Domingo, 1 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1373

O último tango de Javier Milei em Madrid

(Foto: Marko Zirdum/Pexels)

O presidente argentino Javier Milei fez uma parada em Madri antes de se encontrar com seu colega francês Emmanuel Macron em Nice, para discutir sobre lítio, cobre e outros minerais. Em sua passagem pela Espanha, como lhe é de costume, não respeitou os rituais diplomáticos. Ignorou o chefe de governo espanhol, o progressista Pedro Sanchez, e denunciou o socialismo de forma selvagem.

“Que figura! Com o ar de camponês astuto, farejando bons negócios, saudando como um arlequim, sua má-fé era impressionante, em êxtase pela grana, estava excessivamente elétrico.” “Eufórico, saltitante, cantando o sucesso do grupo de hard rock La Renga, ele irrompeu no palco.” [1] Essas duas frases, em aparente continuidade, são uma colagem, ou melhor um copiar e colar, como dizemos hoje. A primeira se refere a um certo Don Gaetano, ironicamente descrito pelo romancista argentino Roberto Arlt como “alguém de boa figura” [2]. O segundo foi escrito por Iván Ruiz, jornalista do jornal argentino La Nación, descrevendo a performance física e oratória de Javier Milei na Arena Palácio Vista Alegre, em Madri, em 8 de junho de 2025.

A comparação era tentadora. Os personagens de “O brinquedo raivoso” de Roberto Arlt estão muito distantes do tatame político de Milei. Os presidentes são mencionados apenas uma vez. Mas em um tom contemporâneo: “O presidente da República tem quatro ‘apaches’ como guarda-costas / Pare de brincar! / Não, estou lhe dizendo, eles são assim oh! / E abriu os braços como um crucificado para me dar uma ideia da largura do peito deles”[3].

Milei, um brinquedo raivoso? Um presidente fisicamente falando, sim, mas longe dos códigos polidos da diplomacia que o cargo exige. Líder de torcida organizada, da Barra brava, cantor de rock, defensor dos libertários da economia. Como alguns times esportivos, ele tem seus campos favoritos. Madri é claramente um deles. Ele deixou sua marca lá muito antes de sua vitória eleitoral, em 2023. Lá, ele tem um público complacente. Lá ele tem amigos cúmplices: Santiago Abascal, líder do Vox, o partido de extrema direita, Isabel Diaz Ayuso, presidente da região de Madri e líder de torcida da corrente mais à direita do Partido Popular. O dia 8 de junho de 2025 foi sua terceira viagem “oficial” à Espanha, e sempre sem ver seu alter ego, Pedro Sanchez. Afinal, em maio de 2024, durante um comício do partido de extrema direita Vox, ele atacou grosseiramente a esposa de Pedro Sanchez.

A encenação é a mesma, de um espetáculo a outro. O roteiro não é surpreendente, mas é ansiosamente aguardado por seus fanáticos. “Morte ao Estado, morte aos serviços públicos, morte ao bem-estar social, morte aos seus capangas socialistas, morte aos jornalistas, “mídia lixo”! Tudo isso foi entoado e repetido litanicamente no domingo, 8 de junho, no centro comercial da capital espanhola. A partitura terminou com o clímax caro a esse “Sr. Loyal” ao estilo barnum político: “Viva liberdade, porra!”.

A única concessão à coexistência pacífica, que em outros tempos era praticada entre inimigos, foi a de que dessa vez ele não dirigiu ofensas ao seu “homólogo”, o presidente do governo espanhol, Pedro Sanchez. Isso foi deixado para a torcida sentada nas arquibancadas do circo. Eles gritaram coletivamente “Pedro Sanchez, filho da puta”, ao que ele respondeu: “Saibam que contra os socialistas de merda, eu sempre estarei ao lado de vocês”.

Ele também estava lá por outro motivo, o “êxtase” compartilhado “pela grana”. Os poderes organizadores por trás do evento, apropriadamente chamado de Fórum Econômico de Madri 2025, foram duas plataformas de promoção de criptomoedas, Racks Labs e Orion Funded, e uma empresa de otimização de impostos, a Abast Global. Como a caridade começa em casa, não havia nada de filantrópico em assistir a esse show de um homem só. A taxa de filiação de 7.000 a 8.000 euros cobrada dos “aficionados” por dinheiro invisível foi tudo, menos virtual, variando de 100 euros por assento para admissão Standard, a 7.500 para o nível Diamonds e 1.450 para o nível Gold.

Não sabemos se toda ou parte dessa grana irá parar direto no bolso desse showman da política. Há por acaso dúvida de que ele pode vir a solicitar uns “trocados” quando for preciso? Não podemos perder de vista que ele já é alvo de uma investigação ligada à sua paixão por criptomoedas, quando cacifou de elogios em suas redes sociais um desses tipos de investimento, o $Libra. Isso há alguns meses, e logo em seguida voltou atrás e apagou a publicação, desdizendo-se quanto aos elogios. Nesse meio tempo, o sinal de fumaça atraiu muitas pessoas. Fala-se de 75.000 investidores que caíram no canto da sereia e só se deram conta disso após o recuo de Javier Milei. Lucraram apenas alguns poucos e primeiros investidores. Um tribunal de Nova York bloqueou US$ 290 milhões depositados nos Estados Unidos pelos organizadores do golpe.

As empresas espanholas presentes na Argentina fizeram-se de mortas e evitaram participar desse grande encontro que era mais ideológico do que econômico. Restringiram-se a comparecer em uma reunião mais tradicional e profissional com o presidente Milei em sua embaixada. A mesma seriedade mutuamente benéfica ficou evidente em Roma, onde Giorgia Meloni e Javier Milei assinaram um acordo de petróleo e gás, e em Nice, onde, aproveitando a oportunidade de uma conferência ambiental sobre a proteção dos mares, Emmanuel Macron e Javier Milei rubricaram um memorando destinado a facilitar o financiamento de projetos de extração mineral e discutiram a perspectiva de cooperação nuclear civil.

Ao contrário de sua apresentação em Madri, Javier Milei não parece ter cantado Panic Show, o hit de seu grupo favorito La Renga, em Nice, com Emmanuel Macron, um hit que ele usa e aparentemente abusa, se levarmos em conta a reação de seus cantores, cuja letra é: A fera rugiu, bem no meio da avenida / Todos correram para salvar suas vidas / Sem entender / Show de pânico em plena luz do dia / Eu sou o rei de um mundo perdido / Eu sou o rei, e vou destruir vocês … / Eu sou o rei, o leão.

Javier Milei deveria ficar atento. Outra música de sucesso do grupo La Renga tem um título que é matematicamente, economicamente e financeiramente digno de ser um sucesso: “2 + 2 = Três” … “Se dois mais dois fosse três”, […] o quatro estaria estropiado… Eu precisaria de mais um dia para sair do manicômio…”.

Texto originalmente publicado em francês, em 11 de junho de 2025, no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Dernier performance de Javier Milei – Madrid 8 juin 2025” Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/127866. Tradução de Andrei Cezar da Silva e Luzmara Curcino.

Notas 

[1] In: Iván Ruiz. Javier Milei cerró el Foro Económico de Madrid. La Nación, 8 de junho de 2025

[2]  In: Roberto Arlt. El juguete rabioso. publicado em 1928, Madrid: Cátedra, 1985, p. 135-137.

[3] Ibid. p.97.

*** 

Jean-Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos com sede na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).