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O reaparecimento, em momentos históricos distintos, de manchetes praticamente idênticas nos três principais jornais brasileiros suscita uma questão que ultrapassa o conteúdo específico das notícias. Em 7 de outubro de 2015, Folha de S. de Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo convergiram ao destacar a abertura, ou reabertura, da ação no Tribunal Superior Eleitoral que poderia resultar na cassação da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer: “TSE abre ação que pede cassação de Dilma e Temer”. Onze anos depois, em 31 de julho de 2026, os mesmos jornais voltaram a reproduzir formulações quase literais ao anunciar que “Mendonça autoriza PF a investigar Lulinha por tráfico de influência”. A recorrência dessa convergência editorial, envolvendo personagens ligados ao mesmo campo político, convida a uma reflexão que não se satisfaz com explicações imediatas. Trata-se apenas do funcionamento ordinário das rotinas jornalísticas e dos critérios de noticiabilidade ou de um indício de formas mais profundas de homogeneização na construção da agenda pública e do debate político?
A tentação interpretativa é imediata, enxergar nessas manchetes e reportagens a confirmação de que a grande imprensa brasileira atua de maneira coordenada na construção de uma narrativa persistentemente desfavorável ao Partido dos Trabalhadores. Mas talvez a força dessas notícias resida justamente no fato de que elas não permitem uma conclusão tão simples, pois, se, por um lado, evidenciam uma homogeneidade na definição do acontecimento digno de ocupar a manchete nacional, por outro não revelam, por si mesmas, as estruturas, rotinas e relações de poder que produzem essa homogeneidade. É precisamente nessa tensão, entre a evidência da convergência e a insuficiência dessa evidência para fundamentar uma explicação definitiva, que se inscreve o problema da crítica da mídia contemporânea.
A análise crítica da imprensa fracassa quando transforma reportagens como essas em provas acabadas de uma conspiração e também quando as reduz à mera consequência natural das rotinas jornalísticas. Nos dois extremos há uma simplificação do problema, pois, a leitura conspiratória se satisfaz com a aparência da coincidência, e a leitura institucional se refugia na ideia de que a objetividade profissional basta para explicar a homogeneidade das manchetes. Ambas interrompem a investigação justamente onde ela deveria começar.
O jornalismo, enquanto campo, não produz notícias a partir de escolhas soberanas de cada redação isolada, produz a partir de disputas por posição dentro de um espaço relativamente autônomo, mas estruturalmente relacionado aos campos político, econômico e jurídico. As redações compartilham fontes, calendários institucionais, rotinas de apuração, linguagens especializadas e, sobretudo, um habitus profissional que define, antes mesmo da escrita da manchete e da reportagem, aquilo que será reconhecido como acontecimento relevante.
Um despacho do STF autorizando uma investigação sobre o filho do presidente da República reúne, objetivamente, diversos critérios clássicos de noticiabilidade, visto que envolve poder, justiça, suspeita de ilegalidade, conflito político e personagens de projeção nacional. Da mesma forma, a reabertura de uma ação que poderia cassar uma chapa presidencial constituía, em 2015, um acontecimento de inequívoco interesse público. Sob essa perspectiva, a convergência editorial pode ser interpretada como resultado esperado de um campo profissional submetido às mesmas temporalidades e aos mesmos parâmetros de seleção da notícia.
Essa explicação, contudo, possui um limite decisivo, já que ela tende a naturalizar os próprios critérios de noticiabilidade. A notícia não é um espelho transparente da realidade, mas uma codificação produzida por meio de enquadramentos culturais que selecionam determinados acontecimentos como socialmente significativos. A pergunta, portanto, desloca-se, o problema deixa de ser apenas por que três jornais escolheram a mesma manchete e passa a ser como determinados acontecimentos se tornam, reiteradamente, mais visíveis, mais urgentes e mais centrais do que outros. A seleção dos fatos nunca é neutra porque os próprios mapas de significado que orientam essa seleção são historicamente produzidos.
É nesse ponto que as manchetes e as reportagens adquirem força política, porquanto ambas envolvem personagens ligados ao PT. Esse dado, isoladamente, nada demonstra, pode refletir simplesmente a centralidade que o partido ocupou na vida política brasileira durante as últimas décadas. Presidentes da República, disputas eleitorais, escândalos de corrupção e investigações judiciais naturalmente atraem intensa cobertura jornalística. No entanto, essa mesma constatação não elimina uma questão igualmente legítima: o mesmo padrão de convergência editorial se manifesta quando suspeitas semelhantes recaem sobre atores pertencentes a outras forças políticas? A resposta não pode ser dada apenas pelas manchetes e reportagens, elas mostram convergência, não mostram comparação. A ausência dessa dimensão comparativa constitui a principal limitação metodológica da interpretação que pretende extrair uma conclusão definitiva sobre a parcialidade editorial.
A crítica da mídia exige justamente aquilo que a circulação viral dessas manchetes e reportagens frequentemente dispensa: séries históricas, análises quantitativas, estudos de enquadramento e comparação sistemática entre casos equivalentes. Investigações envolvendo familiares de presidentes, líderes partidários ou ministros pertencentes a diferentes espectros políticos precisariam ser examinadas segundo critérios comparáveis, tais como frequência das manchetes e reportagens, posição gráfica, escolha lexical, tempo de permanência na agenda e intensidade da cobertura. Sem esse trabalho, permanece apenas uma correlação visual poderosa, mas epistemologicamente insuficiente.
