
(Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)
Há vinte e quatro anos, o mundo assistia ao atentado de 11 de setembro, quando militantes da Al-Qaeda sequestraram aviões comerciais para lançá-los contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque. Na grande mídia ocidental, o episódio foi definido como o “maior ataque terrorista da história”. Geopoliticamente, sua principal consequência foi a deflagração da chamada Guerra ao Terror – eufemismo que encobriu a política de rapina pelos recursos naturais do Oriente Médio, empreendida pelo presidente estadunidense George W. Bush e perpetuada por seus sucessores.
No entanto, pouco se discute o impacto do 11 de setembro sobre o povo palestino, que já enfrentava, à época, meio século de ocupação colonial sionista. Apesar de não possuírem qualquer vínculo com a Al-Qaeda ou com os ataques às Torres Gêmeas, os palestinos foram associados ao “terrorismo islâmico” nas generalizações orientalistas que dominaram o discurso midiático ocidental. Um exemplo dessa distorção foi veiculado pelo Jornal Nacional, que noticiou supostas “celebrações palestinas nos territórios ocupados por Israel em resposta à maior ofensiva terrorista de todos os tempos”. Essa narrativa, entretanto, revelou-se uma fake news – prática recorrente nos noticiários internacionais da Rede Globo.
Historicamente, os acontecimentos de 11 de setembro coincidiram com os desdobramentos da Segunda Intifada, iniciada um ano antes. O termo Intifada – que significa “insurreição” – refere-se aos levantes populares espontâneos dos palestinos contra a ocupação israelense de seus territórios. Até o momento, ocorreram duas Intifadas: a primeira, de 1987 a 1993, e a segunda, também conhecida como Intifada de al-Aqsa, que se estendeu de 2000 a 2005, apresentando características substancialmente distintas da anterior.
Como explica a pesquisadora Vitória Paschoal Baldin em sua dissertação de mestrado, a Primeira Intifada, devido ao seu caráter majoritariamente pacífico – fundamentado na crença de que métodos não violentos ajudariam a neutralizar o poderio do Estado de Israel –, permitiu a divulgação internacional da causa palestina, especialmente por meio da mediação de empresas jornalísticas.
Esse contexto gerou significativas pressões internacionais, viabilizando as primeiras tentativas de negociação de paz entre israelenses e palestinos. Conforme escreve Baldin: “A Primeira Intifada conseguiu colocar a questão palestina na agenda política internacional através da conquista da opinião pública, mediada por empresas jornalísticas. Cenas brutais de soldados israelenses espancando palestinos desarmados ressoavam diretamente com repertórios já conhecidos e legitimados de vitimização”.
Em contrapartida, a Segunda Intifada – marcada pela adoção de táticas violentas, como ataques suicidas – enfrentou maiores obstáculos para reproduzir esses êxitos midiáticos e políticos. Ademais, a intensa intimidação sofrida por jornalistas, por parte de Israel, durante a cobertura do conflito, fez com que muitos aceitassem com maior facilidade informações provenientes de fontes oficiais sionistas, evitando o caminho árduo, custoso e perigoso de produzir reportagens independentes.
Além disso, a concomitância da Segunda Intifada com os eventos da Guerra ao Terror resultou em pouca atenção global dedicada à geopolítica palestina. A cobertura midiática do levante não apenas diminuiu, como foi frequentemente reduzida a uma narrativa simplista, alinhada às dicotomias que estruturavam a retórica antiterrorista: Ocidente versus Oriente, terrorismo versus contraterrorismo, civilização versus barbárie.
Nesse contexto, o sofrimento palestino foi invisibilizado pela imprensa internacional, o que favoreceu o enquadramento das ações da Intifada como justificativa para operações militares israelenses cada vez mais violentas e indiscriminadas. Em outras palavras, como já destacado anteriormente, os palestinos foram incorporados ao grande “balaio” dos “terrorismos muçulmanos” – categoria ampla e convenientemente vaga, que serviu para legitimar violações sistemáticas de direitos humanos sob o pretexto de combate ao terror.
Portanto, sob o manto da Guerra ao Terror, a já difícil jornada do povo palestino por justiça e autodeterminação foi ainda mais obscurecida. Ao atrelar sua resistência ao fundamentalismo de grupos como a Al-Qaeda, o orientalismo midiático e os interesses geopolíticos hegemônicos não apenas legitimaram a violência sistêmica, também naturalizaram a perpetuação da ocupação sionista. Assim, desvincular tais narrativas não se trata apenas de precisão histórica: é um ato de restituição da humanidade negada aos palestinos, especialmente em meio ao recrudescimento genocida que hoje testemunhamos.
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Francisco Fernandes Ladeira é Professor da UFSJ, Doutor em Geografia pela Unicamp e Especialista em Jornalismo pela Faculdade Iguaçu.
