JORNALISMO LAICO

Depois da Guerra Fria, a Guerra Santa

Por Alberto Dines em 23/08/2011 na edição 656

A questão religiosa está nas manchetes, capas, telinhas e monitores da mídia mundial. Há mais tempo, com mais destaque e mais espaço do que a crise econômica mundial (formalmente iniciada em setembro de 2008) e os conflitos bélicos propriamente ditos.

O mapa-múndi contemporâneo é na realidade um registro cartográfico das fogueiras acesas depois da queda do Muro de Berlim. O fogo sagrado inviabiliza o Afeganistão (Ásia Central), divide a dividida Indonésia, inflama o Irã, sangra o Iraque e todo o Oriente Médio (Israel inclusive), espalha-se pelo Magreb, vai ao centro da África, cruza o Mediterrâneo, volta a se aninhar no habitat natural da Península Ibérica, infiltra-se em quase toda a Europa, Países-Baixos, Escandinávia (o Massacre de Oslo foi um pogrom religioso), atravessa o Atlântico e instala-se no sistema linfático dos Estados Unidos. A América Latina não escapa da grande conflagração embora os adversários (católicos e protestantes) identifiquem-se como soldados de Cristo.

Esclarecimento, ponderação

Não se trata de um enfrentamento litúrgico ou teológico, Deus não está em discussão, nem a conquista territorial dos Estados conflagrados como aconteceu na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). O objetivo das cruzadas do século 21 é a conquista dos corações e mentes (mais aqueles do que estas) dentro desses Estados.

O que estamos testemunhando sem perceber não é o “choque de civilizações” como o previu Samuel P. Huntington, mas uma tentativa de paralisar o processo civilizacional que marca a humanidade há alguns milênios. Gigantesca guerrilha política, a primeira no gênero, verdadeiramente global, disfarçada em conflito confessional com o objetivo de trocar o ser humano pleno, soberano, em mero adorador de imagens e rituais.

A consagração da sinistra Michele Bachman, a verdadeira feiticeira de Salem, como líder do Tea Party (ou Hate Party, dá no mesmo) liquida o conservadorismo político americano e obriga os republicanos – todos os republicanos – a se aproximarem de uma forma ou de outra da arcaica Ku-Klux-Klan.

Em Madri, o papa Bento 16 diante da maior concentração religiosa na história do país adverte energicamente aos jovens que foram ouvi-lo na Jornada Mundial da Juventude que só existem duas opções de vida: casar-se ou ingressar em conventos. Sua Santidade não explicou o que devem fazer aqueles que não querem ou não podem se casar e os que recusam encarcerar-se numa ordem religiosa. Suicidar-se ou cair na gandaia?

As Organizações Globo declaram-se laicas em seus Princípios Editoriais, mas não conseguiram cobrir – de forma isenta ou engajada – o que se passou na Espanha antes, durante e depois da visita do papa. Apenas a Folha de S.Paulo, nos minguados espaços entre colunas assinadas e anúncios de imóveis, ofereceu uma pálida idéia das manifestações em defesa do Estado secular na Espanha.

Laicismo não é sinônimo de omissão. Jornalismo laico é obrigatoriamente esclarecedor, ponderado, ajuizado. Sobretudo tolerante. Defender o Estado secular não significa investir contra as religiões ou crenças, queimar templos, livros sagrados ou desrespeitar devoções. Significa apenas defender o Estado de Direito democrático e isonômico.

Mais luz

O mundo maometano fragmenta-se irremediavelmente: a divisão entre xiitas e sunitas ultrapassou a rivalidade entre seitas e dinastias que conflitam há 1.500 anos. Gerou um processo incontrolável de disputas e fragmentações menores que, longe de pacificar o Islã para fortalecê-lo, sangra-o em batalhas fratricidas perenes. O Islã surgiu como um processo conciliador – isso precisa ser mostrado ao leitor, ouvinte, telespectador.

O Estado de Israel foi criado a despeito da oposição da maioria dos religiosos ortodoxos que só admitiam a Redenção pelas mãos do Messias. O fundamentalismo religioso judaico está corroendo não apenas os fundamentos da democracia israelense como os do próprio sionismo. Nas comunidades judaicas da Diáspora o apoio aos governos de Israel deixou de ser automático, natural. Isto é bom para revitalizar os fundamentos éticos e culturais do judaísmo. E quem O Globo designa para opinar sobre o Oriente Médio na sua nobre página de opinião? O cônsul honorário de Israel no Rio de Janeiro, religioso, declaradamente de direita.

Os movimentos desta Guerra Santa Mundial precisam ser detectados e explicados, senão nas apressadas edições diárias, pelo menos nos fins de semana. O jornalismo impresso entrou em decadência porque voluntariamente abriu mãos das suas vantagens intrínsecas.

Um jornalismo laico como o preconizado nas diretrizes das Organizações Globo pede mais luzes, mesmo que hoje o Iluminismo seja confundido com uma marca de lâmpadas.

Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

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 fábio de oliveira ribeiro
 Enviado em: 23/08/2011 09:15:27
O fato é que a elite norte-americana não quer ou não pode prescindir da economia de guerra que organizou desde a II Guerra Mundial. A armadilha da militarização da economia empurra os EUA para guerras cada vez mais constantes. Há 4 décadas os norte-americanos faziam uma guerra a cada 10 anos. Há 20 anos faziam uma guerra há cada 5 anos. Agora estão em guerra permanente. Antes dos EUA ser completamente arrasado por uma guerra grande não há qualquer esperança, pois os gringos continuarão a fomentar conflitos para manter sua gigantesca economia militar funcionando.
 Ricardo Oliveira
 Enviado em: 23/08/2011 13:39:38
Guerras religiosas são movidas pelo coração e a força de dogmas. Na prática, um atentado a razão. Devido a essa característica são, por vezes, mais sanguinárias. Bush II invadiu o Iraque e proclamou sua guerra sem fim ,em nome de Deus. Em nome de Deus Bin Laden proclamou sua guerra ao imperialismo dos EUA. Tudo isso é um tremendo retrocesso, um atraso , um convite a violência, a intolerância e a alienação.. Em nome de Deus esses caras falam e fazem coisas do Diabo.
 Igor M. Rodrigues
 Enviado em: 23/08/2011 15:05:36
Não irei entrar mais uma vez na questão da mentira dos “princípios editoriais” das Organizações Globo e na ingenuidade de lhes dar créditos. A Globo é cristã católica, e, seguindo orientação do “matriz” Vaticano, não será laica nunca. Na visita do papa em Madri, a polícia reprimiu uma manifestação pacífica e democrática de homossexuais contra a política do Papa, que seria um “beijaço” quando ele estivesse passando. A Globo mal noticiou isso, não dando ênfase que a polícia agiu contra a democracia daquele país. Agora, o Brasil foi escolhido, e uma questão nem ao menos foi suscitada: que o prefeito Eduardo Paes e o governador Sérgio Cabral vão usar dinheiro público para receber e patrocinar a vinda do Papa, que não será como chefe de Estado – mas sim como chefe de uma religião. Usará dinheiro público para proselitismo católico! Violação grave ao princípio da laicidade (e por consequência à democracia), que acredito que nenhum jornal brasileiro de grande circulação – e principalmente as Organizações Globo – irão destacar.
 Dante Caleffi
 Enviado em: 23/08/2011 16:11:11
As Organizações Globo, não fazem questão alguma de dissimular ou ocultar seu pendores ideológicos.Basta um negligente olhar sobre as páginas centrais para constatar desde economistas defensores ardorosos do "Tea Party",passando por historiadores provincianos a antropólogos esforçando-se por serem reconhecidos como herdeiros de Darcy. Muçulmanos são muito sensíveis e com escasso senso de humor.Por exemplo, chamá-los de maometanos,corre-se risco de ser contemplado com uma "fatwa"...
 Paulo César Pacheco
 Enviado em: 24/08/2011 18:10:51
Assim como, para ser realmente isenta, a imprensa tem que ser obrigatoriamente apartidária, tem também, que ser laica. A imprensa é um dos pilares da democracia e só funcionará como tal se for completamente isenta. É inadmissível que um jornalista produza sua matéria com os olhos da crença que professa. Assim como também é extremamente prejudicial à justiça que deputados façam leis de acordo com suas crenças ou que juízes usem de argumentos tais para emitir sentenças.
 Edno Lima
 Enviado em: 24/08/2011 22:06:18
No Brasil, o catolicismo tem mais que o dobro dos adeptos de todas as outras religiões juntas.O Brasil não é um país gay, nem ao menos de maioria gay e os governos do Rio e São Paulo gastam (acho que corretamente)milhões todos os anos, promovendo as Paradas Gay. O Brasil está gastando milhões na construção de estádios; qual o problema de os governantes cariocas gastarem para receber o líder da religião de maior número de adeptos no Brasil??? Queriam que gastasse para receber o manda-chuva da IURD????
