Monday, 04 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

Quando a ganância ofusca a autenticidade do jornalismo

Imagem: Divulgação

No ano de 2020, o jornalismo reagiu à altura dos fatos e também dos ataques provocados por Jair Bolsonaro e seus seguidores, como bem escreveu o professor Rogério Christofoletti para o Observatório da Imprensa. Houve percalços, naturalmente. O lastimável editorial “Jair Rousseff”, da Folha de S.Paulo, por exemplo, envergonhou jornalistas e leitores. Nele, havia críticas, subsidiadas por um ponto de vista neoliberal, às semelhanças da política econômica entre dois governos distintos. O bom senso não norteou os editorialistas, que intitularam o texto opinativo com uma associação do sobrenome de Dilma Rousseff, violentada nos porões da ditadura militar, ao nome de Jair Bolsonaro, que, quando parlamentar, votou favoravelmente ao impeachment da ex-presidente e fez menção à memória do torturador Carlos Alberto Ustra, algoz da petista.

Mas a mídia tradicional permanece numa guinada minimamente interessante contra o governo. Se o tom subiu, o ambiente de animosidade também levou a controvérsias. O “calcanhar de Aquiles” dos nossos jornais hegemônicos é reflexo do modelo de negócios adotado, cuja manutenção está vinculada também aos interesses financeiros de seus anunciantes. Com o ministro da Economia Paulo Guedes, e por quem mais responde por áreas estratégicas vinculadas ao capital, a nossa imprensa mantém boa vontade.

Desde o início da pandemia, o presidente da República se propôs ao papel vexatório de “garoto-propaganda” da hidroxicloroquina e de outros medicamentos que eram anunciados como “tratamento precoce” contra a Covid-19. A Organização Mundial da Saúde (OMS), assim como nenhuma outra entidade internacional ligada ao tema, não reconhece, tampouco recomenda que esses remédios sejam utilizados no combate à pandemia.

Fato que, na última terça-feira, 23, os mesmos jornais que reivindicam para si a defesa dos valores democráticos e da ciência, em meio aos rompantes autoritários e ignorantes típicos de Jair Bolsonaro, permitiram que fosse veiculado um informe publicitário da Associação Médicos Pela Vida, que defende o uso prévio de medicamentos para curar pacientes infectados pelo coronavírus e em pessoas que manifestam sintomas. O Globo, Folha de S.Paulo, Correio Braziliense, Estado de Minas, Gaúcha ZH, Jornal do Commercio, Jornal Correio e O Povo cederam alguns de seus preciosos espaços à mensagem anticientífica da Associação que, segundo denúncia do Brasil de Fato, reúne ex-alunos do filósofo e ultradireitista Olavo de Carvalho e pessoas ligadas ao governo como o ex-deputado federal e ex-ministro Osmar Terra (MDB-RS).

O anúncio funcionou como uma espécie de “Cavalo de Tróia”. Se, por hora, ajudou as receitas dos veículos a se manterem, como os troianos achavam ter conquistado a guerra quando tomaram para si o grande cavalo de madeira, são os gregos, aqui personificados na claque bolsonarista, que celebram o duro golpe dado na credibilidade da imprensa. Uma mensagem errática se intrometeu entre as notícias que, a princípio, sabemos terem como pressuposto serem bem apuradas, interpretadas e, então, redigidas. Nós, leitores, lamentamos e até cobramos uma posição que reveja o grave erro, mas os danos já foram causados. Na era das notas de repúdio e autocríticas, demandamos mais.

Ora, desde maio passado, quando o general Eduardo Pazuello assumiu a pasta da Saúde interinamente, a imprensa ampliou seus mecanismos para combater o negacionismo do governo. Meses antes, Jair Bolsonaro já havia encontrado em médicos como os da Associação o respaldo para seu discurso incipiente e atabalhoado. Dois ministros, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, caíram por não quererem levar até às últimas consequências a insistência do presidente da República em normatizar os citados remédios no tratamento contra a Covid-19. A imprensa foi — e ainda tem sido — ampla divulgadora da necessidade de se manter o isolamento social e o uso de máscaras e álcool gel, além de produzir matérias fiscalizadoras quanto à logística do Sistema Único de Saúde (SUS).

Num momento em que, felizmente, o jornalismo caminha para tornar a sua linguagem mais acessível e oferece ao público possibilidades como a checagem de notícias em tempo real, reportagens transmídia e conteúdos em podcasts, assombra que as altas cúpulas de empresas de comunicação não empreendam uma autoanálise. Afinal, não são apenas os repórteres que devem se adaptar às transformações que ocorrem no âmbito das redações, como, por exemplo, aquelas ligadas à implementação de novas tecnologias, novas formas de apurar e editar. Urge que aqueles que comandam os veículos tenham uma posição coerente. Parece que, com a veiculação de conteúdo negacionista em seus espaços publicitários, não houve essa preocupação.

Em janeiro passado, o Poder 360 divulgou levantamento realizado com dez veículos de mídia, analisados num período de 24 meses. Apesar do consumo em formato digital subir em detrimento do impresso, os dados concluem que a mídia tradicional sobrevive. De dezembro de 2018, um mês antes da posse de Jair Bolsonaro, a dezembro de 2020, os números apontam uma queda ínfima de 1,1% na circulação dos jornais: de 1.444.104 para 1.428.070 exemplares. Por que, agora, um anúncio de valor especulado em torno de R$ 200 mil reais sobrepõe-se à ética e ao trabalho jornalístico de longo prazo de uma maneira tão impactante e inesperada?

De que adianta convocar o leitor a usar amarelo em nome da democracia se, por razões financeiras, optou-se pela corresponsabilidade na disseminação do discurso negacionista que, entre outras consequências, pode abalar o regime político de um país? Não é possível admitir que por algumas moedas de prata um jornal traia sua missão, sobretudo no momento em que se acirram os ânimos e a polarização permeia por vários setores da sociedade. São garantidos dias, semanas, meses e anos a mais de circulação e sobrevida dos veículos, mas imputa-se um fardo sobre o caráter e o ideal que movem cada profissional vinculado às empresas jornalísticas.

Não se pode esquecer do que esse governo fascista se alimenta: calúnias, perseguição, cerceamento de liberdades e táticas de desinformação. Não podem também os jornalistas, independentemente dos cargos que ocupam na hierarquia nas redações, executarem o trabalho de fiscalizá-lo, expô-lo e, por que não, condená-lo quando preciso? Claro, sob a defesa imprescindível da democracia, da diversidade e dos direitos humanos. Com armas justas e prudentes, mas tão obstinados quanto seu adversário.

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Lucas de Andrade é aluno do curso de Jornalismo da UFRRJ. O conteúdo expresso no texto reflete unicamente a opinião do autor.