Domingo, 1 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1373

Reação surpreendente do Estadão ao tarifaço

(Foto: Gabi Santan/Pexels)

Em termos de imprensa e do mundo jornalístico, um dos importantes acontecimentos da semana, mesmo um tanto surpreendente, foi o editorial Aprendizes de Bolsonaro do jornal O Estado de S. Paulo, também conhecido como Estadão, ao atacar com virulência o ex-presidente Jair Bolsonaro, seu clã político familiar e os governadores Romeu Zema, de Goiás, Ronaldo Caiado de Minas Gerais e mais particularmente Tarcísio de Freitas de São Paulo.

As críticas vieram na sequência da decisão do presidente norte-americano Donald Trump de agravar a taxação dos produtos brasileiros exportados para os EUA para 50%, como punição pelo tratamento dado pelo STF ao ex-presidente Jair Bolsonaro, seguida da chantagem de ser anulada a taxação no caso de um decreto de anistia.

Essa chantagem ao governo brasileiro, equiparada como um atentado à soberania nacional, arquitetada em Washington, por Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, foi ignorada por alguns governadores.

Essa abstenção ao que considera como um ataque às instituições brasileiras irritou a direção do jornal Estadão, que reagiu duramente no editorial do domingo, dia 13 de julho: “O recente ataque do presidente americano, Donald Trump, às instituições brasileiras, supostamente em defesa de Bolsonaro, é só uma gota no oceano de males que o bolsonarismo causa e ainda pode causar aos brasileiros”.

E mais adiante…”é ultrajante a complacência de governadores como Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG) e Ronaldo Caiado (GO) diante dos ataques promovidos pelo presidente dos EUA ao Brasil. As reações públicas dos três serviram para expor a miséria moral e intelectual de uma parcela da direita que se diz moderna, mas que continua a gravitar em torno de um ideário retrógrado, personalista, francamente antinacional e falido como é o bolsonarismo.

Tarcísio, Zema e Caiado, todos aspirantes ao cargo de presidente da República, usaram suas redes sociais para tentar impingir a Lula, cada um a seu modo, a responsabilidade pelo “tarifaço” de Trump contra as exportações brasileiras”.

Ora, o Estadão nos seus 150 anos representa a potência dos empresários, banqueiros e dirigentes da indústria e economia paulista, em outras palavras, a direita tradicional e conservadora, atingida em cheio pelo “tarifaço”.

Estadão acabou com o sonho do capitão Tarcísio

Nesta altura, com a divisão da direita, Tarcísio pode tirar o cavalo da chuva. Acabou seu sonho de chegar à Presidência. O governador de São Paulo, também capitão do Exército, estragou sua carreira ao colocar na cabeça, na Avenida Paulista, no último pequeno comício de Bolsonaro, o boné vermelho de apoio ao presidente Trump – Faça a América maior de novo –, como se tivesse mudado de nacionalidade e deixado de ser brasileiro. Como se tivesse virado norte-americano. Erro fatal, neste momento de uma onda de nacionalismo provocada por Trump.

Pensando ser muito esperto, reagiu à carta chantagista e aos 50% de Trump contra o Brasil sem coragem de atacar o presidente norte-americano, que mostra traços de ditador. Isso lhe valeu ser taxado de vassalo pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Mas faltava a pá de cal no capitão sem farda, candidato à Presidência, depois de ter perdido o apoio dos bolsonaristas ao tentar negociar um amaciamento nos 50% de Trump, esquecendo-se de que isso foi obra do filho do seu amigo Bolsonaro, com cuja benção se elegeu governador de São Paulo. Trocou os pés pelas mãos e conseguiu desagradar a gregos e troianos, criando condições para ser chamado de vassalo dos EUA!

A pá de cal veio de onde Tarcísio não esperava – foi condenado pelo editorial do Estadão. Em outras palavras, pelo porta-voz dos grandes empresários, dos donos da bola das empresas, indústrias, comércio e bancos do Estado de São Paulo.

O editorial do Estadão mostrou também ter rachado a direita, com a direita democrática tomando distância do grupo de extrema direita, com alguns de seus líderes sendo julgados por tentativa de golpe de Estado.

Resta saber se a tentativa de golpe e a tentativa de intervenção e chantagem dos EUA provocaram reações dentro das igrejas e comunidades evangélicas, sustentadoras do bolsonarismo.

Essa crise coincide também com o julgamento do ex-presidente Bolsonaro por tentativa de golpe. Ora, o clima criado por Trump com sua taxação de 50% ao Brasil não favorece manifestações em favor de Bolsonaro.

Referências

Editorial do Estadão

https://www.estadao.com.br/opiniao/aprendizes-de-bolsonaro/?srsltid=AfmBOorbCdhMQO4CxnX4oOzJYYiYpZb367lHT8p3R0kWHaFLQg61tgHV

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Reinaldo e os reacionários

https://www.youtube.com/watch?v=Xv2n9EF_d3Y

Uol, Haddad chama Tarcísio de vassalo

https://www.youtube.com/watch?v=rfJBqpeOQgE

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.