 Cristiana Castro
 Enviado em: 25/08/2011 01:27:07
Até que enfim, um texto chamando a atenção para esse igregismo, religiosismo, ou sei lá como se chama isso. Tá demais! Na TV tem umas inserções explicando cada religião, como se já não fosse suficiente, a quantidade de programas de rádio e TV, o dia todo. Tudo é Deus, tudo é Gospel, tudo tem, perdido no meio, algum tipo de filosofia energizada e harmoniosa... Até para se matar e matar os outros invocam Alah, Jesus, Maomé, Moisés, Mãe Jurema... Ninguém merece. O que não é religioso é meio mágico,bruxo,medievo. Olha Dines, vc está mesmo de parabéns; eu ainda não vi um texto que nem o seu em lugar nenhum aqui na rede. A tal liberdade de credo parece que virou obrigação de credo. Muito chato isso. Esse papa, só vai chegar aqui em 2013 e já tão anunciando desde agora, ou seja, vamos passar dois anos aturando noticias sobre os preparativos para o evento. O pau quebrando no mundo e o pessoal rezando...
 Igor M. Rodrigues
 Enviado em: 25/08/2011 14:31:37
Ao Sr. Edno Lima, a laicidade é a separação entre igreja e Estado. Ponto! Isso significa que nem o Estado se mete no que se rege da religião (inclusive para não voltar ao regalismo, que existiu no Brasil), assim como a religião não se mete no Estado. As exceções, para ambos, seriam somente em caso de ofensa às leis e/ou a Constituição, ou a terceiros (coisa que muitos cristãos têm hábito de fazer), ou no caso de aliança para colaborar com o interesse público. Em miúdos, a laicidade conota neutralidade estatal diante às concepções religiosas. Usar dinheiro público advindo de evangélicos, espíritas, ateus, agnósticos, islâmicos, judeus e etc. para subvencionar um culto católico (e é isso que o Papa vem fazer no Brasil, e não como chefe de estado) é vedado expressamente pela Constituição, atenta contra o princípio da laicidade e é antidemocrático. Não conseguir ver isso acaba sem querer corroborando o pensamento de muito corrupto por ai, que usa o poder e o erário público para seus interesses privados. Usar o Estado para pagar investir em evento litúrgico que o Papa vem pregar é usar o Estado para interesses privados – da tão suscitada “maioria católica” que está em declínio, sendo que no Estado do Rio é menos da metade da população! As paradas gays não são paradas religiosas; não possuem expressa vedação constitucional de subvenção; não violam nenhum princípio secular adotado por diversas democracias no mundo, e por isso não pode ser comparada com o custeamento do proselitismo do Papa de forma alguma. A única coisa que seria legítima é discutir se o Estado pode ou não empregar dinheiro público em eventos e/ou manifestações de toda natureza, o que não englobaria somente a Parada Gay (mas sim todas as manifestações e eventos possíveis, inclusive a Copa). Isso ficaria a juízo de cada um, inclusive para ser reclamado com o Poder Público por quem se opõe! Em tempo: quando a Constituição reservou um espaço enorme para enumerar direitos e garantias individuais, será que estava realmente pensando somente na vontade tirânica da maioria? Na democracia atual, onde se fala em prevalência de direitos humanos, a resposta a essa pergunta é trivial.
 José de Almeida Bispo
 Enviado em: 28/08/2011 09:33:15
Morro de medo de todo canalha que se esconde atrás de um símbolo religioso. Na melhor das hipóteses, ele cria ou alimenta a ideologia do "latrocínio sagrado" como no caso da Santa Inquisição, a queimar "os pecadores" para ficar com seus bens.
 Ramon Veloso Veloso
 Enviado em: 20/10/2011 10:04:07
Dines Vejo O Observatório na TVE e gosto da sua linha de imprensa. Estou de acordo que estamos numa situação de maniqueísmo, ou seja 8 ou 80. Quero poder pensar e ter minhas próprias conclusões da Realidade da Vida, desde que isso não venha atingir os direitos dos semelhantes; esses direitos podem ser aferidos colocando-me no lugar deles.

Alberto Dines

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