Quinta-feira, 8 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1369

O crime que vende: a economia do medo no jornalismo televisivo brasileiro

(Foto: Glenn Carstens-Peters/Unsplash)

O jornalismo policial ocupa, no Brasil, um espaço simbólico e econômico que ultrapassa a simples função de informar. Ele se consolidou como um produto cultural e como um modelo de negócio altamente lucrativo para emissoras que compreenderam, há décadas, que o medo não é apenas emoção social, mas um recurso econômico capaz de fidelizar audiências e gerar receitas expressivas. A transformação de ocorrências policiais em espetáculo cotidiano, que mistura entretenimento com indignação moral, revela como a cobertura da violência se tornou mercadoria. Nesse ambiente, o crime não é apenas um acontecimento narrado: é a espinha dorsal de uma indústria midiática que se alimenta da atenção incansável do público. Quando a violência se torna conteúdo e o medo se torna estratégia, estamos diante de uma economia simbólica que molda percepções, orienta afetos e influencia políticas públicas.

Historicamente, a ascensão do jornalismo policial na televisão brasileira coincide com a expansão da televisão comercial, marcada pela busca incessante por audiência. O crime, por sua natureza dramática, converteu-se rapidamente em produto perfeito para prender a atenção e garantir a permanência diante da tela. A presença constante de programas do gênero nas grades jornalísticas revela que a violência não é apenas tema relevante, mas recurso narrativo e comercial. A lógica é simples: quanto mais tensa a cobertura, mais audiência; quanto mais audiência, maior o retorno para anunciantes. O medo transforma-se, assim, em moeda. Essa dinâmica é tão sedimentada que, para muitos telespectadores, consumir programas policiais se tornou hábito cotidiano, parte de uma rotina informativa-emocional, marcada por indignação, ansiedade e sensação de vigilância permanente.

A teoria da Cultivação, de George Gerbner, ajuda a compreender esse fenômeno ao explicar como a exposição contínua à violência televisiva molda percepções de realidade. Para Gerbner, a televisão não apenas representa o mundo: ela o cultiva. Repetições constantes de imagens, sons e narrativas produzem uma visão exagerada da criminalidade, que passa a parecer natural e inevitável. O público, cercado por essa atmosfera, tende a acreditar que vive em um país muito mais violento do que os dados confirmam. Assim, programas policialescos cultivam uma sensação permanente de risco, operando como verdadeiras fábricas de medo simbólico. Esse medo não nasce espontaneamente: ele é cuidadosamente roteirizado, selecionado e repetido para garantir que o espectador volte no dia seguinte em busca de novas ameaças e novos culpados.

Stuart Hall amplia esse debate ao discutir o papel da mídia na construção de “pânicos morais”. Quando determinados grupos sociais — geralmente jovens negros, pobres e periféricos — são sistematicamente representados como ameaça, a mídia ajuda a construir consensos sociais que legitimam práticas punitivistas e reforçam desigualdades históricas. O “inimigo público” precisa ter rosto, cor e território. E o jornalismo policial, ao enfatizar imagens de suspeitos algemados, bairros estigmatizados e narrativas que atribuem ao indivíduo a origem da violência, opera como uma engrenagem que naturaliza o estereótipo. A economia do medo, portanto, é também a economia da desigualdade: o lucro decorre da exposição contínua da vulnerabilidade de grupos que raramente têm direito de resposta.

Esse modelo narrativo reforça uma estética da violência. A câmera trepidante, o zoom invasivo, a trilha sonora dramática, os gritos de apresentadores e as cores vibrantes compõem um espetáculo que mistura adrenalina com indignação moral. O apresentador torna-se uma espécie de juiz midiático, com autoridade para classificar, condenar e humilhar ao vivo. Não se trata apenas de informar, mas de gerar emoção — e essa emoção, cuidadosamente coreografada, é parte da mercantilização do medo. Quando a audiência reage com choque ou alívio, quando se indigna ou celebra a captura de um suspeito, a emissora registra números elevados que se convertem em valor comercial. O medo, nesse contexto, é estruturado como entretenimento.

É importante destacar que a economia do medo não atua apenas no nível da percepção individual, mas também influencia decisões coletivas. O público, imerso em uma narrativa diária de caos, tende a apoiar soluções de segurança baseadas na repressão e no encarceramento. Pesquisas mostram que a percepção inflada de violência está diretamente ligada ao apoio a políticas duras, mesmo quando ineficazes. Desse modo, programas policiais não apenas informam, mas moldam o imaginário social e impactam o debate público. Ao reforçar a ideia de que o crime é problema de caráter individual e que a punição é resposta única, esses programas afastam a discussão de fatores estruturais — desigualdade, falta de oportunidades, precarização da vida — e contribuem para legitimar políticas que, muitas vezes, aprofundam o problema.

