Saturday, 02 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

António Guterres, sentado num barril de pólvora

(Foto: REUTERS)

O socialista António Guterres, secretário geral da ONU reeleito e cujo mandato irá até 2027, tinha se investido na questão da prevenção da mudança climática, cuja consequências serão danosas para muitos países. Mas seu segundo mandato se transformou, desde o ataque do Hamas no 7 de outubro, na difícil “procura do tom certo para ajudar Gaza sem irritar Israel”, como comenta o semanário Expresso de Lisboa.

Durante 10 anos Alto Comissário da ONU para os Refugiados, Guterrez logo se sensibilizou com a situação dos palestinos de Gaza, em meio aos bombardeios, e tentou obter um cessar fogo para a entrada de ajuda humanitária. Mas nem todos os países concordaram com sua proposta humanitária, para eles Israel ainda tem o direito de se defender, não sendo ainda o momento de se falar em contenção. Com esse aval, Israel pode continuar com seu ataque terrestre e invadir os subterrâneos de Gaza, onde estão as estruturas do Hamas, seus arsenais e os israelenses capturados na invasão de Israel há quase quatro semanas.

Não é fácil para Guterres encontrar um equilíbrio e o tom certo, nessa questão que há meio século envenena o Oriente Médio. Ainda no Expresso, no texto do historiador Lourenço Pereira Coutinho, “António Guterrez está do lado do humanismo, não do terrorismo” se pode encontrar uma análise equilibrada da situação: Guterrez “sabe que os palestinos são mantidos em campos de refugiados pelos países árabes, que lhes recusam cidadania, e vivem em parmanente tensão com os israelenses na Cisjordânia, onde, a partir de 1967, estes estabeleceram colonatos”.

Este é um aspecto importante da questão, porém – o texto continua – Guterres “sabe também que Israel é continuamente ameaçado por organizações fanáticas que pretendem a sua destruição”.

Guterres, cuja vida política está ligada a conquistas obtidas pelo Partido Socialista em Portugal, tem diante de si um desafio, bem além das contendas partidárias nacionais: o da gestão do fim da guerra. Destruído o inimigo que pregava a destruição de Israel, assim que passar o ódio gerado pela guerra, não será o momento de Guterrez repensar na ONU, a criação efetiva do Estado palestino, com o apoio de Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, que não é amigo do Hamas? Sem a adoção dessa solução para os palestinos já decidida, no fim da Segunda Guerra Mundial, nunca haverá paz na região.

Missão impossível?

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.