Tuesday, 05 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

O mês do cachorro louco e o jornalismo climático embaixo do tapete

Examinando a mídia local e seus noticiários padronizados, vê-se um deserto informacional que ainda se contenta com expressões como “calor fora de época” para explicar o que está acontecendo. (Foto: Freepik)

A cidade de Florianópolis teve temperaturas acima da média histórica em 18 dos 22 primeiros dias deste mês de agosto, de acordo com dados do portal AccuWeather e os padrões registrados pelo Ciram (Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de Santa Catarina), que integra a estrutura da Epagri, a empresa de pesquisa agropecuária do estado.

Os termômetros, se obedientes, não deveriam ultrapassar os 24ºC nestes dias em que os manezinhos costumavam chamar de “mês do cachorro louco”, em mais uma mistura de lendas místicas e brincadeira. Contudo, o que se viu foram temperaturas na casa dos 30ºC.

Acompanhando o noticiário meteorológico local, pouco ou nada se viu para informar a população de que isso não é normal. Seis graus não é pouca coisa, basta pensar em nossa temperatura corporal. Já pensou um pulo de 36ºC para 42ºC?

De acordo com o Climate Central, grupo científico independente dos Estados Unidos que mapeia oscilações do clima, na sexta-feira 18, por exemplo, o tempo na capital do estado era quente, com uma probabilidade alta, na classificação do monitoramento americano, de estar sob impacto das mudanças climáticas.

O Climate Shift Index, serviço online que compara temperaturas em tempo real para estabelecer o impacto do aquecimento global, possui uma escala de zero a cinco, indo desde uma temperatura padrão para o dia (índice zero), até uma situação de probabilidade cinco vezes maior de que a cidade está sob efeito das mudanças climáticas (índice cinco). Na sexta-feira 18, Florianópolis esteve no nível 4.

O jornalismo climático ainda é novidade, mas não deveria ser. A emergência global pede atitudes locais, e examinando a mídia local e seus noticiários padronizados, vê-se um deserto informacional que ainda se contenta com expressões como “calor fora de época” para explicar o que está acontecendo.

Em escala nacional, aos poucos os principais telejornais incorporam explicações, associando fenômenos extremos às mudanças climáticas. Ou seja, informando a população de que o que aconteceu não foi só uma chuva forte, ou um calorão surpreendente. O mundo está mudando, e os fenômenos e suas causas estão postos: o veranico não é só um veranico e a queima de combustíveis fósseis deve terminar para que a humanidade se previna contra o caos climático.

A reboque, convém aproveitarmos para analisar também outras cadeias de produção, como a construção civil ou a tecnologia, e reavaliar o esgotamento de recursos naturais e a poluição galopantes, sob a luz de conceitos como o capitalismo regenerativo ou a economia circular, mas isso fica para outra conversa.

Quero apaziguar corações e mentes dizendo que a cobertura climática não precisa e nem deve ser militante. O trabalho, na verdade, deve ser científico, guiado pela precisão dos números.

Um jornalismo que considera o tamanho das mudanças climáticas ganha naturalmente tom crítico, pois vai botar o dedo em diversas feridas. Uma coisa leva à outra: a temperatura está alta, principalmente pela queima de combustíveis; para queimar menos combustível, deve-se priorizar o transporte coletivo, uma responsabilidade da prefeitura; outra medida supernecessária é preservar o verde existente e aumentar a população de árvores nas cidades, o que melhora o ar e a resistência contra inundações, por exemplo; mais uma missão para a prefeitura, porém isso demanda uma postura menos amistosa com interesses do mercado imobiliário. As rusgas são e serão muitas, eu espero, mas o bode precisa sair da sala.

Percebe como um “calor fora de época” pode esconder muita informação?

Aos colegas jornalistas, peço: evitem a sonegação climática. Aos colegas jornalistas e cidadãos mais interessados, sugiro: a mudança climática pode ser encontrada em diversas pautas, desde a pobreza e desigualdade social, passando pela indústria, o consumo consciente, até cair no colo da política. É como se todo o noticiário tivesse se transformado em uma grande previsão do tempo. Será que vai dar praia?

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Marco Britto é mestrando no PPGJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS