
(Desenho: Gustavo Sobral)
“(DA NANG) José Hamilton Ribeiro, repórter paulista, em uniforme de correspondente de guerra, acompanhava um dos grupos de combate. Seu grupo enveredou por um caminho coberto de capim. Debaixo da relva havia uma mina escondida. Seis homens passaram antes de José Hamilton em fila indiana. Ele foi o sétimo a passar. Mas só êle pisou na mina.”
Era preciso não parecer americano para sobreviver, deixar o cabelo crescer, escrever no peito da camisa Bau Chi (imprensa, em vietnamita) e Press no boné.
E portar o uniforme do correspondente: calça militar, camisa, camiseta e boné, tudo verde oliva, um par de botas e as resistentes meias antivietcong com sola de plástico duro para proteger das tachinhas envenenadas dos vietcong.
Mas não foi suficiente. José Hamilton foi atingido e os dias de agonia viraram a sua primeira reportagem sobre a guerra para a Revista Realidade, em maio de 1968, “Eu estive na guerra”. A redação deu a seguinte nota:
“No dia seguinte, Hamilton Ribeiro interrompia suas anotações na linha de frente: uma mina vietcong arrancou-lhe a parte inferior da perna esquerda. Realidade já publicou, no número de maio, o que foram as duas semanas de sofrimento vividas por seu repórter no front vietnamita. Agora, Hamilton Ribeiro prepara-se para deixar os Estados Unidos, onde estêve em tratamento, a fim de receber uma perna mecânica”.
Mas quem primeiro escreveu sobre o acidente e levou para as páginas da revista Manchete foi outro repórter brasileiro, que resolveu por conta própria cobrir a guerra: Luís Edgar de Andrade.
Na edição de abril de 1968, ele publicou a reportagem “Vietnã – a missão interrompida de um repórter brasileiro”. É dessa reportagem o primeiro parágrafo desse texto.
José Hamilton Ribeiro, Luís Edgar de Andrade e Antonio Callado foram os jornalistas brasileiros que estiveram no Vietnã em 1968. José Hamilton e Luís Edgar no Vietnã do Sul; Callado, no Norte. Jornalistas do mundo todo queriam ser testemunha dessa guerra e eles também foram. Viram, viveram e reportaram a guerra.
Experiência limite
José Hamilton tinha 33 anos e foi o primeiro dos três a chegar por lá. A cobertura dele virou as duas reportagens e, posteriormente, um livro: “O gosto da guerra”, publicado em 1969. Ele era repórter da Realidade, revista que circulou no Brasil entre 1966 e 1976.
Realidade era uma revista formada por jovens jornalistas que produziam reportagens ditas humanizadas, criativas e ousadas. Por isso, não queria reproduzir material de revistas estrangeiras. Queria ter o seu próprio correspondente.
Mas havia as questões dos custos e tal, a burocracia, e tudo foi resolvido porque o governo americano tinha interesse na cobertura da guerra. A embaixada comprometeu-se e pagou tudo.
É na primeira reportagem (Revista Realidade, “Eu estive na guerra”, maio de 1968) que Hamilton conta sobre a preparação da viagem:
“A longa preparação para a viagem tinha-me feito ler alguns livros sôbre o Vietnam, e o fato de em Saigon falarem francês dava-me uma certa sensação de intimidade com aquêle povo que eu ia ver pela primeira vez”.
“A guerra é uma coisa organizada e um jornalista, devidamente credenciado, passa a ter facilidades de trabalho como eu nunca tinha visto antes. Passagem aérea, por exemplo, para as frentes de luta, e concedida gratuitamente — em avião militar americano —, bastando pedi-la com seis horas de antecedência”.
Uma vez no front, ele continua a contar: o correspondente é tratado como oficial, tem respeito, admiração, cerveja e cigarros. E é preciso ter duas credenciais. Uma do governo do Vietnã e a americana, que é a que mais importa.
Repórter independente
Já Luís Edgar de Andrade tinha 37 anos e chegou ao Vietnã de posse da sua Leica. Ele havia sido demitido do jornal do Brasil, onde trabalhava, em 1967, e foi com o dinheiro da rescisão que bancou o custo da viagem. Ele queria estar lá.
E, de lá, enviou reportagens para o Correio da Manhã, Folha da Tarde, Manchete e Fatos & Fotos. Na Manchete, publicou um perfil do padre brasileiro Generoso Bargo que vivia em Saigon. A segunda foi a matéria sobre o incidente de José Hamilton Ribeiro.
No Correio da Manhã saiu uma série com cinco reportagens em maio daquele ano. Já o que saiu na Folha da Tarde e Fatos & Fotos não possível localizar.
A atividade do correspondente, segundo ele, era marcada por uma combinação de dificuldades burocráticas, rotina controlada pelos militares, distanciamento do combate e riscos reais quando se aproximava do front.
Acordavam tarde e participavam de briefings oficiais em ambientes confortáveis, com ar-condicionado e estrutura de auditório, bem diferente da guerra lá fora. Recebiam versões prontas da guerra em texto, mapas, gráficos e fotografias.
As informações, no entanto, eram transmitidas no fim da tarde, o que fazia com que chegassem ao Brasil com atraso de até dois dias. Além disso, o envio das matérias e das fotos enfrentava a resistência das companhias aéreas e os problemas do correio local.
Apesar da longa espera e da rotina burocrática, o correspondente quando chegava ao front ficava exposto aos perigos: minas, foguetes, emboscadas, o fogo inimigo e a imprevisibilidade da guerra, como aconteceu com José Hamilton Ribeiro.
O outro lado da guerra
Antonio Callado tinha 51 anos quando esteve no Vietnã do Norte e acumulava uma longa trajetória no jornalismo. Já consagrado romancista autor de Quarup, era editorialista do Jornal do Brasil quando inventou de ir ver a guerra.
Ele era um crítico da cobertura realizada pela imprensa brasileira, baseada nas agências internacionais e na versão norte-americana do conflito. Para Callado era preciso ouvir o outro lado. Era preciso apresentar a guerra na perspectiva do Vietnã do Norte.
O jornal financiou a viagem e Callado ficou encarregado de conseguir o visto para Hanói. O processo todo exigiu dez meses de negociações diplomáticas. Entre setembro e outubro de 1968, ele permaneceu umas três semanas no Vietnã do Norte.
O resultado foi a série “Vietnã do Norte: o outro lado da guerra”, publicada no Jornal do Brasil entre 18 e 24 de outubro de 1968, em cinco reportagens. Posteriormente reunidas em livro, publicado em 1969 com o título “Vietnã do Norte: advertência aos agressores”.
Diferente do correspondente que descreve o cotidiano dos briefings, das patrulhas e das incursões episódicas ao front, Callado estruturou sua cobertura de forma diferente. Ele queria compreender e mostrar como um povo pobre, rural e submetido a sucessivas guerras conseguira enfrentar e conter grandes potências militares.
Ao longo da série, ele registrou o funcionamento político do Vietnã do Norte, o papel da educação, a mobilização da sociedade, o protagonismo feminino e o “heroísmo como rotina”. E escreveu uma outra guerra.
Enquanto os colegas, para fugir da visão da guerra controlada pelos americanos, narraram os bastidores e a atividade do correspondente, Callado desviou das estatísticas de morte e olhou para os vivos, os dirigentes, camponeses, milicianas, idosos, jovens e até pilotos americanos prisioneiros, cujas cartas às famílias ele trouxe consigo.
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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br.
