Saturday, 02 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

Jornalismo na Venezuela: entrevista com Pierina Sora

“É importante analisar o discurso sobre a violência de gênero e descobrir formas para uma cobertura responsável”. Foto: arquivo pessoal

(Foto: Arquivo Pessoal Pierina Sora)

Pierina Sora é uma jornalista venezuelana nascida na cidade de Guatire, no estado de Miranda. Licenciada em jornalismo pela Universidade Católica Andrés Bello (Ucab), em Caracas, em seu trabalho destacam-se reportagens sobre direitos humanos, migração e gênero. Em 2018, a situação política e a crise econômica a fizeram deixar seu país de origem com destino a Lima, no Peru. Entretanto, ela continua envolvida nos esforços para reconstruir a democracia venezuelana.

Juntamente com seu colega de profissão Héctor Villa, Pierina concebeu o projeto Cápsula Migrante, uma iniciativa on-line que visa informar e integrar membros da comunidade venezuelana que migraram para o Peru. Para além da sua dedicação ao Cápsula, a jornalista trabalha como editora de um portal especializado em carreira e reputação profissional.

A sua experiência na imprensa inclui uma passagem pela prestigiada Red Latam de Jóvenes Periodistas de Distintas Latitudes e suas matérias têm sido publicadas em diferentes veículos, como a Revista de la Universidad de México, e plataformas digitais como Distintas Latitudes, Venezuela Migrante e Cinco 8. Saiba mais acompanhando a conversa a seguir.

Enio Moraes Júnior – A democracia venezuelana tem sido abalada nos últimos anos. Esses obstáculos políticos que o país enfrenta reforçaram o compromisso dos jornalistas com os cidadãos, com a liberdade de expressão?

Pierina Sora – Sim, claro que há um compromisso muito forte por parte dos meus colegas. Antes de tudo, é importante recordar e contextualizar o fato de que a Venezuela atravessa uma crise humanitária complexa. O governo venezuelano tem levado a cabo uma série de ações, como o assédio e a censura aos meios de comunicação social, bem como a detenção de vários jornalistas. Isso, obviamente, constitui um ataque à liberdade de expressão e de informação. Devido à situação política e social em que o país se encontra, e também por conta da escassez de papel para imprimir jornais, os meios venezuelanos tiveram que ultrapassar diferentes obstáculos e migrar para os formatos digitais. Ainda assim, ocorrem bloqueios digitais a estes meios e, por vezes, os cidadãos têm de utilizar uma VPN (rede privada virtual) para se manterem informados. Há também casos de jornalistas venezuelanos que tiveram de fugir do país. Um dos casos que me vem à mente é o do jornalista Roberto Deniz, que publicou reportagens sobre corrupção. Ainda assim, ele segue com o seu compromisso de investigar.

O trabalho dos jornalistas na Venezuela tem sido admirável e esses profissionais têm procurado alternativas para manter o seu público informado. Conheço e reconheço o trabalho que tem sido feito por vários meios de comunicação como Efecto Cocuyo e Armando.info, só para citar alguns, porque há mais. Outros decidiram inovar, tais como a equipe Venezuela Al Minuto, que trabalha via Telegram e WhatsApp, porque na Venezuela também existem problemas de conectividade.

EMJ – O Cápsula Migrante é um importante espaço de integração para os migrantes venezuelanos. Como surgiu e como funciona o projeto?

PS – O Cápsula Migrante surgiu como um projeto colaborativo e ad honorem em maio de 2020, no auge da quarentena obrigatória devido à pandemia de Covid-19. Desde então, o seu impacto tem vindo a multiplicar-se, assim como a necessidade de informação da comunidade migrante. Temos grupos de WhatsApp e um canal de informação no Youtube, onde trazemos informação de serviço comunitário, com um jornalismo focado em soluções. O projeto é conduzido por mim e por meu parceiro, Héctor Villa. Somos ambos venezuelanos e sediados em Lima.

Recebemos recentemente o Prêmio de Democracia Digital da América Latina na categoria de Jornalismo Cidadão pela campanha Migrantes Informados, que desenvolvemos em parceria com o meio de comunicação social Venezuela Al Minuto. O objetivo era fornecer informações verificadas sobre a pandemia de Covid-19 e a vacinação para migrantes e refugiados venezuelanos na América do Sul, principalmente no Peru, mas também em outros países, como a Colômbia e o Equador, que receberam os maiores fluxos migratórios da região.

EMJ – A guerra na Ucrânia desencadeou uma discussão sobre a cobertura mediática que privilegiaria migrantes e refugiados europeus em detrimento de africanos e sírios, por exemplo. Como você avalia esta questão?

PS – Se analisarmos a imprensa na Europa, as primeiras páginas dos jornais falam de uma crise migratória e não de um processo humano, humanitário. Nas manchetes, há palavras como “invasão” ou “avalanche”. Isso também se passa com outros processos migratórios. Entretanto, com o que aconteceu na Ucrânia, os meios de comunicação social destacaram manchetes com “boas-vindas a estes refugiados”, o que torna claro que existe um preconceito. Os meios de comunicação social criam, sem dúvida, realidades, e dentro destes conteúdos existem rótulos, preconceitos, racismo e aporofobia.

