Terça-feira, 10 de março de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1378

A tela de tudo

(Foto: Terje Sollie/Pexels)

Após carregarem pesadas pedras para erguer as pirâmides, arrastadas à tração animal, os escravos egípcios devem ter ficado agradecidos e, ao mesmo tempo, perplexos, quando um deles, na Mesopotâmia (atual Iraque), inventou a roda. Do mesmo modo nossa geração se surpreende com a agilidade “mágica” da robótica e dos algoritmos para desempenhar tarefas com maior velocidade e precisão que a habilidade humana.

O algoritmo veio inaugurar uma nova era civilizatória ao nos oferecer uma outra “roda”: a inteligência artificial que, diga-se de passagem, nem é propriamente inteligência nem artificial, pois é toda programada por seres humanos, embora tenha desempenho automático. Mas, sem ela, não poderíamos pesquisar os buracos negros nos longínquos espaços siderais e penetrar os diminutos recônditos da matéria graças à nanotecnologia.

A roda veio facilitar todo tipo de transporte, da mala de viagem, que já não temos que carregar, ao caminhão que leva pesados blocos de pedra. Mas, sem ela, não haveria tantos acidentes de trânsito. A culpa, com certeza, não é da tecnologia. É do uso que dela fazemos, e isso vale para a inteligência artificial. É programada pela inteligência humana, supera-a em agilidade, porém não em criatividade. Pode fazer complexos cálculos matemáticos em milésimos de segundos, mas é incapaz de produzir um romance à altura de 𝗗𝗼𝗺 𝗤𝘂𝗶𝘅𝗼𝘁𝗲 (1605/1615), de Cervantes (1547-1616), ou 𝗚𝗿𝗮𝗻𝗱𝗲 𝗦𝗲𝗿𝘁𝗮̃𝗼: 𝗩𝗲𝗿𝗲𝗱𝗮𝘀 (1956), de Guimarães Rosa (1908-1967).

Na pauta de defesa da democracia há que entrar a regulação do uso dos algoritmos, de modo a amenizar o impacto do que a socióloga estadunidense Shoshana Zuboff chama de “capitalismo de vigilância”. Nenhuma lei, por mais bem elaborada que seja, sobrevive sem o apoio da educação. Normas não substituem consciência. Regras não ocupam o lugar do diálogo.

Sem letramento digital, a proteção legal corre o risco de se tornar uma estrutura vazia. Pais e educadores transitam hoje por um terreno instável, oferecendo às crianças acesso irrestrito a ambientes que desconhecem. As crianças deixaram as praças, os bancos de cimento, os jogos improvisados no fim da tarde. Saíram do espaço do encontro para habitar territórios digitais muitas vezes solitários, acelerados e opacos. O letramento digital, nesse contexto, não se resume ao domínio técnico das ferramentas, mas à construção de critérios, limites e senso crítico. Trata-se de proteger o valor da infância em um ecossistema que insiste em transformá-la em dado, engajamento e mercadoria. A tecnologia abriu janelas para o mundo, o letramento é o que impede que se caia delas. Na era dos algoritmos, talvez o maior gesto civilizatório seja garantir que ninguém fique para trás — nem fora da tela, nem fora do cuidado.

No livro 𝗔 𝗳𝗮́𝗯𝗿𝗶𝗰𝗮 𝗱𝗲 𝗰𝗿𝗲𝘁𝗶𝗻𝗼𝘀 𝗱𝗶𝗴𝗶𝘁𝗮𝗶𝘀: 𝗼𝘀 𝗽𝗲𝗿𝗶𝗴𝗼𝘀 𝗱𝗮𝘀 𝘁𝗲𝗹𝗮𝘀 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗻𝗼𝘀𝘀𝗮𝘀 𝗰𝗿𝗶𝗮𝗻𝗰̧𝗮𝘀 (2021), o neurocientista Michel Desmurget, diretor de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde da França, propõe a primeira síntese de vários estudos que confirmaram os perigos reais das telas digitais e nos alerta para as graves consequências de continuarmos a promover sem senso crítico o uso dessas tecnologias. No livro, Desmurget apresenta conclusões firmes e sustentadas por estudos científicos sobre os efeitos do uso excessivo de telas digitais (ecrãs) no desenvolvimento intelectual das crianças e adolescentes. Convém salientar que ecrã (ou ecran) é a superfície, tela ou monitor utilizado para visualizar informações, imagens e vídeos em dispositivos eletrônicos como computadores, smartphones e televisores. Originário do francês écran, é o termo preferencial em Portugal, enquanto “tela” é mais comum no Brasil para descrever o visor de dispositivos e monitores.

