura que ainda está nas nossas cabeças e também na prática jornalística está também na estrutura de textos, vídeos, áudios, depoimentos, análises, posturas de pessoas que estão nas redes produzindo desinformação que se torna crível porque se parece com o que pensamos ser o formato da notícia.

Jornalismo, crises e oportunidades

Com a crise das instituições de notícias e as oportunidades (sim, crises e oportunidades é o que mais tem nesse novo ecossistema comunicativo) proporcionadas para novos veículos e novas linguagens, todo mundo em tese e na prática é produtor de conteúdo. Mas a produção e o espalhamento de conteúdos que consideramos falsos, com falhas propositais de apuração ou equívocos de checagem não deliberados, mas que geram desinformação, parecem ganhar maior dimensão e alcance quanto mais se parecem com informações jornalísticas. Nesse aspecto falo do modelo de relato direto, objetivo, que destaca um fato, recorre a uma fonte ou mais fontes para estabelecer um regime de verdade, proporcionar uma apuração ou uma evidência de causa e consequência para um acontecimento. Essa relação ocorre na perspectiva formal e está relacionada à reputação e a credibilidade do método que o jornalismo construiu. Por mais que se fale sobre o desinteresse das pessoas em ler informações jornalística. E também está, por outro lado, relacionado aos modelos engessados produzidos nas últimas décadas por um jornalismo formal, encaixotado, de declarações oficiais. Para o bem ou para o mal, o que pensamos que é o jornalismo tem educado também os produtores de fake news em diversas dimensões.

Vamos avançar um pouco mais nessa relação com os modelos que o jornalismo se acostumou a produzir e entregar. Em muitos momentos me detive em pesquisas sobre a presença do jornalista como potencial para produzir relatos mais críticos, complexos e apurados do que é percebido com a ausência de repórteres na cobertura de eventos. Estudei essa presença especialmente relacionada à cobertura de conflitos armados e pude perceber o exercício desse potencial em relatos de correspondentes de guerra e em análises de coberturas específicas. Ao refletir sobre fake news, convido a pensarmos sobre a presença de narradores em produções com informações falsas ou que produzem desinformação, mas que buscam se assemelhar a notícias em seu formato. E a potência de credibilidade, especialmente em produções audiovisuais, que essas presenças têm no novo contexto da produção em redes.

A presença dos jornalistas nos relatos ao vivo e nas coberturas construiu também parte da credibilidade na narrativa jornalística. Assim como a presença de narradores nas produções de fake news de alguma forma ecoa parte da credibilidade proporcionada pelo jornalismo a partir da história da presença de jornalistas conduzindo narrativas onde eles eram as testemunhas mais importantes. Sejam eles correspondentes de guerra ou presenças no testemunho de outros eventos locais ou internacionais. Especialmente nas produções em vídeo, a presença de quem produz o conteúdo também é destacada como uma testemunha, que pode ser a denúncia de uma ação incorreta que alguém cometeu ou a confirmação de um evento histórico. Essa presença se torna ela própria uma comprovação do que teria acontecido. Além do seu testemunho, o jornalista sempre transmitiu (e ainda o faz) os resultados de um método de apuração, confrontação de diferentes comprovações, documentos, declarações, entrevistas, indicações e dúvidas colhidas ao longo do acompanhamento que fez de um tema.

O caso da tragédia climática do RS

Penso agora nos vídeos que circulavam durante as semanas de enchentes no Rio Grande do Sul que espalharam informações sobre impedimentos para entrega de ajuda aos atingidos. Alguns deles mostravam um narrador-testemunha denunciando o impedimento diante de um caminhão em uma rodovia entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul. Mais do que isso, o vídeo afirmava que este não era um episódio isolado, mas que vários caminhões de donativos estavam sendo impedidos de passar e estavam recebendo multas nas balanças de instaladas para fiscalizar cargas. A “notícia” como formato e resultado que proporciona sínteses, avaliações, denúncia e conclusão se parece com o da notícia que os veículos jornalísticos sempre produziram.

A presença do narrador e a informação direta e objetiva, que parece ser produzida a partir de uma apuração realizada com fontes, proporciona um resultado de espalhamento da informação, que se utiliza do modelo jornalístico que educou a sociedade quando se pensa em credibilidade e reputação. Talvez o modelo considerado jornalístico, que inclui também a presença do narrador-testemunha, tenha mais peso do que a marca de empresas jornalísticas que hoje são atacadas e apontadas com desconfiança pelo leitor/espectador/usuários das redes. No caso da fake news mencionada, não há o processo de apuração, credibilidade, nem do veículo nem do repórter, exposição de contradições, diversidade de fontes ou documentos que comprovem. O vídeo se utiliza dessa linguagem sem garantir o processo de fato. É uma fantasmagoria que se repete como farsa, dificultando a ajuda humanitária às pessoas vítimas da tragédia climática.

Mas é interessante pensar, ainda nesse exercício de aproximar as fake news do método e da linguagem do jornalismo, outras nuances neste exemplo que reforçam minha questão inicial sobre as diferenças entre a mentira deliberada e os tipos de notícias que desinformam. Sem entrar em comprovações de má fé neste caso (e que sempre podem estar associadas aos demais elementos que evoco), também está neste exemplo um outro aspecto das notícias falsas. A pretensão de sintetizar e dar uma dimensão ampla a uma informação que pode, por exemplo, ser esporádica. A notícia questionada como “falsa” também pode ser pensada em um ambiente onde um fato que possa ter acontecimento, como o impedimento de caminhões de mantimentos numa rodovia, é reportado como frequente, de amplo alcance, geral ou permanente. No caso do vídeo do caminhão de donativos, havia várias perguntas a serem feitas e que um jornalista ou uma jornalista precisaria realizar para decidir como abordar e reverberar uma possível constatação e até denúncia. Se havia de fato caminhão sendo parado e impedido de prosseguir e entregar mantimentos para os atingidos pelas enchentes. Se eram parados por obrigatoriedade de alguma lei ou regra que justificasse o fato. Se a parada era um mau uso da legislação e provocava atrasos sem justificativa diante da urgência da operação de transferência de mantimentos. Se havia mais caminhões sendo parados nas mesmas condições e para o mesmo destino. Se as autoridades estavam cientes do fato e haviam tomado providencias, preventivas ou para lidar com as consequências. E ainda se havia ação deliberada de parar caminhões para que a ajuda não chegasse ao estado vizinho. O vídeo não seguiu nenhum desses métodos de apuração. Respondeu a todas essas perguntas a partir de uma presença, de um possível acontecimento de um caminhão que teria sido parado para fiscalização, atribuindo este possível fato a uma atitude deliberada de agentes públicos para impedir a ajuda da sociedade civil. Logo o espalhamento da produção em vídeo que contava a credibilidade de um narrador-testemunha no local da denúncia produziu uma onda de acusações que se somavam ao discurso sobre a ausência e desimportância da presença do Estado no socorro às vítimas.

Também pode-se pensar na ação deliberada de provocar um efeito. Mas o que me detém nesta análise é pensar em duas dimensões: o quanto a produção de conteúdo que dissemina desinformação se assemelha ao que conhecemos como linguagem e discurso jornalísticos e o quanto as fake news carregam também fatos que aconteceram mas que são tratados de forma a dar lugar à desinformação. E mesmo assim podemos chamar essas produções de fake news. Se considerarmos que os caminhões foram realmente parados e que os atingidos pelas enchentes tiveram atraso no recebimento de doações, ainda assim podemos analisar o quanto, a partir da informação factual verdadeira, é possível criar inverdades, super dimensionamentos, generalizações, acusações, discursos políticos e contribuir para um ambiente de desinformação. E esse modelo, que mistura um pretenso formato jornalístico ou baseado na imagem do jornalista, é utilizado para produção de conteúdo hoje para reforçar crenças que as pessoas já formaram sobre temas e instituições.

Processo produtivo e desinformação

O quanto desse processo está relacionado ao jornalismo, à linguagem que já desenvolvemos e como educamos midiaticamente a sociedade até hoje em relação à produção jornalística? E também o quanto não falamos e precisamos falar sobre os processos necessários para que uma informação seja digna de ser transmitida e propagada pelas pessoas? A propagação, pensando no conceito utilizado por Henry Jenkins, é uma dimensão que pode ser analisada também junto com a ideia de refletir sobre as aproximações com a linguagem jornalística nas produções de fake news. O modelo de notícia é utilizado nas produções de fake news num ambiente que propaga com muito mais velocidade e menos critérios do que o ambiente em que a linguagem jornalística foi criada e se ampara. A checagem das informações e a diversidade de fontes não acompanha a velocidade da propagação da informação contemporânea em rede.

Mas possivelmente nossas falhas sejam ainda nosso possível potencial. Costumo repetir a frase de que “processo é produto” para justificar o quanto o processo de produção da comunicação, das instituições, da informação jornalística precisa aparecer cada vez mais parar produzir credibilidade, engajamento e reforçar reputações. A relação entre estruturas jornalísticas de fake news e formatos jornalísticos clássicos nos mostram o quanto engessamos as produções jornalísticas e como podemos estar livres para pensar novos formatos sem sentir que estamos ameaçando de fato o jornalismo. Talvez nos ajude mais, investir em pensar e demonstrar o processo e os critérios que definem e regem a produção de informação e o trabalho jornalístico. O que significa apurar uma informação, colocar os fatos em perspectiva, oferecer uma dimensão singular e proporcionar a capacidade compreender o contexto, ter critérios na escolha de fontes, na diversidade de comprovações, na capacidade de dimensionar o alcance de um fato. E ainda debater a construção do olhar crítico, o quanto impacta a presença do narrador e sua dimensão testemunhar para a produção de uma notícia.

Este texto é mais um momento de reflexão de que as dimensões das fake news são diversas e que, associadas à vontade deliberada de mentir sobre um tema e de reforçar os próprios interesses e visões de mundo dos produtores desses conteúdos, ainda há relações evidentes com o modo de produção jornalístico. Seja relacionado a formatos, pressupostos de atuação e conceitos éticos, ou seja, espelhando métodos que a pesquisa jornalística já critica há décadas. E também relações entre as fake news o mau uso das melhores qualidades da produção jornalística propaga. Talvez a gente amplie as ferramentas para equilibrar a disputa se discutirmos mais o processo, os modelos de produção jornalística e sobre os critérios que ainda são válidos e fundamentais à produção de informação. Processo, afinal, é produto.

Publicado originalmente em objETHOS.

*** 

Vanessa Pedro é jornalista e pesquisadora associada do objETHOS/UFSC. É professora substituta do curso de Jornalismo da UFSC.