Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Luiz Antonio Magalhães

ASPAS

VEJA VS. CASAL SUPLICY

"O casal Suplicy e o paradoxo Tostines", copyright Correio da Cidadania, edição 237, 24 a 31/03/01

"Já escrevi neste espaço que a revista Veja deveria ser objeto de estudo de sociólogos e demais cientistas interessados em entender a alma brasileira neste período de virada de século. A cada dia que passa, o semanário da editora Abril se torna um emblema do chamado ?paradoxo Tostines?, também já citado: Veja vende muito porque a classe média do país é cretina ou a classe média é cretina porque lê a Veja?

Na edição da semana passada, enquanto a Argentina e a plataforma P-36 afundavam, a revista destacou na capa mais uma ?pesquisa inédita? sobre a sexualidade dos brasileiros. Assunto de grande relevância, especialmente se considerarmos algumas das principais conclusões do estudo: as pessoas mentem muito – dizem que têm uma ótima vida sexual, mas na verdade são muito infelizes na cama – e 25% dos maridos traem as esposas. Tivesse sido realizado no Cazaquistão, o estudo traria conclusões semelhantes.

O fato é que sexo vende mais do que plataforma submergindo. E muito mais do que as complicações econômicas do país vizinho. Tudo bem.

Além do viés mercadológico, a revista tem se esforçado para explicar aos seus fiéis leitores que o Brasil de hoje é um país dividido. Há os bons – favoráveis à privatização, à globalização, ao consumo e às ?coisas boas da vida? – e os maus, bando de fracassomaníacos que insiste em apontar uma meia dúzia de ?pequenos aborrecimentos?, como a miséria, desigualdade social, doenças medievais recrudescendo, indústria nacional chafurdando etc.

Mais do que explicar a divisão, é preciso fazer o leitor identificar os maus. Inimigos identificados, urge convencer o público a combate-los. Veja faz tudo isso maravilhosamente.

Há inimigos, porém, que trafegam camuflados. São os mais perigosos. E o perigo do leitor se confundir precisa ser combatido a ferro e fogo. Todas as armas são válidas. Na edição da semana passada, Veja sacou os revólveres contra o casal Suplicy.

De fato, o senador Eduardo e a prefeita Marta são inequivocamente da turma do mal. Pertencem àquela perigosa agremiação que deseja reduzir as diferenças entre o topo e a base da pirâmide do país. O problema é que o casal não se assemelha com os demais membros da seita. Na verdade, os dois até são esteticamente parecidos com o pessoal saudável que há seis anos trabalha duro para fazer deste país um quintal mais agradável para os nossos irmãos do Norte.

Armas sacadas, Veja desta vez usou a popular Vejinha SP, que publicou uma reportagem sobre as sessões de psicodrama que a prefeitura de São Paulo está começando a promover com o tema ?Ética e Cidadania?. A iniciativa de Marta Suplicy é ironizada de maneira sutil, mas firme. Sobre a utilidade do projeto, por exemplo, a revista publicou o seguinte: ?Na pior das hipóteses, pode-se sair aliviado, depois de encher de murros a almofada: ‘Esta é pelo trânsito! Esta é pelo trombadinha que me assaltou anteontem. E esta aqui é pelo meu pneu que furou no buraco!’?

Evidentemente, a Abril tem o direito de achar que o psicodrama é um projeto inócuo ou um factóide. O ataque, porém, não é sério – se fosse, a repórter teria pelo menos entrevistado profissionais da área que discordam da iniciativa -, mas enviesado. Até porque o público da Vejinha é capaz de estar gostando da nova idéia da prefeita.

O trecho dos psicodramas não é o mais grave. De lascar, mesmo, é o ataque ao senador, que no fundo nada tem a ver com a questão. O título da reportagem é ?Em busca do eixo?, em uma óbvia referência a um episódio ocorrido durante a campanha de Eduardo Suplicy à prefeitura São Paulo, em 1985. A alusão fica explícita no texto: ?Por alguns meses, há uns vinte anos, seu marido, o senador Eduardo Suplicy, fez parte de um grupo. ‘É uma maneira formidável de compreender melhor o próximo’, diz ele, que em 1985 afirmou que estava à procura de seu eixo quando abandonou por uns dias a campanha para a prefeitura.?

Contra o casal Suplicy, a arma de Veja será sempre o ataque pessoal, via de regra de baixíssimo nível. Não pode haver dúvida: eles são do mal."

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