
(Foto: João Saplak/Pexels)
No dia seguinte à eleição, comecei a ouvir a mesma frase em conversas de amigos e de parentes. Não posso afirmar que era partidária, mas era uma frase de saída. Pessoas que nunca haviam demonstrado interesse em viver fora do Brasil passaram a falar do Paraguai como quem fala de um paraíso na terra, e falavam com uma segurança que me chamou a atenção, porque vinha sempre acompanhada dos mesmos argumentos e quase com as mesmas palavras: lugar barato, poucos impostos, bom para se viver. Não vinha de leitura de jornal, nem de um amigo que voltou de lá e contou. Vinha de vídeo e, talvez, de sentimento de luto.
Moro em Mato Grosso do Sul, estado que faz divisa com o Paraguai. Aqui o Paraguai não é uma hipótese, é um vizinho com endereço, bem ali. E foi por isso que um detalhe me chamou a atenção na minha cidade: passei a notar comércios que simplesmente não abriram pós-eleição e uma placa de “Vendo” onde antes havia um negócio funcionando. Em pelo menos um caso, o dono já havia comunicado sua indignação com os caminhos do Brasil a amigos, como se a decisão de fechar fosse, em si, um posicionamento. Não estou falando de crise no varejo local, o que exigiria outra apuração. Estou falando da coincidência de um gesto com um vocabulário, e o vocabulário é o do paraíso vizinho e o do luto partidário.
Primeiro pensei que precisava de dados firmes de que os brasileiros estão realmente indo para lá, e consegui. Pesquisei para registrar o que está além da conversa de WhatsApp e das minhas observações pessoais, e vi um crescimento. Em 2025, mais da metade das autorizações de residência concedidas pelo Paraguai a estrangeiros foi para brasileiros, cerca de 23,5 mil pessoas. No primeiro trimestre de 2026, os pedidos cresceram 85% sobre o mesmo período do ano anterior, e de cada três protocolos abertos no país, dois eram de brasileiros. Se esse movimento já vinha acontecendo antes, com o resultado desta eleição e o sentimento de parte da população que não se viu representada por ele, é razoável supor que ele cresça ainda mais. Não tenho como medir isso agora, e é justamente por isso que as minhas observações, como disse na abertura, estão postas aqui como pergunta, não como conclusão. São hipóteses a serem verificadas.
Foi abrindo as redes sociais um dia após a eleição que entendi, em parte, o que estava vendo. Perfis que antes exibiam verde e amarelo passaram a exibir preto, em sinal de luto. E foi então que a outra peça se encaixou: o vídeo que uma amiga me enviou, mostrando as maravilhas do Paraguai, não chegou por acaso nem chegou sozinho. Ela me mandou aquilo porque seu candidato perdeu a eleição e porque o sentimento é o de luto.
Sei bem que o luto político não criou esse mercado. Ele o ativou e ampliou. Os vídeos que ensinam a atravessar a fronteira existem há tempos, e sempre venderam a mesma melhoria de vida. O que muda agora não é a oferta, é a demanda. Uma decepção coletiva encontrou uma vitrine pronta, e a vitrine nunca esteve tão bem posicionada para converter dor em finanças.
E é sobre essas finanças que passo a falar, sem abranger o todo, porque esta é uma pesquisa básica e o aprofundamento fica para quem assim desejar. Existe um mercado que não é ilegal e que pode lucrar muito com isso: os vídeos e apostilas que ensinam como sair do Brasil. Há todo um ecossistema de conteúdo brasileiro dedicado a ensinar o caminho, e ele antecede a eleição, mas agora pode ganhar força. Não vou nomear autores, porque o problema não é individual, e apontar um rosto desviaria o foco do que importa. Mas é preciso dizer que ele existe e é extenso. São perfis no Instagram, canais no YouTube, grupos fechados, e o formato se repete: um brasileiro que já mora lá mostra aluguel barato, mostra a facilidade de abrir empresa, mostra a rotina, e no fim apresenta o serviço de assessoria para quem quiser repetir a experiência. A BBC News Brasil, depois de passar três dias na fila de um posto migratório em Ciudad del Este, registrou que esses conteúdos são publicados sobretudo por influenciadores brasileiros que vivem ou fazem compras no Paraguai, e que muitos oferecem serviços de assessoria a quem quiser fazer o mesmo caminho.
Mas o que esses vídeos não dizem a quem está de luto é justamente o que importa. Não dizem que o paraíso na terra é irreal. Há aí um conflito de interesse que ninguém apurou. Quem narra a facilidade é, com frequência, quem vende o serviço que promete essa facilidade. Repito: não é crime, e é importante não confundir as coisas. Mas é uma relação comercial que deveria ser declarada no próprio vídeo, e quase nunca é. Quando o relato pessoal é também peça de vendas, o espectador enlutado deixa de assistir a um testemunho e passa a assistir a um anúncio sem saber. E quando esse anúncio chega a alguém que acabou de perder uma eleição, ele não é recebido como oferta comercial. É recebido como consolo.
