
(Foto: Brett Sayles/Pexels)
Historicamente, redações têm sido lugar de vanguarda. Jornalistas estiveram à frente da defesa da República, da democracia, dos movimentos por direitos civis, apoiaram manifestos culturais transformadores, combateram a escravidão etc. Mas, de uns tempos para cá, nos tornamos conservadores.
Excomungamos a internet, as redes sociais e as próprias ferramentas modernas de comunicação. Ridicularizamos os influenciadores digitais, lidamos mal com as críticas de uma audiência com mais acesso à informação do que nunca e tentamos relativizar o efeito disruptivo da inteligência artificial sobre o que fazemos.
O que aconteceu? Uma resposta curta e sem rodeios: medo. Quando estamos acuados e inseguros em meio a tantas e tão profundas mudanças, nos tornamos defensivos. Quem fica na defesa não ataca, não rompe, não inova.
Ou alguém se lembra de um time de futebol vencedor que tenha feito história por uma defesa exuberante? Os retranqueiros que me perdoem, mas o que faz a diferença, o que marca época é o ataque. É o gol. É quem faz o gol.
Deixei as redações há 12 anos para experimentar o mundo corporativo. Os resultados têm sido bons até aqui. Me adaptei e os lugares em que trabalhei e trabalho também se adaptaram a mim.
Descobri que, neste nosso tempo, profissionais com visão acurada de conjuntura e capacidade de ler cenários e se ajustar a eles têm tido espaço para crescer e ser ouvidos, mesmo que lhes falte, em um primeiro momento, o chamado verniz corporativo (que qualquer pessoa sensível e aberta aprende com o tempo).
Em outras palavras, acredito que um jornalista encontra hoje um terreno muito mais fértil para prosperar em uma empresa ou em outro tipo de negócio que não o jornalístico do que alguns anos ou décadas atrás.
Com frequência, sou procurado por amigos e colegas para falar sobre carreira, desenvolvimento profissional, oportunidades de atuação etc. De modo geral, tenho compartilhado cinco ideias principais:
- A qualidade mais importante para qualquer profissional, hoje, é adaptabilidade. São inúmeras e frequentes as disrupções que vêm atingindo diretamente o mercado de comunicação, sendo a AI, provavelmente, a mais profunda de todas.
- A melhor forma de se posicionar para o passo seguinte é pensar: o que eu tenho para oferecer que alguém esteja disposto a pagar para receber, seja em um emprego ou num negócio/empreendimento pessoal?
- Jornalistas e comunicadores, em geral, costumam ter foco no produto, e não na audiência. Somos reis e rainhas em criar podcasts que quase ninguém ouve, escrever newsletters que ninguém quer pagar para ler ou inventar perfis de redes sociais (o sonho encantado do influencer, para os que já perderam o preconceito) que nunca decolam.
- Nas redações, é comum reclamarmos de falta de um plano de carreira. Pois no mundo corporativo isso é levado muito a sério. Muito. Significa que, a todo momento, estamos sendo avaliados por nossas entregas e comportamentos. É preciso ter resiliência e, mais importante, disposição para mudar e evoluir (terapia ajuda).
- Por fim, é fundamental gostar do que faz. É um clichê, eu sei. Mas não tem jeito. A longo prazo, uma eventual opção com foco apenas numa remuneração melhor vai cobrar seu preço.
Há quem acredite que não é apenas o modelo de negócio do jornalismo que acabou, mas o próprio jornalismo em si. Será mesmo que a sociedade vai prescindir de alguma curadoria? Será que as pessoas, em suas redes sociais, vão ocupar o papel dos jornalistas? Será que a inteligência artificial será capaz de substituir por completo a mão de obra humana na difusão de informações para a sociedade?
As respostas a essas perguntas importam menos do que parece. Jornalistas têm valor desde que sejam capazes de ler o cenário, saibam se posicionar, se preparar e ter consciência de que tudo pode mudar rapidamente e ‘convidar’ à reinvenção de novo (again, again and again). O mercado para comunicadores, diferentemente do que pode fazer crer o senso comum, está, sim, para peixe.
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Leandro Modé é jornalista e diretor de Comunicação e Marca da Vale. Deixou as redações em 2013 em busca de ambientes mais propensos à inovação em comunicação. De lá para cá, trabalhou com comunicação corporativa, assessoria de imprensa, relações governamentais, relações públicas e foi publisher do site Inteligência Financeira. Em quase 30 anos de carreira, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, foi eleito duas vezes profissional de comunicação do ano pela Aberje e esteve à frente da Comunicação do Todos pela Saúde quando o programa do Itaú Unibanco para ajudar a combater os efeitos da Covid-19 recebeu o PRWeek Global Awards como melhor campanha de 2021 na América Latina.
