
(Foto: Caleb Oquendo/Pexels)
Há pouco mais de uma semana, quando William Bonner se despediu da ancoragem do Jornal Nacional, depois de 29 anos na bancada, o telejornalismo brasileiro fez de uma troca de equipe um momento de grande reflexão sobre a profissão e, por consequência, sobre nossos trabalhos.
Em alguns minutos, Bonner explicou, de novo e dessa vez para milhões de brasileiros, os motivos pelos quais estava deixando o Jornal Nacional:
“Chegou o dia. Dois meses atrás, eu avisei aqui no ‘Jornal Nacional’ que eu ia sair, que eu estou indo para o ‘Globo Repórter’. Isso era o fim de um período de cinco anos de preparativos de sucessores para mim na apresentação do Jornal Nacional, na chefia do Jornal Nacional e de todas as pessoas que se envolveram nessas mudanças, porque cada um que sai de uma exposição tem que vir outro. Cinco anos se passaram, ciclo concluído, e hoje, dois meses depois do anúncio que foi feito no dia 1º de setembro, aniversário do ‘JN’, eu estou concluindo então esse ciclo no JN. E por que eu estou saindo?”
A partir daí, o jornalista passou a falar de tempo, jornalismo e paixão pela profissão:
“Você deve se lembrar, eu fiz um comentário sobre a época da pandemia, quando eu me queixei comigo mesmo da falta de tempo para fazer, além das coisas que eu precisava fazer, coisas que eu queria fazer. A gente encontrou aqui na Globo a forma de eu continuar no jornalismo, que é a profissão que eu adoro, que eu amo, e, na verdade, é o que eu sei fazer mesmo, que eu tivesse que mudar de profissão agora ia ser bem difícil pra mim, mas eu podia mudar de atividade.”
E, nos segundos finais, o destaque foi para as nossas rotinas de produção, mesmo sem sequer citar a expressão. Isso porque o jornalista falou notícias factuais que demandam urgência. Com ênfase na urgência.
“É assim: um telejornal diário, como o que eu faço há 40 anos da minha vida, todo dia, ele tem duas matérias primas. Ele tem a notícia do dia, fresca, urgente. É o que a gente chama de factual. E ele tem também, quando o tempo permite, reportagens de atualidade que não tem essa urgência toda. São coisas que tem acontecido, acontecem hoje, amanhã. Eu posso exibir essa reportagem daqui uma semana e tudo bem, podia ter exibido semana passada. E aí, se eu me dedicar não mais ao factual, ao dia a dia, pesado, aquela urgência toda, e me dedicar às atualidades, a vida fica mais suave”.
E quem não quer a vida mais suave?
Em dois minutos, um dos jornalistas mais famosos do Brasil, com uma folha salarial absurdamente maior da imensa maior de pessoas que exercem a profissão, atribuiu a renúncia de um cargo do alto escalão a necessidade de ter tempo, seja para si próprio ou para fazer um outro jornalismo: aquele que é permitido tempo para produção.
Isso não significa que agora, com a mudança, Bonner vá ter um salário semelhante a média da categoria. Muito menos que ele decidiu aproveitar mais a vida no estilo ‘bon vivant’.
O que o discurso de despedida nos mostra é que, no fundo, tudo é sobre trabalho. E o jornalismo tradicional, construído sobre a lógica da agilidade e rapidez, aliado à plataformização da vida, às reconfigurações da profissão pelo neoliberalismo e pela consequente precarização, já não oferece recompensas suficientes para segurar profissionais nesse ritmo.
Recompensas que são, sim, materiais, como salários, vínculo empregatício, plano de carreira, benefícios de saúde e alimentação e previdência. Mas também são simbólicas: a própria paixão citada por William Bonner já foi capaz de manter profissionais na carreira (ainda é?).
E, finalmente, mas não menos importante, a despedida de Bonner também nos ajuda a pensar e repensar sobre aquilo que é factual.
Notícias, ritmo de vida, mutações
Com a suposta urgência da notícia (o que realmente é urgente? E pra quem isso é urgente?), você vive um dia cheio de adrenalina. Esse conteúdo precisa ser publicado, ir para o ar, etc. Precisa ser visto.
E essa urgência abre tão pouca margem para pensar em algumas escolhas. Não escolhas pessoais, mas jornalísticas, que de fato podem trazer impacto.
Esse dia cheio de adrenalina se transforma em dois anos, depois em cinco. E as dúvidas vão chegando: não existem outras formas de fazer jornalismo diário? Na verdade, existem. Mas quem quer apostar nos outros jeitos?
Esse cenário já foi vivido por dúzias e dúzias de profissionais que, durante o trajeto, decidiram fazer uma curva e apostar em assessorias, docência e marketing, como mostram as pesquisas O Perfil do Jornalista Brasileiro, tanto de 2012 como de 2021. Ou seja, não é somente uma questão de gestão das empresas privadas e sim um reflexo de uma profissão quase em desmanche pelo sistema de produção neoliberal. Assim, ao mesmo passo que nos preocupamos em como transformar o jornalismo para quem consome o produto, é preciso também continuar agindo em relação a quem produz, já que, no fim no dia, cada vez menos profissionais estão fazendo isso.
Publicado originalmente em objETHOS.
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Leandra Cruber é Mestra em Comunicação Midiática (UFSM) e doutoranda do PPGJOR/UFSC. É pesquisadora do objETHOS.
