
(Foto: Arquivo pessoal)
No início de junho, escrevi um artigo aqui no Observatório da Imprensa, em que analiso como a mídia hegemônica, diante do genocídio do povo palestino cada vez mais explicitado em vídeos e imagens, começou a ensaiar uma demagógica denúncia sobre os crimes cometidos por Israel.
Digo “demagógica”, porque não é de hoje que o Estado Sionista comete tais atrocidades. Eliminar a população nativa da Palestina está no gene do movimento colonial, supremacista e racista que culminou na criação de Israel, em 1948. Ou seja, esse genocídio existe há oito décadas. A diferença é que hoje é filmado, compartilhado nas redes sociais e noticiado na imprensa progressista.
Durante todo esse período de genocídio, os principais veículos de imprensa do Ocidente (incluindo, naturalmente, a grande mídia brasileira), em suas linhas editoriais, apoiaram incondicionalmente as ações sionistas, sob o argumento de que Israel estava “apenas se defendendo”. Daí o título do artigo citado: “Tímida e hipocritamente, mídia ensaia denúncia sobre alguns crimes de Israel”.
Pois bem, dois meses depois do artigo publicado, as ações israelenses continuam assombrando o mundo. As comparações entre sionismo e nazismo já não soam hiperbólicas para parcela considerável do público. As imagens de crianças esqueléticas que chegam de Gaza têm nos lembrado os piores momentos da humanidade, a fome como arma de guerra, “trazendo os olhos de todos para a grave crise humanitária no território palestino”, conforme noticiou a BBC Brasil, braço do imperialismo britânico em nosso país.
Em editorial, com o intrigante título “Morticínio em Gaza precisa ser interrompido”, a Folha de S. Paulo pontuou que, na Faixa de Gaza, “Israel tem cometido crimes de guerra em larga escala, com violação de direitos humanos, destruição de infraestrutura civil, deslocamentos forçados e limitação do aceso da população local a alimentos”. Portanto, “não se pode aceitar que um Estado em pleno século 21 utilize a fome como arma de guerra”, o que “viola leis internacionais e preceitos morais básicos”.
Até Ilan Pappe – historiador israelense e uma das principais vozes no campo acadêmico que denunciam a limpeza étnica na Palestina – foi citado na última coluna de Bernardo Mello Franco, no Jornal O Globo.
No entanto, como diria o velho Newton, toda ação tem uma reação. Com o genocídio em Gaza cada vez mais explicitado, inclusive com vozes críticas até na grande mídia, é natural que o lobby sionista no Brasil intensifique sua atuação.
Recentemente, Eliane Cantanhêde foi demitida da GloboNews por questionar sobre os mísseis disparados por Israel em Gaza resultarem em centenas de mortos, enquanto os lançados pelo Irã causarem baixas ínfimas em território israelense. Como bem escreveu Kiko Nogueira, no DCM, Cantanhêde pôde errar, exagerar, distorcer e mentir sobre Lula, Dilma e os governos petistas durante os seus 15 anos como comentarista da GloboNews. Nunca foi alvo de cobranças internas por suas opiniões. Mas cruzou a linha proibida: contrariou o dogma de blindagem irrestrita dos crimes de Israel.
E, dessa forma, a mídia segue com seus discursos geopolíticos sobre o Oriente Médio, no melhor estilo “uma no cravo, outra na ferradura”. Ao mesmo tempo em que permite críticas pontuais a Israel, uma fala mais contundente contra o sionismo, por outro lado, não é permitida, em hipótese alguma.
O próprio editorial da Folha, citado acima, aponta que o atual ciclo de violência em Gaza foi desencadeado pelos “ataques terroristas do Hamas”, em 7 de outubro de 2023. Trata-se da clássica manipulação dos noticiários internacionais de ocultar a historicidade de determinados acontecimentos geopolíticos. As oito décadas de limpeza étnica feitas por Israel na Palestina, denunciadas pelo anteriormente citado Pappe, são sumariamente apagadas. A culpa recai sobre o povo colonizado; não sobre o colonizador.
Fato é que, à medida que o genocídio se torna mais explícito, maior será a atuação do lobby sionista para calar falas minimamente discordantes. Assim opera, em seu soft power, uma das maiores máquinas de guerra da história.
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Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Unicamp e professor da UFSJ. Autor de treze livros, entre eles, “A ideologia dos noticiários internacionais – volume 2” (Emó Editora).
