Sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1375

O jornalismo incômodo de Seymour Hersh

(Foto: Yu Ko/Unsplash)

Existe algo instigante na trajetória do jornalista estadunidense Seymour Hersh que o recente documentário Cover-Up (2025), dirigido por Laura Poitras e Mark Obenhaus, deixa transparecer, já que a cada década que passa, jornalistas como ele se tornam mais raros, não por falta de talento ou vocação, mas porque o próprio sistema que deveria protegê-los os transforma em alvos. A pergunta que o filme provoca, e que deveria incomodar qualquer pessoa minimamente preocupada com a democracia, é devastadora em sua simplicidade: o que acontece com uma sociedade quando aqueles que insistem em contar a verdade se tornam uma espécie em extinção?

A resposta está espalhada pelas décadas de trabalho de Hersh, filho de imigrantes judeus lituanos proprietários de uma lavanderia em Chicago, jubilado da faculdade de Direito por notas baixas, que começou como repórter policial e se tornou o pesadelo de presidentes estadunidenses. Quando ele expôs o Massacre de My Lai, no Vietnã, em 1969 – quinhentos civis, majoritariamente mulheres, crianças e idosos, assassinados por soldados estadunidenses – ele não estava apenas fazendo jornalismo investigativo, mas desafiando a narrativa que uma nação inteira construíra sobre si mesma, a de libertadora, força do bem, guardião da democracia global.

O massacre aconteceu em março de 1968. Hersh o revelou em novembro de 1969. Mais de um ano e meio de silêncio institucional, de releases do Pentágono que não diziam nada, de uma imprensa que copiava e colava a versão oficial em textos de quinhentas palavras. Foi preciso um jovem freelancer obstinado, que não se conformava em acreditar no que lhe diziam, para romper o muro de mentiras. E o que ele ganhou com isso? Um Prêmio Pulitzer, reconhecimento internacional, e Henry Kissinger, o todo-poderoso secretário de Estado, decidido a caçá-lo, chamando-o de comunista e tentando destruir sua carreira da maneira mais discreta possível.

Essa tensão entre verdade e poder atravessa toda a carreira de Hersh e expõe uma contradição fundamental da imprensa nas democracias liberais, que é, ao mesmo tempo, essencial para o funcionamento do sistema e perigosa demais para ser verdadeiramente livre. O artigo 11 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, aprovado em 1789 durante a Revolução Francesa, estabelece a liberdade de imprensa como um dos pilares da civilização democrática, porém, o que a história de Hersh demonstra é que essa liberdade existe apenas até o ponto em que não ameaça os interesses fundamentais do Estado.

Quando Hersh revelou as torturas em Abu Ghraib, no Iraque, em 2004, mostrando com fotos a brutalidade dos militares estadunidenses contra prisioneiros iraquianos, ele não estava fazendo outra coisa senão seu trabalho – documentar a realidade, expor os fatos, dar voz aos que não têm voz. Mas isso foi suficiente para que Richard Perle, político e lobista influente, o chamasse de terrorista, a descrição mais infame que se pode atribuir a alguém na América pós-11 de setembro. A lógica é perversa, o jornalista que expõe a tortura é equiparado ao terrorista, quem revela o crime torna-se, simbolicamente, tão perigoso quanto quem o comete.

O documentário de Poitras, ela própria uma figura emblemática dessa guerra entre jornalismo e poder, vencedora do Oscar por Citizenfour (2015), sobre Edward Snowden, captura com precisão a personalidade desconfiada de Hersh, sua retórica defensiva, seu horror em transformar-se de contador de histórias em personagem. Em determinado momento, ele fica furioso ao descobrir que a diretora conseguiu identificar algumas de suas fontes e ameaça interromper as filmagens. Não é paranoia, é experiência. Hersh sabe, porque viveu, que proteger fontes é questão de vida ou morte, que revelar identidades pode destruir carreiras, famílias, vidas inteiras.

Essa desconfiança estrutural é o que separa Hersh da maioria dos jornalistas contemporâneos, pois enquanto grande parte da imprensa aceita, sem questionar profundamente, as narrativas oficiais, seja por comodidade, alinhamento ideológico ou dependência econômica das fontes de poder, Hersh parte sempre do princípio de que há algo escondido embaixo do tapete. E, mais importante, que embaixo da primeira camada de sujeira há provavelmente algo ainda pior.

Essa postura o tornou herói em certos momentos e vilão em outros. Quando expôs os horrores do Vietnã e do Iraque, foi celebrado. Quando contestou o mito da Casa Branca de Kennedy ou desafiou a moralidade do governo ucraniano durante a guerra com a Rússia, foi atacado como revisionista, como alguém que ultrapassara os limites do aceitável. O documentário é claro ao mostrar que essa controvérsia não é natural, mas construída, fabricada por aqueles que têm interesse em desacreditar o mensageiro quando não podem refutar a mensagem.

O caso mais emblemático talvez seja a reportagem de Hersh sobre a morte de Osama Bin Laden, publicada na London Review of Books em 2015. Segundo sua investigação, a versão oficial, de que Bin Laden foi morto em uma operação espetacular dos Navy SEALs, após resistir aos soldados, e teve seu corpo jogado ao mar, era uma farsa construída para beneficiar a campanha de reeleição de Obama. A versão de Hersh, baseada em fontes dentro do aparato de segurança, afirmava que Bin Laden estava preso no Paquistão desde 2006, com financiamento saudita, e que sua morte foi negociada entre Estados Unidos e Paquistão por 25 milhões de dólares. Seu corpo teria sido jogado de um helicóptero na cordilheira do Indocuche, não no mar.