A principal conclusão do autor é que a exposição intensa e precoce às tecnologias digitais não melhora a inteligência nem o desempenho cognitivo, contrariando o discurso comum de que as novas gerações são mais “avançadas” por crescerem rodeadas de tecnologia. Desmurget demonstra que o tempo excessivo em frente a telas digitais (ecrãs) é prejudicial à saúde física e mental.

É bom que se diga: a tela marca o direcionamento editorial da Inteligência Artificial (IA). Segundo as palavras didáticas de Vitor Magnani, presidente do Movimento Inovação Digital (MID): “no português claro e inclusivo, a IA é um sistema que aprende a partir dos dados recebidos. Se você não costuma consumir carne, por exemplo, a IA não deve lhe apresentar opções de churrascaria” (𝗖𝗡𝗡 𝗕𝗿𝗮𝘀𝗶𝗹, edição online de 18/8/2023). Quando utilizamos serviços das big techs, geramos dados para o mercado; a menos que haja vazamentos, nunca sabemos o que é feito com essas informações.

“Historicamente, as redes de comunicação tinham um único propósito. A rede de comunicações original era empregada, nos anos de 1840, em suporte à telegrafia. Em 1870, enquanto a rede de telefonia estava sendo construída, a comunicação de voz era realizada em circuitos telegráficos alugados da 𝗪𝗲𝘀𝘁𝗲𝗿𝗻 𝗨𝗻𝗶𝗼𝗻. Inicialmente, a transmissão de dados era realizada em baixa velocidade através da rede de voz. Apenas nos anos de 1960 começou a emergir uma rede específica para dados. A partir de então, comunicações de dados aconteciam em redes especificamente projetadas para esse fim e também em circuitos dedicados para serviços de voz e adaptados a serviços de dados. Embora existisse algum nível de compartilhamento de infraestrutura, as redes de dados e voz eram separadas e distintas”.

O livro 𝗥𝗲𝗱𝗲𝘀 𝗱𝗲 𝗰𝗼𝗺𝘂𝗻𝗶𝗰𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗰𝗼𝗻𝘃𝗲𝗿𝗴𝗲𝗻𝘁𝗲𝘀 (2008), de Antonio José Martins Soares e colaboradores, continua a dar detalhes sobre arquiteturas, tecnologias e protocolos que sustentam as novas redes multimídia. A obra discute como a convergência de serviços — voz, vídeo e dados, o chamado 𝘁𝗿𝗶𝗽𝗹𝗲 𝗽𝗹𝗮𝘆 — tornou-se uma exigência de mercado diante da expansão da banda larga.

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Marcos Fabrício Lopes da Silva é Membro da Academia Cruzeirense de Letras – ACL (Cruzeiro-DF). Doutor e Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE/UFMG). Poeta, escritor, professor e pesquisador. Jornalista, diplomado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), e autor do livro 𝗠𝗮𝗰𝗵𝗮𝗱𝗼 𝗱𝗲 𝗔𝘀𝘀𝗶𝘀, 𝗰𝗿𝗶́𝘁𝗶𝗰𝗼 𝗱𝗮 𝗶𝗺𝗽𝗿𝗲𝗻𝘀𝗮 (Outubro Edições, 2023). Participante do Coletivo AVÁ e apresentador do Sarau Marcante.