Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

A fantástica fábrica da mídia

(Foto: IMDb)

Dois filmes para o eleitor avaliar até o primeiro turno o papel da imprensa, da democracia, e a sua própria atuação no cenário em que vivemos. 

“O Debate” é uma ficção que não deixa dúvida sobre qual debate presidencial se desenrola nos bastidores, e qual a TV em questão: é a Globo durante o debate Lula e Collor de Mello em 1989. Mas também Lula e Bolsonaro nestas eleições com todos seus ingredientes – aborto, pandemia, armas, religião; os palavrões do presidente ficaram de fora. É dirigido por um ator que virou diretor, Caio Blat, tornado âncora de TV neste filme, mas é, acima de tudo, cidadão.

Como Jorge Furtado que escreveu o filme com Guel Arraes. Furtado já discutia o papel da mídia e sua influência na democracia quando dirigiu em 2014, “O Mercado de Notícias”, baseado na peça de Ben Johnson. E muito antes, em 1951, Billy Wilder colocava em questão a espetacularização de dramas humanos pela imprensa no fabuloso “A Montanha dos Sete Abutres”. Neste “O Debate”, Paulo Betti é o editor-chefe e Debora Bloch a apresentadora. Mas o foco é no público, o eleitor que vai assistir ao filme para fazer pensar.

“A Fantástica Fábrica de Golpes” é um documentário dirigido por dois jornalistas, Victor Fraga e Valnei Nunes. Abre em 1913, quando o jornal A Noite colocou uma roleta no Largo da Carioca, com a intenção de fotografar os jogadores e criticar o governo permissivo. A Noite pertencia a Irineu Marinho, que em 1925 viria a comprar um pequeno jornal de nome O Globo. Quatro anos depois do cenário montado pelo jornal para “plantar” a notícia nascia o primeiro samba gravado no Brasil, “Pelo Telefone”, em cuja letra, Donga repetia 

“O Chefe da Polícia pelo telefone manda me avisar

Que na Carioca tem uma roleta para se jogar…”

O documentário denuncia até que ponto a mídia pode manipular o público, num quadro político brasileiro que vai do suicídio de Getúlio Vargas à queda de João Goulart, da implantação da ditadura militar em 1964 ao impeachment da Dilma, e desembarca na inacreditável, nefasta, imprevisível vitória de Bolsonaro, o Brasil embasbacado com o estraçalhar do tecido público e as ameaças à democracia. No centro, o poder de uma TV como a Globo. Fica para o eleitor decidir até que ponto os fatos aconteceram por si ou por força da influência desta mídia poderosa, e de quebra, todas as outras. 

“A Fantástica Fábrica de Golpes” estreou no ano passado na Europa, “The Coup D’État Factory”, inspirado no documentário britânico de Simon Hartog, de 1993, sobre o mesmo tema e a mesma Globo, “Beyond Citzen Kane”, “Muito Além do Cidadão Kane”. O título é uma referência à obra-prima de Orson Welles sobre o magnata da imprensa Charles Foster Kane. O roteiro só foi escrito para Welles porque Mank, Josef Mankiewicz, era frequentador das festanças de Kane e resolveu contar tudo o que sabia. O filme amargou ataques da imprensa em 1941 e todos os envolvidos viveram a sua maldição por décadas, embora pela técnica cinematográfica, a narrativa, a atuação de Welles e o magnífico roteiro, seja considerado o maior filme da história. Há dois anos, pela sua bravura como roteirista neste filme, o próprio Mank virou filme, que tem seu nome no título.

“Cidadão Kane” é uma ficção tão fincada na realidade que, tal como “O Debate”, não deixa dúvidas sobre qual verdade está em questão. “A Fantástica Fábrica de Golpes” é um documentário, com depoimentos importantes como o do prêmio Nobel Adolfo Perez Esquivel, argentino, Dilma Roussef, o jornalista Glenn Greenwald, a filósofa e ativista de direitos humanos Marcia Tilburi, o deputado Jean Wyllis – os dois últimos exilados por ameaças de morte recebidas no governo Bolsonaro. Vários entrevistados dão depoimentos no Brasil e na Europa: o ex-chanceler Celso Amorim, a correspondente britânica Jan Rocha, o ex-prefeito de Londres, Ken Livingstone, o jornalista Raimundo Pereira.  

Chico Buarque é ouvido em duas entrevistas, na mais atual, da era Bolsonaro, lamenta o sequestro de sua música “Pelas Tabelas” que se refere à blusa amarela (“Ando com minha cabeça pelas tabelas/ Claro que ninguém se toca com minha aflição/ Quando vi todo mundo de blusa amarela/ Pensei que era ela puxando o cordão…), e  batendo panela (Oito horas e danço de blusa amarela/ Minha cabeça talvez faça as pazes assim/ Quando ouvi a cidade batendo panelas/ Pensei que era ela voltando para…). A música referia-se às Diretas Já, mas no Brasil de Bolsonaro a camisa amarela e o bater das panelas caracteriza a extrema direita que confiscou nossos símbolos .  “Perdi minha música, não posso mais cantar”, diz Chico. Que faz outra análise da imprensa nestes e em outros tempos difíceis, “às vezes sou criticado no primeiro caderno (política), e elogiado no segundo caderno (cultura)”.

Uma boa hora para se pensar na independência da mídia, na direção do voto e a que o país tomou neste momento, a importância da democracia e filtragem de notícias. E começar a ler e ver jornais de outro jeito.

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Norma Couri é jornalista e Diretora de Inclusão Social, Mulher e Diversidade na Associação Brasileira de Imprensa (ABI).