Essa promessa que se consolidou nas redes é a de um novo Jardim do Éden além das fronteiras brasileiras, e ela junta quatro elementos na mesma embalagem: imposto baixo, segurança, liberdade econômica e custo de vida menor. Os influenciadores preferem chamá-lo de Nova Suíça da América do Sul, rótulo que cumpre a função de dar ares de eficiência europeia ao que é, na prática, uma aposta. Cada um desses elementos tem um pedaço de verdade que sustenta a narrativa, e é justamente esse pedaço que torna a aposta convincente. O que a propaganda nunca mostra é a fatura.
Essa fatura não é falar mal do país vizinho, porque temos nossos problemas aqui também, e apurá-la com documentos não é depreciar ninguém. O Paraguai está na 150ª posição entre 182 países no Índice de Percepção de Corrupção da Transparência Internacional, com nota 24 de 100. A OCDE registra que o país não possui órgão especializado em acesso à informação pública e que não há dados públicos sobre integridade judicial nem sobre o sistema disciplinar. Não é só que a corrupção exista, é que faltam instrumentos para medir a corrupção dentro do próprio Judiciário. Diante disso, para quem grita que o Supremo está partidarizado, a pergunta é simples: trocar o Judiciário que você conhece e pode cobrar por um que você não conhece e não pode cobrar resolve o problema, ou apenas muda o seu endereço. Lutaria melhor dentro da lei, por aqui mesmo.
Ainda observei que a literatura sobre brasiguaios documenta que títulos de propriedade rural duplicados ou falsos são comuns no Paraguai, com lotes que têm dois, três e até mais títulos, e o único caminho de verificação é o judicial. Quem pensa em vender a propriedade aqui para comprar lá já considerou esse risco e o que ele custa? Sobre a segurança, ambos os países têm seus problemas, e falo com o conhecimento de quem já morou fora do Brasil: passar por dificuldades no país de origem é diferente de passar por elas em um país que não é o seu. Em Ciudad del Este, um brasileiro denunciou sequestro e extorsão praticados por policiais, e a denúncia levou à prisão de agentes. Sim, a Justiça funcionou, mas poderia não ter sido assim.
O que proponho é pauta, e ela cabe em cinco perguntas que permeiam o artigo. O que a psicologia tem a dizer sobre decisões de ruptura tomadas em momento de luto político, não para diagnosticar ninguém, mas para entender o mecanismo que faz uma decepção coletiva virar mudança de país. Quantos dos perfis que ensinam a morar no Paraguai são também vendedores de assessoria para essa mesma mudança? Quantos brasileiros desistem e voltam, e o que deixaram para trás, porque a conta de uma mudança de país não se fecha só em dinheiro. Que garantia jurídica esses contratos oferecem quando o processo falha? E quantos compradores de imóvel descobriram, depois de pagar, que o título tinha mais de um dono. Ao fim de tudo, a pergunta que resume as outras: realmente compensa?
Nada disso exige denúncia, e sim uma análise com fontes diversificadas. Exige o que a imprensa faz de melhor e, neste caso, ainda não fez: pegar um fenômeno que já existe, aliar com números oficiais disponíveis e submetê-lo à verificação, em vez de deixá-lo circular em vídeos e ideias equivocadas. Para além de partidarismo, é o nosso povo, é a nossa gente, e precisamos nos preocupar com o próximo, independentemente de suas convicções partidárias. Alertar o leitor sobre os limites de uma promessa é parte do papel cidadão da imprensa, e talvez seja o mais elementar deles, porque não se trata de escolher lado, mas de impedir que uma decisão de vida inteira seja tomada com base em informação que ninguém checou.
E para finalizar, foi olhando esse movimento que me lembrei de uma frase do Hino Nacional, aquela que diz que um filho teu não foge à luta. Ela me ocorreu ao ver tantos brasileiros olhando para fora, e penso que o hino não promete que a luta será fácil, apenas que ela será enfrentada. Os problemas que nos afetam na educação, na segurança e na saúde não desaparecem quando atravessamos a fronteira, e resolvê-los exige o trabalho lento das vias constitucionais, do voto, da cobrança institucional e do texto publicado dos jornalistas, não o gesto de quem muda o endereço. A pauta que falta, portanto, não é sobre emigração. É sobre o que se construiu em cima de uma decepção, e sobre o silêncio diante de um país vizinho que virou vitrine sem que ninguém conferisse o valor na etiqueta.
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Neide Fischer é jornalista e professora. Interessada em lógica, ciência das origens e na análise crítica dos discursos contemporâneos. Autora do livro Dogma do jaleco: fé disfarçada de método (Kindle).
