Thursday, 29 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

As “fazendas de notícias” na era da inteligência artificial

(Foto: Gerd Altmann por Pixabay)

À medida que o uso da Inteligência Artificial (IA) aumenta de intensidade e diversidade, crescem também as incógnitas a serem resolvidas pelo jornalismo na complexa convivência com a mais recente inovação tecnológica no mundo digital. O que era visto como uma perturbadora possibilidade agora tornou-se uma realidade, depois que a organização News Guard revelou a existência de 49 páginas online rotuladas com “fazendas de conteúdos”, especializadas na distribuição de textos distribuídos como notícias produzidas por softwares de inteligência artificial.

As 49 content farms, o jargão inglês para fazendas de conteúdos, incluindo notícias (“fazendas de notícias”) sob encomenda, produzem automaticamente uma avalanche diária de aproximadamente 1.200 textos, quase a metade deles distribuídos pelo Google Ad para um público avaliado grosseiramente em várias dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo. O público-alvo destes textos são, preferencialmente, donos de blogs, influenciadores, ativistas ideológicos online como o “gabinete do ódio” e editores de páginas jornalísticas na internet, mas se destinam também às pessoas comuns.

As “fazendas de conteúdos” são parte dos 349 sites identificados, até agora pelo NewsGuard, que produzem e distribuem informações geradas automaticamente em pelo menos sete idiomas diferentes, inclusive o português. A organização especializada no monitoramento de sites afirma que as “fazendas” são hoje a principal fonte distribuidora de fake news e desinformação.

A corrida pelos bancos de dados

Só isto já basta para colocar o exercício do jornalismo em xeque nesta nova conjuntura informativa surgida no espaço digital. Mas há outras iniciativas não menos perturbadoras. As empresas Google, OpenAI, Microsoft e Apple estão em fase avançada de desenvolvimento de softwares de inteligência artificial voltados especificamente para a produção de notícias. A Google já trabalha em conjunto com o jornal The New York Times.

A OpenAI fez um acordo com a Associated Press para usar o arquivo de notícias da agência na produção automática de textos jornalísticos. A empresa criadora do famoso software ChatbotGPT, criou também parcerias com o American Journalism Project para desenvolver programas capazes de automatizar a produção de notícias locais. Por seu lado, a Microsoft, que é uma das patrocinadoras da Open AI, desenvolve um software especializado na cobertura automática de reuniões, palestras, congressos e seminários. E a Apple faz mistério em torno de seus projetos de Inteligência Artificial, mas sabe-se que ela trabalha com o site financeiro Bloomberg.

Estes são apenas os mais badalados projetos dos grandes conglomerados tecnológicos envolvendo a aplicação da inteligência artificial no exercício do jornalismo. Segundo a empresa de consultoria KPMG, nada menos que 43% das funções hoje desempenhadas por jornalistas devem ser automatizadas graças a procedimentos algorítmicos alimentados por megabancos de dados digitais.

A IA como processo inovador

Esta realidade coloca os jornalistas diante de uma série de desafios imediatos, criados pelo frenético avanço das inovações tecnológicas e do ímpeto dos investidores interessados em lucratividade máxima. A primeira coisa que os meus colegas jornalistas precisam entender é que a inteligência artificial é um processo que tem alguns anos de existência e não um produto novo. Parece uma diferença sutil, mas não é.

A produção automática de textos começou há pelo menos 30 anos e seu crescimento está associado à ampliação do volume de dados digitalizados e ao permanente avanço da sofisticação dos algoritmos que processam estes mesmos dados e os transformam em informações. Disto se deduz que os cenários catastróficos criados por marqueteiros obedecem a estratégias de comercialização rápida de produtos de inteligência artificial desenvolvidos pelas chamadas Big Techs, como é o caso do ChatbotGPT.

Assim, o jornalismo não está às portas de uma hecatombe como muitos têm afirmado, mas é inegável que a atividade precisa, mais uma vez, rever seus procedimentos, regras e valores para se adaptar a novas conjunturas profissionais. A primeira e mais polêmica das mudanças é a que cobrará do jornalismo maior ênfase na análise, avaliação e recomendação de notícias do que na garimpagem de material noticioso bruto. A qualidade da performance intelectual de um profissional predominará sobre sua habilidade no desempenho de atividades rotineiras.

O universo de mais de 5,5 bilhões de usuários da internet em todo mundo cria a possibilidade de que qualquer fato ou evento acabe rapidamente integrado ao fluxo de notícias nas redes sociais da internet. Não vale mais a pena mandar um repórter para cobrir um golpe de estado na África ou América Latina porque a notícia logo estará em mais de um jornal, blog ou site noticioso na Web. O problema será como distinguir a notícia confiável, oportuna e relevante no meio de uma enxurrada de material processado pelas “fazendas de conteúdo” especializadas em jornalismo.

Os profissionais da era da inteligência artificial terão a difícil missão de separar o “joio do trigo” e principalmente os dados, fatos e eventos de maior interesse do público-alvo ao qual o jornalista está vinculado. A cobertura da guerra na Ucrânia já nos dá uma ideia da complexidade das notícias que chegam até nós e que mais confundem do que esclarecem as pessoas comuns.

Curadoria jornalística

Funcionar como um curador de notícias deve se transformar numa atividade jornalisticamente mais valorizada do que “gastar sola de sapato” (jargão jornalístico para esforço físico) correndo atrás de dados, fatos e eventos noticiáveis. Isto colocará sobre os profissionais uma exigência de preparo intelectual muito maior do que a existente na era analógica, o que inevitavelmente acabará provocando mudanças nos cursos de formação de jornalistas, que ainda estão majoritariamente defasados em relação aos avanços tecnológicos no campo da informação e comunicação.

A automação do processo de produção de notícias oferece vantagens na diversificação, rapidez e atualização das notícias, mas não garante a confiabilidade e credibilidade porque a inteligência artificial funciona a partir de algoritmos, que são micro robôs programados. Tudo o que eles produzem depende do que lhes foi dado. Dados errados geram informações erradas assim, inevitavelmente alguém terá que promover uma mínima checagem do que sai de uma “content farm”, como faz a organização NewsGuard.

Só que o volume de material distribuído é de tal monta que nem uma centena de entidades similares conseguirá dar conta de tudo que circula na internet, que até o final de 2023 deve abrigar 120 trilhões de gigabytes em dados, segundo o site Statista, com um crescimento médio de 26% a cada ano. Estes dados, são o chamado “pasto” onde se alimentam os algoritmos da Inteligência Artificial.

O jornalismo jamais conseguirá competir com estes algoritmos em matéria de velocidade, diversidade e quantidade de dados coletados na internet. É isto que assusta muitas empresas e instituições que temem enfrentar os desafios e incertezas da inovação tecnológica. Mas os jornalistas que apostarem na sua qualificação profissional têm todas as condições de encarar a inteligência artificial, não como uma ameaça, mas como base para a produção criativa de notícias.

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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.