Wednesday, 10 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Porque o controle na venda de armas levou Obama às lágrimas

“O lobby das armas não pode fazer a América de refém” (Barack Obama)

Alguns insinuam que tudo não passou de estudada encenação para sensibilizar desprevenidas arquibancadas. Aprontação marqueteira lambuzada de demagogia populista. Mas não foi bem assim que o desajeitado escriba amigo de vocês viu o choro de Barack Obama ao vivo e em cores . A emoção na fala pareceu bastante sincera.

Foto YouTube / CC

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Razões poderosas não faltam, por certo, para que ele e muitos de seus compatriotas externem publicamente pesar dolorido diante da calamidade confrontada pela sociedade norte-americana com a paranoica política vigente no país que garante a qualquer um, menores inclusive, o livre acesso a armas de qualquer calibre para usos ajustados a toda sorte de conveniências nocivas.

Soam incompreensíveis aos ouvidos dos autênticos humanistas e democratas, gerando infinita perplexidade e justificados temores, os argumentos levantados por adversários do presidente dos Estados Unidos quando se contrapõem, com furor – reconhecer-se-á, talebanista – aos bem intencionados planos governamentais referentes ao fortalecimento dos esquemas de controle das armas de fogo. À luz do senso comum, o pacote de medidas restritivas anunciado chega a ser incrivelmente tímido. Fica bem aquém das expectativas legítimas que pudessem ser geradas, em qualquer ambiente civilizado, pelo cidadão do povo, com vistas a garantir a paz e a tranquilidade à sua volta.

O que Obama quer, nas ordens executivas divulgadas debaixo do fogo cerrado de desvairados oposicionistas, é simplesmente dificultar a venda a rodo de armas. É estabelecer um ordenamento mínimo na comercialização desenfreada. O que propõe montar é um sistema razoavelmente confiável de controle dos antecedentes dos compradores e vendedores. A quase totalidade deles age com plena liberdade em atividades comerciais – pasmo dos pasmos – online e em “feiras e eventos de produtos”, onde não se exige dos fornecedores dos mortíferos artigos licenciamento legal para o trabalho. O que Obama pede é maior rigor na liberação de autorizações de porte de armas e proibição taxativa na aquisição por pessoas não devidamente identificadas. O rastreamento do perfil dos compradores, entende ele sensatamente, concorrerá para reduzir as possibilidades de que as armas caiam nas mãos de elementos perniciosos à convivência humana.

Circulam hoje nos Estados Unidos em poder de civis mais de trezentos milhões de armas, quantidade superior aos estoques de muitos exércitos. A indústria armamentista, responsável maior por essa pandemia, recusa-se submeter-se a qualquer legislação que lhe retire o “direito” de comercializar livremente suas mercadorias. Isso fere, esbraveja farisaicamente, o “direito de liberdade pessoal”. Para a poderosa Associação Nacional do Rifle, uma excrescência associativa que pretende ser levada realmente muito a sério, o que entra em jogo são “prerrogativas constitucionais legítimas”, escoradas na necessidade social – vejam só o tamanho do absurdo! – de se ter uma milícia bem ordenada para segurança do Estado. Em assim sendo, o “direito” do cidadão possuir e portar armas carece ser garantido a qualquer custo. Melhor dizendo, a qualquer preço…

Imagens no estilo faroeste

Trata-se, visto está, de assustadora “aberração jurídica”. Sobretudo quando se tem presente o macabro registro dos milhares de pessoas vitimadas por armas de fogo. E o que dizer dos massacres de inocentes periodicamente promovidos por atiradores solitários que priorizam escolas – sabe-se lá por quais demenciais propósitos – como alvos dos atentados?

Obama falou desses atentados enquanto as lágrimas escorriam. Usou palavras candentes para lamentar o que vem ocorrendo frequentemente “nas ruas de Chicago”. Estranhavelmente, nada li ou ouvi, em qualquer órgão de divulgação, sobre explicações complementares a respeito de qual problema grave de violência sistemática a que o presidente dos EUA estaria se reportando nesse trecho específico de sua alocução.

Em cenas mostradas na televisão, colhidas em diferentes cidades dos Estados Unidos, aparecem cidadãos comuns circulando pelas ruas carregando “normalmente” cinturões com pistolas automáticas e pentes de balas no mais rematado estilo faroeste. As imagens fornecem-nos aterrorizante exemplo daquilo que, bem provavelmente, fez Obama verter lágrimas.

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Cesar Vanucci é jornalista