A reação foi furiosa. Hersh foi acusado de conspirador, de irresponsável, de ter perdido o discernimento crítico. Mas o que poucos se perguntaram foi por que essa versão seria mais absurda que a oficial? Por que é tão difícil acreditar que um governo mentiria para proteger sua imagem, especialmente em ano eleitoral? A história dos Estados Unidos, e a própria carreira de Hersh, está repleta de exemplos de mentiras oficiais desmascaradas, do Golfo de Tonkin ao Iraque e suas armas de destruição em massa que nunca existiram.

O grande problema é que Hersh representa um modelo de jornalismo que está, de fato, em extinção. Não apenas por questões geracionais ou tecnológicas, mas porque o próprio ambiente em que esse jornalismo deveria prosperar tornou-se hostil demais. Poitras sabe disso na pele, pois depois de completar o filme My Country, My Country sobre a ocupação do Iraque, ela foi detida e interrogada mais de quarenta vezes ao entrar nos Estados Unidos. Seus computadores e telefones eram apreendidos, ela era impedida de fazer anotações. Eventualmente, Poitras se exilou em Berlim, onde afirma ter mais liberdade para trabalhar do que em seu próprio país.

Isso nos leva de volta à questão central, pois o que significa para uma democracia quando o jornalismo que ela mais precisa é também o mais perigoso de praticar? A resposta não é reconfortante. Significa que a liberdade de imprensa, tão celebrada nos discursos oficiais, existe apenas dentro de limites invisíveis, mas rigorosamente policiados. Você pode criticar o governo, desde que não revele seus segredos mais sombrios. Pode investigar a corrupção, desde que não exponha o sistema que a torna possível. Pode questionar o poder, desde que não o desafie verdadeiramente.

Hersh, aos 88 anos, continua trabalhando. Saiu do The New York Times, passou por várias publicações e hoje escreve no Substack, plataforma independente para criadores de conteúdo. É sintomático: o jornalista que ganhou o Pulitzer, que ajudou a mudar a história do seu país, que expôs massacres e torturas, termina sua carreira fora das grandes instituições jornalísticas, publicando por conta própria na internet. Não porque seu trabalho perdeu qualidade, Hersh continua investigando, denunciando, incomodando, mas porque as grandes organizações de mídia se tornaram incapazes ou não dispostas a bancar o tipo de jornalismo que ele representa.

O problema não é apenas estadunidense, já que, no Brasil, jornalistas investigativos enfrentam ameaças semelhantes, com processos judiciais infundados, campanhas de difamação nas mídias sociais, pressão econômica sobre veículos que publicam reportagens incômodas. A diferença é de grau, não de natureza. Em todo o mundo, o jornalismo que ousa desafiar narrativas poderosas é tratado como inimigo, não como guardião da democracia.

O que o documentário Cover-Up nos força a confrontar é uma verdade desconfortável, a de que sociedades democráticas dependem de pessoas dispostas a arriscar tudo para contar histórias que ninguém quer ouvir. Hersh é uma dessas pessoas, Poitras é outra, e tantos outros cujos nomes não conhecemos porque foram silenciados antes de conseguirem expor o que descobriram. Eles são raros porque o preço de ser esse tipo de jornalista é alto demais para a maioria.

E enquanto celebramos Hersh com documentários e retrospectivas, enquanto damos prêmios a Poitras, a estrutura que torna seu trabalho necessário permanece intocada. Os governos continuam mentindo, as corporações continuam manipulando, o poder continua se protegendo. Hersh é, como o documentário reconhece, uma espécie em extinção. E isso é perigoso não porque perdemos um grande jornalista, mas porque perdemos a própria possibilidade de um jornalismo que desafia o poder de maneira substancial. O que resta é uma imprensa domesticada, que faz perguntas difíceis apenas dentro dos limites do aceitável, que investiga apenas até o ponto em que não ameaça interesses fundamentais, que se contenta em ser watchdog sem dentes.

O legado de Hersh não é apenas as histórias que ele contou, embora essas histórias tenham mudado a História. Seu legado é a demonstração de que jornalismo de verdade, aquele que importa, aquele que faz diferença, é incompatível com tranquilidade, com segurança, com aceitação. É um trabalho de resistência, de teimosia, de recusa em aceitar as histórias que nos contam. E enquanto houver pessoas dispostas a fazer esse trabalho, sabendo dos riscos, aceitando as consequências, ainda há esperança de que a verdade, eventualmente, prevaleça sobre as mentiras oficiais.

Contudo, o documentário termina com o aviso implícito de que essas pessoas estão desaparecendo. E quando a última delas se for, quando ninguém mais estiver disposto a pagar o preço da verdade, não seremos capazes de reconhecer as mentiras que nos governam. Porque ninguém estará lá para contá-las.

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Ramsés Albertoni é Professor de Artes, Pesquisador de Pós-doutorado em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF), Pesquisador do Grupo de Pesquisa Arte & Democracia.