Wednesday, 06 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1195

Relógio do Apocalipse indica risco nuclear igual ao da crise dos mísseis em 1962

Relógio do Juízo Final. (Foto: Cortesia do Boletim dos Cientistas Atômicos)

Os ponteiros do simbólico relógio criado há 75 anos para medir o perigo de uma guerra nuclear global mostram que estamos a meros 100 segundos entre o lançamento da primeira bomba atômica e o início de uma retaliação que pode levar à destruição de boa parte do planeta Terra. 

É apenas a segunda vez na história do relógio que ele aponta para um tempo tão curto para a chegada da fatídica ‘’meia noite” da insanidade atômica. A primeira vez foi em 1953, um período de enorme tensão entre Estados Unidos e a então União soviética e marcado pela fracassada tentativa norte-americana de invasão da Baia dos Porcos, em Cuba, em 1961, agravada um ano depois pela decisão soviética de instalar bases de mísseis atômicos em território cubano. O apocalipse nuclear foi evitado por um acordo entre Washington e Moscou.

A mais recente atualização do Relógio do Apocalipse foi feita em janeiro deste ano quando os integrantes do grupo de 28 cientistas , entre eles nove prêmios Nobel, se reuniram para avaliar os riscos de um conflito nuclear no planeta. A crise da Ucrânia ainda não tinha começado, mas o clima de tensão já havia contaminado os meios acadêmicos da Europa e dos Estados Unidos. As atualizações demoram algum tempo para acontecer por conta da diversidade e distribuição geográfica dos participantes.

Variações do Relógio do Apocalipse desde sua criação. (Wikimedia Commons)

De janeiro até agora, a situação piorou muito em termos da tensão entre os países ocidentais liderados pelos Estados Unidos e a Rússia, com seu arsenal nuclear de seis mil ogivas, 500 a mais do que o dos Estados Unidos. Segundo Caitlin Johnstone,  jornalista australiana residente nos Estados Unidos, estamos revivendo os riscos da crise dos mísseis, há 60 anos, mas com duas agravantes.

Fatores agravantes

Enquanto nos anos 50 e 60 do século passado a tensão nuclear contaminou boa parte da população mundial, hoje o medo de uma hecatombe atômica está restrito às pessoas com mais de 50 anos, porque a maioria dos mais jovens não passou pela traumática experiência de esperar o pior sem poder fazer nada. A opinião pública mundial está muito menos consciente dos riscos de um apocalipse planetário depois do fim da Guerra Fria entre o capitalismo e o comunismo.

O segundo fator agravante é o risco de decisões erradas por causa das mudanças tecnológicas nos processos de gerenciamento do disparo de armas nucleares. A automação digital dos sistemas de tomada de decisão e acionamento dos mísseis encurtou dramaticamente o tempo entre um ato e o outro. Na crise dos mísseis, todo o processo era basicamente humano, enquanto agora os algoritmos desempenham a maior parte das tarefas que antecedem o início de um apocalipse.

O cientista nuclear norte-americano Ray McGovern, autor de um artigo sombriamente intitulado “Will Humans Be the Next ‘Freedom Fries’? [1], afirma que o maior risco está nos sistemas de identificação de disparos de mísseis com ogivas atômicas. McGovern, um ex-analista de assuntos nucleares da CIA (Agência Central de Inteligência), afirma que embora os russos tenham mais e melhores armas nucleares do que os norte-americanos, o sistema deles de alerta de um ataque com mísseis é pouco confiável e desatualizado.

A terceirização do apocalipse

“Os russos sabem disto desde 1995 quando tardaram vários minutos para identificar como inofensivo um míssil militar disparado da Noruega para pesquisa atmosférica. Se o foguete tivesse uma carga nuclear, a demora na identificação seria fatal”, diz McGovern. Hoje, pesquisadores americanos acreditam que o sistema russo de detecção ainda é muito menos sofisticado do que o norte-americano, o que pode levar Putin a reagir por impulso diante da menor suspeita de ataque.

Outro elemento que tira o sono da equipe de pesquisadores do Relógio do Apocalipse é o fato de que muitos procedimentos prévios ao disparo de um míssil nuclear foram terceirizados nos Estados Unidos para empresas particulares. O elevadíssimo grau de especialização tecnológica incorporado ao sistema de deflagração de um ataque nuclear faz com que várias etapas do processo fiquem fora do controle direto das autoridades civis e militares responsáveis pelo comando das operações. Um erro ou descuido nestas condições dificilmente poderá ser corrigido a tempo.

Estes fatores estão presentes também no uso das chamadas armas nucleares táticas, artefatos de menor poder explosivo para destruição de objetivos militares específicos, como um aeroporto ou quartel. O problema é que estas bombas, depois de usadas, geram também radiação atômica de longa duração que contamina pessoas e prédios.

Convivemos com arsenais nucleares por mais de 60 anos. Já tivemos períodos de relativa tranquilidade, como o de 1991/1995 quando o Relógio do Apocalipse indicava que a humanidade tinha pouco menos de três horas para evitar uma guerra atômica. Era tempo suficiente para frear impulsos e corrigir erros. Hoje, o que deve nos assustar é a possibilidade de que o minuto e 40 segundos que nos restam sejam insuficientes para pensar e abortar um processo civil/militar parcialmente automatizado.

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Notas:

[1] Freedom Fries é uma expressão pejorativa criada em 2003 por políticos norte-americanos para mostrar irritação contra o governo francês, quando este se opôs à invasão do Iraque. French Fries é batata frita em inglês. Ao adaptar para Freedom Fries a intenção era acusar o governo francês de tolerar uma fritura da liberdade ao rejeitar uma ação militar contra Saddam Hussein

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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.