
(Foto: Jorge Carlos/ Pixabay)
No dia 20 de maio, em pleno centro da capital mexicana, um assassino executou dois colaboradores próximos de Clara Brugada, prefeita da cidade. Ximena Guzmán Cuevas era sua secretária pessoal e José Muñoz Vega, um conselheiro estimado. Cinquenta figuras da vida política foram assassinadas no México entre janeiro e março de 2025, segundo a organização não governamental Integralia.
A ACLED, “Dados sobre Locais e Eventos de Conflitos Armados”, em seu relatório de abril de 2025, apresentado no início de maio, apontou o dedo para o México. Segundo a instituição, o México é o país do mundo com o maior número de vítimas civis de violência. E essa tendência, acrescenta o órgão, deve continuar sem grandes mudanças neste ano. De acordo com a ACLED, cerca de 636 eventos violentos são registrados por mês. O número é excepcional, considerando que o México não está envolvido em uma guerra nem em um conflito interno.
A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, reagiu com uma abordagem própria. Ela rompeu com a política de seu antecessor, AMLO, Andrés Manuel López Obrador, chamada “Abraços, não balas”. O Exército e a Guarda Nacional foram confirmados como instrumentos centrais da política de segurança. “Tolerância zero” com criminosos e seus esquemas, afirmou, reconhecendo que a luta será de longo prazo. Nos primeiros dias de seu mandato, enviou seu Secretário de Segurança, García Harfuch, para percorrer as ruas de Culiacán, capital de Sinaloa, reduto do cartel de mesmo nome.
Claudia Sheinbaum, no entanto, abriu um novo e inesperado front contra a delinquência: o da purificação do mundo musical, atacando os cantores mais populares. Lançou a campanha “México canta pela paz”, afirmando: “Queremos valorizar uma música que não faça apologia à violência”. Mas do que se trata exatamente essa postura? Por que mirar nos artistas mais populares do país? Segundo ela, porque combater a violência também é implementar um código cívico que proíba músicas que exaltem o assassinato. É verdade – e isso não começou com Claudia Sheinbaum – que as canções sobre violência, que narram crimes sangrentos, homicídios passionais e bandidos temidos, são amplamente ouvidas no México.
Também é verdade que os corridos, canções tradicionais da vida popular rural e da Revolução Mexicana, evoluíram nos últimos trinta anos. Eles mudaram de tema e de heróis, começando com os Tigres del Norte, que foram os primeiros a narrar os feitos de determinados bandidos da época. A geração mais jovem que assumiu o controle na virada do século está dando continuidade à mudança temática dos Tigres. Mesmo que as letras continuem rimando empregando léxico relativo a drogas, armas e seu uso, elas se tornaram mais pesadas. O ritmo se misturou, “urbanizou” e endureceu, incorporando o rap e o reggaeton.
Os astros desses corridos atualizados lotam shows, são reproduzidos nas plataformas digitais e nas redes sociais. Natanael Cano, Junior H, Peso Pluma e Fuerza Regida são os principais nomes desses corridos tumbados ou corridos bélicos. Às vezes, esse sucesso é acompanhado de um boa dose de riscos. O carro de Natanael Cano foi metralhado em Cancún, em 27 de março de 2023, no dia de seu aniversário. Em janeiro de 2025, o mesmo cantor foi ameaçado de morte por um grupo do narcotráfico, Los Matasalas, que o acusam de financiar seus concorrentes, Los Salazar.
Os corridos dos Tigres, há 55 anos, continuam abordando a violência e as drogas. Seus jovens seguidores, com pouco mais de vinte anos, em um estilo musical globalizado, atualizaram a encenação do vício e intensificaram essas afinidades. “Eu curto o Mal”, canta Natanael Cano, por exemplo. Ele também gravou outro título, com Fuerza Regida, “CH y la pizza”, exaltando o cartel de Sinaloa e seu ex-chefe, atualmente preso nos Estados Unidos, “El Chapo Guzmán”. Por trás dessas figuras de destaque, as músicas exaltam a “moda narco”, a posse de dinheiro, objetos de grife e mulheres. Os pacotes de dinheiro (título de uma canção de Peso Pluma) abrem as portas ao “rosa pastel”, isto é, ao êxtase e à cocaína, para o carro do ano, coisas que transformam a vida: “sempre mais alto, nunca pra baixo” (como canta Natanael Cano).
O sociólogo mexicano José Manuel Valenzuela faz o seguinte comentário sobre essa evolução musical: “Ela reflete um sentido de vida, de condições de existência que são as nossas, incorporando os códigos do narcotráfico como referência central para o significado da vida e da morte de milhões de jovens na América Latina. […] Os ‘Tonas’ — isto é, os do Tudo ou Nada — acreditam que vale mais uma hora de vida de luxo do que uma vida inteira de trabalho braçal.” [1].
Então, “O que fazer com os narcocorridos?”, questionou um colaborador do semanário mexicano Proceso em 13 de abril de 2025. “No México”, disse ele, “a música permeia a sociedade […] ela é um reflexo da nossa realidade e das emoções do povo […] os narcocorridos contam histórias cruas, à margem da lei”. Muitos cantores desse gênero foram assassinados. Eles incentivaram os assassinatos ou apenas foram vítimas, como tantos outros? Com ou sem música, o governo do presidente Felipe Calderón (2006–2012) terminou com um saldo de 122.319 homicídios; o de Peña Nieto, com um número ainda maior: 150.461 vítimas; e o de Andrés Manuel López Obrador chegou ao fim com um total de 193.377 mortos. A atual ocupante do Palácio Nacional, Claudia Sheinbaum, quer promover uma música popular que respeite a vida e os valores democráticos. Mas declarou: “Não quero proibir nada” — embora muitas prefeituras e estados já o tenham feito. “A proibição pode ser contraproducente”. O caminho para combater a violência é, sem dúvida, estreito. O uso da força revelou-se necessário, mas ineficaz. Será que corridos sob controle podem suavizar os costumes?
Texto publicado originalmente em francês, em 22 de maio de 2025 no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Mexique pays sans guerre le plus dangereux du monde – Assassinat politique dans la capitale”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/127341. Tradução de Paul Fernand da Cunha Leite e Luzmara Curcino.
Disponível em: https://www.criterionoticias.wordpress.com/2023/06/13/corridos-tumbados-los-sonidos-de-una-realidad/. Acesso em 16 de maio, 2025.
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Jean-Jacques Kourliandsk é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