O grande desafio para a mídia é capacitar os profissionais de comunicação, como fotógrafos, repórteres, jornalistas, editores, radialistas e âncoras de televisão – todos eles têm um papel importante a desempenhar nas Redações – para apresentarem informação sobre migração de forma humana, empática e contextual, para que as audiências não construam uma opinião negativa sobre as pessoas que estão fugindo dos seus países. Espero que a forma como tem sido realizada a cobertura da Ucrânia, seus erros e acertos, sirva de exemplo para futuras coberturas mediáticas sobre migração, para que os mesmos erros não se repitam.

EMJ – Como tem funcionado o jornalismo regional e local na Venezuela? Quais são os temas mais recorrentes e os mais demandados pelas comunidades?

PS – O jornalismo local e hiperlocal funciona e é uma alternativa para a região. Diversos meios nativos digitais surgiram para se dedicarem a estas comunidades e empoderá-las através da informação. Muitas populações têm pouco ou nenhum acesso a notícias e estes meios preencheram esses espaços, comunicando as desigualdades que as populações enfrentam, preenchendo a necessidade de informação em temas como gênero, migração e saúde. O Cápsula Migrante é um exemplo disto, pois a comunidade de migrantes e refugiados necessitava de informação sobre seu processo de migração e integração. Foi por isso que decidimos criar o projeto. Existem também outros meios especializados, como a Salud con Lupa e La Antígona, ambos sediados no Peru. Eu li recentemente uma pergunta da jornalista mexicana Maritza L. Félix, fundadora da Conecta Arizona: “E se pararmos de medir o jornalismo local através das massas e o fizéssemos com projetos hiperlocais, que se replicassem e se abrissem ao diálogo com o jornalismo?” Esta é uma questão diante da qual precisamos nos colocar como profissionais da comunicação e explorar esta forma de chegar a um público localizado. 

EMJ – As redes sociais mudaram a forma como as notícias são produzidas em todo o mundo. Quais são os aspectos positivos e negativos desta mudança na Venezuela?

PS – Toda questão das redes sociais e do mundo digital tem ajudado diversos meios de comunicação social na Venezuela a continuar a publicar e difundir notícias. Na verdade, somos um dos países líderes na utilização do Twitter. Muitos venezuelanos usam esta alternativa, e eu me incluo, por causa de todo o problema da censura. Esta plataforma tem sido muito útil para o imediatismo e descentralização da informação. Um dos pontos negativos é que a Venezuela tem vários desafios em termos de conectividade, especialmente porque a ligação à internet é uma das mais lentas da região. Há também falhas no sistema elétrico e o bloqueio dos meios digitais, o que torna impossível para muitas pessoas o acesso fácil à informação. Posso dizer que existem outras barreiras, especialmente para os idosos ou para aqueles que não podem pagar por um smartphone. 

EMJ – As questões de gênero aparecem frequentemente no seu trabalho. Como este assunto é tratado hoje em dia no jornalismo venezuelano?

PS – Tem havido muitos esforços, mas como acontece em outras áreas, há ainda um longo caminho a percorrer para se ter uma imprensa com uma perspectiva de gênero. Desde 2021, tem ocorrido uma onda de queixas de vítimas de abusos, como o #MeToo Venezuela -com a hashtag ##YoTeCreo- com diferentes meios de comunicação dando visibilidade a essa situação. Mas, na Venezuela, há ainda uma revitimização nas manchetes. Por exemplo, os meios de comunicação social ainda falam de crimes passionais. Por este motivo, é necessária uma abordagem de gênero. É importante criar espaços de formação e caminhos para analisar o discurso dos meios de comunicação social sobre a violência de gênero e descobrir formas para uma cobertura responsável e de qualidade, sem cair no sexismo e no sensacionalismo. É importante lembrar que a imprensa desempenha um papel importante para as vítimas e sobreviventes, e é aqui que os jornalistas entram para denunciar as falhas do Estado neste setor, especialmente a necessidade de investigar e denunciar irregularidades no sistema de Justiça venezuelano.

EMJ – Como você avalia o compromisso social na formação de jornalistas na Venezuela? Que desafios terão os futuros jornalistas com o país?

PS – Enquanto este sistema de ataque e assédio à imprensa continuar, a liberdade de expressão continuará a ser um dos grandes desafios enfrentados pelos meios de comunicação na Venezuela. E eu acredito que os jornalistas continuarão empenhados neste trabalho. Sabemos que há mais de seis milhões de venezuelanos espalhados pelo mundo, mas nem todos os jornalistas emigraram; há também os que ficaram, e cada um está fazendo o melhor que pode. Já existem iniciativas jornalísticas como a BusTV, uma equipe que fornece informações e narra as notícias sobre transportes públicos. Outros formatos irão certamente surgir para continuar o trabalho, mas resta saber como será o contexto econômico para estes meios de comunicação e o que farão para se manterem operacionalmente e administrativamente. Muitos de nós permaneceremos empenhados no jornalismo venezuelano, seja no país ou na diáspora.

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Esta entrevista faz parte da série “Jornalismo no Mundo”, uma iniciativa do pesquisador e jornalista Enio Moraes Júnior, juntamente com o Alterjor – Grupo de Estudos de Jornalismo Popular e Alternativo da Universidade de São Paulo. As entrevistas são originalmente publicadas em inglês no Medium.

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Enio Moraes Júnior é jornalista e professor brasileiro. Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (Brasil), vive em Berlim desde 2017. Acesse o portfólio do autor: Enio OnLine.