
(Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)
Era início da tarde de terça-feira, 28 de agosto de 2025, quando comecei mais um expediente como editora no ICL Notícias. Havia menos de um mês que eu assumira a função, voltando à cobertura factual. Embora nosso trabalho seja mais voltado à política, há acontecimentos que não passam despercebidos. Afinal, não há como separar o que ocorreu no Rio de Janeiro da política que o produz e o sustenta.
Logo nas primeiras horas, era evidente que algo muito grave havia ocorrido durante a operação da polícia do governador Cláudio Castro nos Complexos da Penha e do Alemão. A contagem inicial de 20 mortos crescia a cada atualização. Às 21h, já eram 64 mortes confirmadas e, ainda assim, não tínhamos noção da dimensão do massacre.
O pior aconteceria na manhã seguinte, quando moradores começaram a retirar corpos deixados na mata pelos policiais. Os corpos, muitos com tiros na nuca e alguns decapitados, eram alinhados na rua como se estivessem à espera de um reconhecimento coletivo.
A imagem captada de vários ângulos, inclusive por meio de um drone posicionado no alto, mostrava uma fileira extensa de mortos em plena luz do dia, enquanto familiares, em choque, buscavam identificar seus parentes diante de câmeras e repórteres. O Brasil assistia à maior chacina de sua história democrática: 121 mortos, entre eles quatro policiais, número superior ao do massacre do Carandiru.
Diante de uma tragédia desta dimensão, seria esperado que a imprensa reagisse com rigor. Mas logo nos primeiros dias, percebi um movimento preocupante. Uma repórter de uma grande emissora nacional se referiu aos mortos como “bandidos” antes mesmo de haver confirmação de identidade. Ainda que ela se emocionasse com a imagem de horror, não deixava de colocar todos aqueles corpos no banco dos réus.
Essa prática, que viola princípios básicos do jornalismo e da própria presunção de inocência, reproduz o discurso policial sem questionamento e contribui para a naturalização da violência policial.
Um informe recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que revisa a produção acadêmica sobre segurança pública, mostra como o debate no país tem sido marcado pela lógica punitivista e militarizada, que reduz a segurança ao combate ao inimigo, quase sempre formado por jovens negros e de territórios periféricos.
De acordo com o estudo, ao adotar a “guerra às drogas” como eixo estruturante das políticas de segurança, o Estado acaba legitimando práticas violentas e ampliando espaços de exceção, em que mortes são tratadas como efeitos colaterais aceitáveis, o que alimenta uma espécie de licença para matar, em contraste com a ideia de segurança pública como direito social e condição para o exercício pleno da cidadania.
No primeiro dia da matança no Rio de Janeiro, ainda havia um tom crítico na cobertura. Mas, conforme autoridades consolidavam narrativas oficiais e pesquisas indicavam que parte significativa da população apoiava a operação, a postura de parte da imprensa começou a mudar.
É importante deixar claro, no entanto, que não foram todos. Houve profissionais e redações que mantiveram rigor, desconfiaram das versões oficiais e deram centralidade às vítimas. Mas uma parcela importante da imprensa recuou.
O governador Cláudio Castro classificou a ação como um “sucesso” e disse que de “vítimas” havia apenas os policiais mortos. O apoio de parte da população à violência policial também parece ter influenciado a forma como os meios de comunicação reportaram a chacina.
Quando o presidente Lula chamou publicamente a operação pelo que ela era, uma matança, essa mesma parcela da imprensa tratou sua declaração como “exagerada” ou um “equívoco político”. Movimento que contribui, de certa forma, para suavizar a tragédia, em vez de encarar o massacre em si como o verdadeiro escândalo.
Enquanto isso, moradores de favelas protestavam e organizações de direitos humanos reforçavam que esse tipo de operação segue um padrão histórico de execuções sumárias, adulteração de cenas e ausência de perícia adequada. A investigação já revelou, por exemplo, que boa parte dos policiais não usava câmera corporal no momento da operação.
Em rede nacional, comentaristas, alguns conhecidos por críticas constantes à letalidade policial, passaram a defender que a suposta troca de tiros “na mata e não dentro da comunidade” teria sido uma decisão estratégica porque “preservou moradores”.
A relativização da matança se transformou em argumento técnico, como se a escolha do terreno pudesse transformar execuções em eficiência policial. Quando o jornalismo incorpora a lógica militarizada para explicar mortes, ele abandona seu compromisso com os direitos humanos.
Esse recuo também ficou explícito em manchetes e enquadramentos. Os mortos, muitos executados a curta distância, como comprovariam depois os laudos periciais, foram reduzidos a uma massa de suspeitos ou criminosos.
A polícia divulgou as fichas criminais dos mortos, entre eles um adolescente de 14 anos, rapidamente adotadas por parte da mídia como fonte legítima. Quando tivemos acesso ao material, encontramos inconsistências importantes. Entre os mortos, havia pessoas sem histórico criminal relevante, acusações sustentadas por fotos em redes sociais e tentativas de vinculação automática a facções sem investigação anterior.
A operação contrasta com decisões recentes do Supremo Tribunal Federal, especialmente no âmbito da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, que estabeleceu limites para operações policiais em comunidades, determinando comunicação prévia ao Ministério Público, justificativa rigorosa quando houver letalidade e preservação da cena do crime
A maior chacina da história do país revelou não apenas o grau de violência das forças de segurança, mas também as fragilidades do jornalismo brasileiro diante da violência do Estado. Um jornalismo intimidado pela opinião pública e alinhado ao discurso oficial não cumpre seu papel democrático de fiscalizar o poder e proteger direitos fundamentais.
Publicado originalmente em objETHOS.
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Schirlei Alves é Jornalista, mestranda do PPGJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS
