
(Foto:
Marcello Casal jr/Agência Brasil)
“Professor, pensei em investigar como os paranaenses gastam as Emendas Pix”, disse despretensiosamente o estudante Rafael Coelho no meio de uma das aulas de Jornalismo Investigativo. Naquele momento da disciplina, alocada no sétimo período do curso de Jornalismo da PUCPR, os repórteres precisavam desenvolver uma pauta com base em algum banco de dados disponível online.
O desafio era explorar as plataformas que foram abertas dentro dos poderes brasileiros pela Lei da Transparência, que entrou em vigor em 2009. Ao longo do semestre, os acadêmicos aprenderam conceitos básicos sobre o campo do Jornalismo Investigativo e trabalharam, majoritariamente, com estratégias de jornalismo de dados para produzir apurações autorais e de impacto.
As pautas deveriam ser submetidas a uma reunião da redação do Portal Comunicare, o jornal laboratório do curso, abastecida pelo projeto de Contraturno Fatos – Narrativas Midiáticas. Rafael me explicou a ideia da reportagem um pouco antes de apresentá-la aos colegas. Disse que tinha encontrado o rastro dos gastos dos deputados paranaenses no Portal da Transparência do Governo Federal.
O tema era maduro. A criação e o aperfeiçoamento das chamadas “Emendas Pix” (as transferências especiais) transformaram radicalmente a gestão de recursos públicos no país, trazendo agilidade na ponta, mas também levantando debates urgentes sobre transparência, equidade e fiscalização.
Enquanto os grandes veículos nacionais cobriam os desdobramentos das decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e do plano de trabalho de transparência aprovado em 2025, Rafael fez algumas perguntas centrais ao trabalho: como essa dinâmica se materializa no Paraná? Quem são os parlamentares que mais irrigam municípios com essa modalidade e quais cidades são prioritariamente beneficiadas?
Assim nasceu a reportagem “O que paranaenses de Brasília fazem com as Emendas PIX?”, publicada em 25 de junho de 2025. O principal desafio da produção era o cruzamento de bases do Tesouro Nacional, do Portal da Transparência e do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos. O repórter precisou confrontar números, identificar assimetrias (municípios menores receberem proporções per capita muito superiores a grandes centros urbanos) e evidenciar lacunas de documentação entre o envio por parlamentares e o recebimento por prefeituras.
Para o estudante, o processo representou o confronto direto com a complexidade do jornalismo guiado por dados. Na etapa de edição e publicação no Portal Comunicare, o foco esteve em transformar tabelas complexas e estatísticas fiscais em uma narrativa visualmente clara, estruturada e pedagógica, garantindo que o interesse público prevalecesse.
A reportagem foi uma das finalistas na categoria “Produção em jornalismo investigativo ou de dados” da Expocom Sul em 2026. A premiação faz parte da programação do Congresso Regional da Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação e é considerada um dos mais importantes reconhecimentos para uma produção acadêmica de um curso de Jornalismo.
***
Rodolfo Stancki é jornalista e possui doutorado em Tecnologia e Sociedade. É um dos professores responsáveis pelo Portal Comunicare, jornal laboratório da PUCPR, instituição da qual é docente desde 2020.
