Sunday, 03 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

A grande omissão da imprensa brasileira na crise da Ucrânia

(Foto: Maxar/via REUTERS)

Numa guerra há sempre dois tipos de participantes: os países ou movimentos políticos diretamente envolvidos e as nações indiretamente afetadas pelo conflito. Os primeiros têm como objetivo principal derrotar o adversário, como é o caso atual da Ucrânia e Rússia. Já no caso das populações situadas fora da zona de combates, a maior preocupação é o enfrentamento das consequências econômicas, sociais e políticas da guerra, como é o caso do Brasil, por exemplo.

São conjunturas bem diferentes e que determinariam duas estratégias distintas de cobertura jornalística, mas não é o que está acontecendo aqui e em boa parte do chamado mundo ocidental. A imprensa brasileira não faz, ou não quer fazer, a opção adequada à nossa realidade específica na crise internacional deflagrada pela ação militar russa contra o governo ucraniano.

Nossos jornais e telejornais bem como a maioria dos comentaristas autônomos em redes sociais preferem tratar o conflito no leste de Europa como uma disputa entre um mocinho bom e um bandido mau, deixando em segundo plano a necessidade de um debate nacional sobre as estratégias econômicas e políticas para enfrentar a disparada dos preços dos combustíveis e alimentos, num país já afetado pelo aumento das desigualdades sociais.

Focar exclusivamente no que ocorre na Ucrânia acaba contribuindo para aumentar a publicidade das campanhas pela conquista de “corações e mentes” (1) tanto pelos governos da Ucrânia como da Rússia. Isto equivale a participar das estratégias de propaganda e contrapropaganda adotadas pelas partes em conflito e assumir uma cumplicidade na divulgação das fake news que desorientam e desinformam o público brasileiro. 

Quando a imprensa se deixa contaminar pela metáfora mocinho versus bandido na cobertura da uma guerra como a da Ucrânia, ela simplifica o conflito, ignorando a complexidade dos antecedentes históricos, culturais, étnicos e econômicos de uma região do mundo onde a instabilidade política é muito antiga. Com isto, a imprensa deixa de fazer uma leitura crítica dos acontecimentos, ignorando o dogma da isenção jornalística.  

A nossa guerra 

O noticiário jornalístico da TV Globo apresenta uma visão claramente unilateral do conflito na Europa do leste. Seus correspondentes produzem verdadeiros editoriais a favor do governo Zelensky, o que compromete claramente a credibilidade dos seus telejornais. A CNN segue o padrão de sua matriz norte-americana, com uma linha editorial simpática à Ucrânia, mas mantendo uma aparência de isenção. A Bandeirantes também é contra a invasão russa, mas com uma linha editorial bem menos tendenciosa que a da Globo

Nenhuma destas emissoras trata de motivar governantes e a opinião pública brasileira a pensarem seriamente em como enfrentar as consequências econômicas da guerra.  O resultado é a gradual perda de interesse do público por um evento distante, mas que já está alterando nossas vidas.

A imprensa e o jornalismo precisam do público para poderem sobreviver financeira e socialmente, num momento em que as empresas e a profissão passam por mudanças profundas causadas pelas tecnologias digitais de informação e comunicação. É indispensável mudar o foco da cobertura da guerra na Ucrânia e dedicar maior atenção às consequências internas do conflito. Isto vai exigir do jornalismo uma série de posturas diferenciadas em relação à rotina das coberturas de guerras. 

Os reflexos diretos da guerra da Ucrânia no dia a dia dos brasileiros são a disparada nos preços dos combustíveis e a perspectiva de fenômeno idêntico nos alimentos básicos, consequência da escassez mundial de fertilizantes agrícolas. São problemas inadiáveis e complexos que exigem uma ampla participação popular na busca de soluções, já que dificilmente o governo conseguirá resolvê-los por decreto. 

Participação popular significa a criação de fluxos diversificados de experiências, atitudes, projetos e inovações, o que só pode ser alcançado através de um noticiário voltado para as pessoas comuns.  Até agora, a imprensa tem sido essencialmente um foro em que empresários, políticos e governantes defendem seus interesses em questões como combustíveis, alimentos e finanças. 

Cabe ao jornalismo reduzir a prioridade dada à guerra e motivar as pessoas a discutir, propor e testar soluções que possam reduzir o previsível agravamento do empobrecimento generalizado da população por causa da disparada dos preços e da inflação. Esta é a nossa verdadeira guerra.

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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.