Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

Manchetes rasas sobre Belém são armadilhas contra o clima

(Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

A Teoria do Jornalismo documentou, ao longo do século XX, uma série de procedimentos profissionais que já orientavam a profissão, ainda que de forma tácita. Parte dessa discussão repousa sobre os critérios de noticiabilidade, que reúnem uma lista de características que tornam um acontecimento suficientemente relevante para ocupar espaço noticioso. Relevância, ineditismo e notoriedade dos envolvidos estão entre as premissas. Determinadas coisas simplesmente não têm importância alguma, mas se o sujeito da ação reportada ocupar um cargo público de destaque, tudo pode mudar.

Neste raciocínio, não é preciso muito para entender que a magnitude de tragédias acaba tendo mais atenção do que as escassas boas notícias. Nas editorias de Clima – raras, já que ainda estamos presos em nomenclaturas como “sustentabilidade” e “ESG” –, aparentemente vale mais cobrir os impactos decorrentes de eventos extremos do que discutir a urgência da agenda de adaptação climática e mostrar exemplos positivos que já acontecem nos territórios. “Televisão precisa de imagem”. Pode até ser compreensível, mas não recomendável.

A menos de 90 dias da COP de Belém, a lógica se repete de maneira rasa. Talvez a maior parte dos brasileiros não tenha conhecimento sobre os temas prioritários que estarão na mesa de negociações em novembro, nem em quais mecanismos o Brasil está apostando para inovar e, sobretudo, para tentar fazer da COP30 a COP da implementação. Mas certamente a maioria está preocupada com o preço das hospedagens e os desafios logísticos. Ora, ainda que seja importante reconhecer, superar e resolver esses problemas periféricos, a hierarquia que reina na “pirâmide invertida” reduz o interesse público inerente da pauta climática.

A questão das hospedagens não é exemplo isolado. Quando do anúncio de Belém, se colocou em xeque a capacidade de uma cidade amazônida acolher o evento, questionando acesso e acomodações. Depois, os gastos em infraestrutura. Depois, o acesso. E, por último, a limitação de açaí nos espaços oficiais. Coisa chata, é verdade, devidamente questionada e já contornada. Ufa!

A questão é se o que está na “escalada do telejornal”, como se diz no jargão profissional, é tão digno de atenção quanto o atraso na entrega das NDCs, com o fato de que 15 dos 20 países do G20 ainda não apresentaram atualização de suas metas ou mesmo com aspectos positivos, como o avanço das renováveis e a resiliência dos povos do Pacífico que anunciam perseverar em vez de afundar.

A busca pela lógica negativa e a simplificação de agendas complexas – um sintoma de nosso tempo que se esfarela em “análises de carrossel” – podem estar perfeitamente ajustadas aos critérios de noticiabilidade, mas ferem o princípio fundamental do jornalismo profissional: a priorização do interesse público. É verdade que o jornalismo de cobertura de celebridades vai por outro caminho, mas o que se espera das editorias incumbidas da cobertura da COP30 não é curiosidade e sede por polêmicas de vida curta, mas seriedade, domínio da agenda e parcialidade pró-clima, porque estar na defesa explicitamente favorável às políticas climáticas alinhadas a 1,5°C é necessariamente estar na defesa do interesse público. Se o jornalismo profissional se estruturou sobre as mesmas bases do protocolo científico e segue orientado por dados e bem comum, não há outra escolha a ser feita. Não há linha editorial que justifique oposição ou cinismo.

A cobertura negativa não engaja, não se converte em mobilização. Comprovadamente, o excesso de cobertura superficial da corrupção sem aprofundamento de causas e soluções é gatilho para a criminalização da política e o descrédito da democracia, com efeito no flerte com regimes totalitários. Exemplo de que a ênfase no caos é combustível da impotência, da ansiedade e do conformismo. Para o clima, desenha-se uma (nova?) faceta do negacionismo: se o problema é grande demais, “não há mais tempo”, “o capitalismo não vai mudar”, “as pessoas são egoístas”, “a humanidade vai de mal a pior” e, a mais dolorosa, “não tenho coragem de colocar um filho neste mundo”.

A armadilha também é perigosa porque nos distrai do que realmente importa. Se é responsabilidade da imprensa – em seu papel de accountability social – estar vigilante sobre o êxito da COP30, atenta quanto a encaminhamentos do Brasil para o mundo, seu hiperfoco em questões menos relevantes nos seduz e nos atrasa para o futuro que queremos, enquanto o presente nos esmaga entre manchetes de caos.

A COP30 precisa, pode, deve e vai dar certo. A manchete do fracasso pode até ser tentadora segundo a lógica do clickbait barato e descomprometido com valores éticos e cidadãos. Mas, acreditem, a notícia que todos querem ler – ainda que a incredulidade resista – é: “Brasil tira acordos climáticos do papel e realiza COP da implementação”. Já estamos escrevendo a história que será contada. Se jornalismo não é apenas registro, mas construção, é tempo de mudar a pauta.

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Ester Athanásio é Jornalista, Mestre em Comunicação e Doutora em Políticas Públicas pela UFPR e atua como Comunicadora de Causas há 10 anos, apoiando diversas instituições socioambientais na promoção do debate público qualificado sobre agendas de interesse público.