Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

França, a Nova Frente Popular poderá evitar o caos?

(Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil/Arquivo)

Para uma grande parte da imprensa francesa e mundial, o presidente da França, Emmanuel Macron, com a dissolução da Assembleia Legislativa há três semanas e convocação de novas eleições de deputados, propôs uma espécie de poker eleitoral, no qual com a ousadia de um jogador, apostava na sua capacidade de blefar.

Entretanto, os resultados das eleições de domingo, no primeiro turno para a formação da nova Assembleia, foram um fracasso para a direita macroniana e confirmaram as sondagens de uma vitória da extrema direita do partido Reunião ou Reagrupamento Nacional, da família Le Pen, contra o qual têm feito barragem, há 60 anos, a esquerda e a direita republicanas e democráticas. A Nova Frente Popular com direita republicana, socialistas, comunistas e extrema esquerda conseguiu resultados melhores, mas ficou em segundo lugar distante da Reunião ou Reagrupamento Nacional.

Em outras palavras, a França está a dois passos de enterrar seu passado de defesa dos trabalhadores e aposentados, dos direitos sindicais, dos direitos das minorias, de luta contra o racismo, defesa e liberdade das mulheres e proteção dos imigrantes, conquistas que poderão regredir com um governo de extrema direita nacionalista.

Por isso, o chargista Chappatte do jornal Le Temps utiliza a palavra “dissolução” com o sentido de uma autodissolução do próprio Macron, rejeitado por muitos franceses e criticado por alguns de seus ministros, que não conseguiram se reeleger no domingo, no poker de Macron, como deputados, perdendo assim a metade de seus mandatos.

En passant, a França não é o único país envolvido na onda da extrema direita. Outros países europeus já antecederam a França, como Hungria, Itália, Holanda, Dinamarca, Tchecoslováquia, Suécia e Finlândia. Sem esquecer dos países onde a extrema direita tem partido forte e pode chegar logo ao poder, como Polônia, Áustria, România, Estônia, Bélgica e Alemanha. Na Alemanha, existe o partido AFD, Alternativa pela Alemanha, com características nazifascistas. Há ainda o partido Vox na Espanha e o Chega em Portugal.

Perigo à vista: a expansão e extensão dos partidos de extrema direita pode chegar até o Parlamento Europeu, onde o número de deputados de diversos países começa a crescer e formar grupos de tendências moderadas e radicais, inclusive com os novos deputados franceses da Reunião ou Reagrupamento Nacional de Marine Le Pen, recentemente eleitos.

O negacionista norte-americano Steve Bannon, da equipe do ex-presidente Trump, tentou criar em 2017 uma estrutura para facilitar o acesso da extrema direita ao Congresso, mas sem sucesso. Na Suíça, o partido conservador UDC, majoritário no Parlamento, tem seu lado populista democrático, mas alguns de seus dirigentes mantêm ligações com a extrema direita europeia, como o holandês Geert Wilders e o francês Eric Zemmour.

De Steve Bannon chegamos aos EUA, onde a extrema direita é alimentada pelos fundamentalistas evangélicos. Diante de participantes do movimento Fé e Liberdade, Trump se autodenominou de “um cruzado cristão”. O movimento religioso evangélico neopentecostal norte-americano chegou ao norte do Brasil no começo do século passado, se alastrou e, politicamente acabou assumindo, com uma parte do ramo protestante vindo da Reforma de Lutero e Calvino, mais forte no sul do Brasil, a defesa do Golpe de 1964.

Essa aproximação do poder militar pelas lideranças evangélicas levou, depois do fim da ditadura militar, a uma aproximação do poder civil, nos governos Lula e Dilma, e, logo depois, a uma adesão à teologia do domínio, também importada dos EUA, e ao apoio ao candidato Jair Bolsonaro, que significou adesão à extrema direita e apoio aos quatro anos de seu governo. A prova é a linha política e de costumes da Bancada Evangélica.

Como ficará a França depois do segundo turno de domingo?

Até às 18 horas de terça-feira, era quase certa a vitória da extrema direita francesa de Marine Le Pen e de seu protegido Jordan Bardella. Com 33,8% dos votos, a Reunião ou Reagrupamento Nacional frente aos 28,2% da Nova Frente Popular tinha tudo para conquistar a maioria absoluta e governar a França.

Porém, diante desse risco criou-se uma união entre as esquerdas e direitas republicanas e democráticas, além de uma mobilização popular. Quinze minutos depois de anunciados os resultados do primeiro turno das eleições e diante da catástrofe iminente. O líder da França Insubmissa, Jean Luc Mélenchon anunciou a desistência dos candidatos do seu partido, colocados em terceiro lugar, em favor de candidatos mais bem colocados para impedir a vitória dos candidatos do RN de Marine Le Pen.

Foram 218 desistências que permitirão diminuir o impacto da vitória da extrema direita e impedir assim a maioria absoluta necessária para governar. Neste caso, a nova Assembleia será plural, e os partidos de esquerda e direita republicana poderão formar coligações, segundo os projetos de seus interesses, isolando a influência da extrema direita.

Entretanto, é bom acentuar, nem todos os eleitores franceses vão seguir a chamada “barragem contra a extrema direita” criada pela Nova Frente Popular. No confronto Reunião ou Reagrupamento Nacional contra Nova Frente Popular, muitos deixarão de votar ou votarão nulo por terem receio da extrema esquerda de Mélenchon. Ele é considerado culpado por ter feito campanha eleitoral usando a guerra em Gaza como pano de fundo, provocando um surto de antissemitismo e perdendo o apoio da enorme comunidade judaica na França, para obter o apoio da comunidade imigrante muçulmana, numerosa em diversas cidades e periferias.

Em todo caso, se a extrema direita obtiver a maioria absoluta, Macron ainda tem maioria no Senado e no Conselho Constitucional. Bardella não poderá fazer o que quiser, mas, é claro, poderá haver caos e muita agitação.

https://www.youtube.com/watch?v=px6NE0LWuUs

https://www.youtube.com/watch?v=tzJHDu_UXao

https://www.youtube.com/watch?v=hsgOV-Ma8ZU

https://www.letemps.ch/monde/ameriques/donald-trump-courtise-les-chretiens-evangeliques

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.