Essa distorção torna-se ainda mais evidente quando observamos a diferença entre violência real e violência percebida. Dados oficiais geralmente mostram variações, reduções ou especificidades regionais da criminalidade. No entanto, a televisão apresenta um país homogêneo e permanentemente em crise. Não importa se o caso ocorreu a milhares de quilômetros ou em um contexto completamente distinto: sua repetição transforma-o em regra. Esse processo é amplificado pela lógica digital, onde vídeos de violência circulam sem contexto, reforçando a atmosfera do medo. Programas policiais, atentos a esse terreno fértil, incorporam conteúdos virais como parte da narrativa cotidiana, ampliando ainda mais a percepção de insegurança.

A economia do medo também interfere na relação entre mídia e poder público. Governos, pressionados por narrativas sensacionalistas, muitas vezes respondem com ações rápidas e performáticas, destinadas mais a gerar boas imagens do que a resolver problemas. A espetacularização da violência cria um ambiente em que políticas públicas são avaliadas pela capacidade de gerar manchetes e não por sua eficácia real. A mídia policial, nesse sentido, funciona como arena de disputa política. Prefeitos, governadores e autoridades policiais utilizam esses programas como vitrine, transformando intervenções pontuais em demonstrações de força. A audiência emocional converte-se em capital político.

Além disso, a economia do medo afeta de forma desigual diferentes territórios. Bairros periféricos são constantemente representados como espaços de violência, enquanto áreas centrais ou nobres raramente aparecem no noticiário policial, mesmo quando registram ocorrências. A construção desse “mapa simbólico do perigo” reforça desigualdades urbanas e legitima preconceitos territoriais. Jovens periféricos passam a carregar, sobre seus corpos, a carga simbólica da suspeição. E, como observam teóricos das representações sociais, aquilo que se repete pela mídia adquire força de “verdade pública”, mesmo que seja distorção.

A mercantilização do crime também impacta a formação das identidades juvenis. Jovens expostos diariamente a narrativas que os associam à violência são socialmente fragilizados. Sua presença no espaço público torna-se marcada pelo risco de serem lidos como ameaça. Isso afeta trajetórias escolares, oportunidades de trabalho e relações comunitárias. Quando a mídia apresenta repetidamente a juventude pobre como sujeito perigoso, contribui para uma pedagogia negativa que oferece poucos horizontes de cidadania.

Por outro lado, a popularidade dos programas policiais revela também a precariedade da relação entre público e informação. A demanda por explicações rápidas, indignação moral e narrativas simples reflete uma sociedade que, muitas vezes, não encontra na mídia tradicional espaços de reflexão mais complexos sobre segurança pública. A contradição é evidente: quanto mais o público busca programas que prometem compreender o crime, menos ele compreende as causas profundas da violência. A economia do medo, portanto, produz uma falsa sensação de conhecimento — um atalho emocional que dispensa análise.

O desafio contemporâneo é construir uma crítica de mídia que não se limite a denunciar excessos, mas que compreenda como o mercado da informação influencia percepções e decisões políticas. Questionar o papel do jornalismo policial não significa negar a existência de violência real, mas recusar a narrativa única que transforma todos os problemas sociais em episódios de espetáculo. A segurança pública é tema complexo e exige reflexão, dados, análise multidimensional. Enquanto a cobertura se mantiver presa à lógica da audiência e do lucro, continuaremos a discutir violência a partir de sintomas, e não de causas.

A economia do medo, portanto, opera em camadas: afeta a forma como indivíduos percebem o mundo; influencia políticas públicas; reforça desigualdades estruturais; molda representações sociais e sustenta modelos de negócio que lucram com a ansiedade coletiva. Não se trata de censurar programas policialescos, mas de questionar a responsabilidade social de mídias que, ao vender medo como entretenimento, interferem no tecido democrático. O jornalismo deve informar de modo contextualizado, crítico e plural. Transformar violência em espetáculo pode ser lucrativo — mas tem custos sociais profundos.

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Cleyton Douglas Vital é pesquisador no departamento de Ciências da Comunicação, no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE) em Portugal. Com foco em jornalismo policial, jovens e representações midiáticas da violência.