Entretanto, reconhecer essa insuficiência não implica absolver a imprensa de qualquer crítica, uma vez que seria igualmente ingênuo supor que a homogeneização das manchetes e reportagens constitui apenas um efeito técnico das rotinas profissionais. O jornalismo brasileiro opera em um ambiente de elevada concentração da propriedade dos meios de comunicação, poucos grupos empresariais controlam parcela significativa da circulação nacional de notícias, compartilham modelos de negócios semelhantes, ocupam posições sociais próximas e mantêm relações históricas com diferentes centros de poder econômico e político. A concorrência entre eles não elimina a possibilidade de uma profunda convergência de pressupostos acerca do funcionamento da sociedade, da economia e da própria democracia.
Sendo assim, a imprensa, enquanto aparelho privado de hegemonia, não necessita de coordenação explícita nem de reuniões secretas para produzir consensos, haja vista que a hegemonia opera precisamente porque determinados pressupostos deixam de ser percebidos como posições particulares e passam a se apresentar como o próprio senso comum. A homogeneidade editorial não depende necessariamente de uma decisão conjunta, pode emergir da partilha difusa de uma mesma visão de mundo, incorporada às rotinas profissionais como se fosse simples expressão da objetividade. A pluralidade formal de empresas jornalísticas pode coexistir, sem contradição, com uma homogeneidade substantiva na definição dos problemas públicos, dos protagonistas políticos e das narrativas legitimadas.
Essa hipótese se torna ainda mais relevante quando se considera o papel performativo das manchetes. O título de uma reportagem não apenas informa, mas produz realidade simbólica. Antes mesmo da leitura da notícia, expressões como “autoriza investigar”, “reabre ação” ou “pede cassação” instauram um enquadramento interpretativo que condiciona a percepção do leitor. Do ponto de vista jurídico, tais expressões frequentemente descrevem procedimentos preliminares, distantes de qualquer condenação. No plano da opinião pública, contudo, funcionam como marcadores simbólicos que associam determinados personagens à suspeita permanente. A repetição cotidiana desses enquadramentos contribui para sedimentar memórias políticas que sobrevivem muito além do desfecho processual.
É preciso ressaltar que o poder contemporâneo não depende prioritariamente da censura, mas da circulação intensiva e sincronizada de determinadas informações. Quando três jornais de alcance nacional escolhem simultaneamente o mesmo acontecimento como principal notícia do dia e recorrem a formulações praticamente idênticas, não se produz simplesmente redundância informativa, mas uma amplificação do enquadramento. O leitor deixa de perceber três escolhas editoriais independentes e passa a experimentar a sensação de que existe apenas uma leitura possível dos acontecimentos, legitimada pela convergência dos principais mediadores da esfera pública.
Isso não significa afirmar que exista perseguição organizada ao PT, nem tampouco que a imprensa brasileira opere como um ator monolítico. Significa reconhecer que efeitos políticos podem emergir de mecanismos estruturais sem que haja intenção coordenada por parte dos agentes envolvidos. A sociologia dos campos e a teoria da hegemonia permitem compreender justamente essa complexidade, pois instituições podem reproduzir assimetrias sem que seus participantes ajam conscientemente para produzi-las. A crítica da mídia perde potência quando substitui a análise das estruturas pela denúncia moral dos indivíduos.
Talvez o aspecto mais importante das duas manchetes analisadas seja precisamente o fato de elas recusarem respostas fáceis. Elas não provam uma conspiração, mas também não autorizam a celebração acrítica da neutralidade jornalística, porém, funcionam como sintomas de um problema mais profundo, a saber, a tensão permanente entre pluralidade formal e homogeneidade substantiva na produção da informação pública. A democracia depende de uma imprensa livre, mas também de uma imprensa capaz de refletir criticamente sobre os próprios mecanismos de construção da agenda, sobre os enquadramentos que naturaliza e sobre as relações de poder que atravessam suas práticas.
Ao final, o desafio não consiste em decidir se a imprensa brasileira persegue um partido político ou se apenas cumpre honestamente sua função de informar. Essa formulação binária talvez já esteja contaminada pelo tipo de polarização que empobrece o debate público. A questão mais fecunda é outra, a de em que medida as estruturas de produção da notícia, os critérios de noticiabilidade, a concentração da propriedade dos meios de comunicação e a força performativa dos enquadramentos contribuem para produzir uma esfera pública na qual determinadas narrativas se tornam recorrentes enquanto outras permanecem invisíveis.
As duas manchetes semelhantes dos três jornais, justapostas onze anos à distância, não respondem a essa pergunta, mas obrigam a formulá-la. E, em tempos de crescente desconfiança tanto na imprensa quanto na política, talvez seja justamente essa a tarefa mais importante da crítica de mídia, não confirmar suspeitas nem as dissipar apressadamente, mas criar as condições intelectivas para que elas possam ser examinadas com rigor, comparadas empiricamente e discutidas sem concessões aos simplismos que hoje dominam o espaço público.
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Ramsés Albertoni é Professor, Pesquisador de Pós-doutorado em Comunicação (PPGCOM-UFJF), Pós-doutorado em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF).
