
(Foto: Library of Congress/Unsplash)
As declarações e as sanções anunciadas contra a Colômbia foram surpreendentes. Mas isso somente se esquecermos o passivo acumulado entre Donald Trump e Gustavo Petro desde o final de janeiro de 2025, ou seja, desde os primeiros dias do segundo mandato do presidente Trump.
Donald Trump assumiu o cargo de presidente dos Estados Unidos em 20 de janeiro de 2025. Assim que tomou posse, assinou ostensivamente decretos permitindo a expulsão de estrangeiros, em sua maioria latino-americanos e, portanto, também colombianos. Alguns dias depois, ele entrou em conflito com Gustavo Petro, que se recusou a autorizar o pouso no aeroporto de Eldorado, em Bogotá, de aviões norte-americanos cujos únicos passageiros eram colombianos expulsos. As relações entre os dois chefes de Estado e os dois países, no final de outubro de 2025, permaneciam as mesmas desde a polêmica.
Donald Trump lidera a principal potência diplomática, econômica, financeira, militar e tecnológica do mundo. Gustavo Petro é responsável por um país de dimensões modestas. A diferença material e militar entre os dois países é tal que poderia justificar a comparação com o confronto bíblico entre Davi, o pequeno pastor hebreu, e Golias, o gigante e rei dos filisteus.
De acordo com o Antigo Testamento, foi Davi, graças à sua habilidade com a funda, como sabemos, que venceu a batalha. Será que o mesmo pode acontecer na versão atualizada e deslocada dessa luta assimétrica, encarnada por Donald-Golias e Gustavo-Davi? Gustavo Petro teria uma “funda mágica” que lhe permitiria fazer a diferença? A questão está colocada. Cada um tem sua resposta, que na maioria das vezes reflete as orientações e amizades preferenciais uns dos outros, de Bogotá a Washington, da Casa de Nariño a Mar-a-Lago.
A disputa inicial teve origem em um conflito migratório. Donald Trump quis marcar sua entrada na Casa Branca com uma ação espetacular contra os estrangeiros que residiam, legalmente ou não, em solo americano, apresentados como criminosos perigosos. Muitos foram detidos e embarcados à força em aviões fretados com destino ao sul. A maioria era latino-americana. Um único chefe de Estado, além da manifestação de indignação, recusou-se a receber esses voos de deportados: Gustavo Petro.
Após essa afronta do presidente colombiano, Donald Trump reagiu com uma brutalidade condizente com sua personalidade. Em 25 de janeiro, intimou a Colômbia a aceitar o pouso dessas aeronaves, sob a pena de aplicar imediatamente sanções alfandegárias de até 50% sobre os produtos colombianos exportados para os Estados Unidos. O impasse durou três dias. A Colômbia é um dos países da América Latina economicamente mais voltados para os Estados Unidos. Ela vende petróleo, flores, café e abacates para lá, o que representa 29% de suas exportações totais. Três mil empresas dependem do mercado norte-americano.
Os representantes dos setores afetados, a Associação Nacional de Comércio Exterior (Analdex), Asocoflores (produtores de flores), a Corpohass [1] (produtores de abacates) e a Federação Nacional de Produtores de Café, entraram em ação para fazer Gustavo Petro ceder. Em 28 de janeiro, o primeiro mandatário colombiano capitulou. A única concessão obtida foi que 201 migrantes foram deportados para seu país em um avião militar colombiano e não em uma aeronave carcerária norte-americana.
A guerra de Israel em Gaza reacendeu os mal-entendidos. Gustavo Petro apoia a causa palestina. Donald Trump é um fervoroso defensor de Israel. Bogotá, em concertação com Pretória, organizou uma cúpula do Grupo de Haia [2] em 15 de julho, a fim de denunciar o genocídio. As relações bilaterais da Colômbia com o governo Netanyahu foram reduzidas ao mínimo. Os embaixadores foram chamados de volta. As relações militares foram congeladas. Gustavo Petro suspendeu a venda de carvão a Israel.
Ele defendeu suas escolhas perante a Assembleia Geral da ONU em setembro de 2025. E também nas ruas de Nova York, participando em 26 de setembro de uma manifestação organizada por ativistas norte-americanos pró-palestinos. Pegando o microfone, ele fez um apelo à insubordinação em nome dos direitos universais dos povos. Donald Trump reagiu imediatamente, retirando seu visto de entrada e permanência no território dos Estados Unidos, bem como o do seu ministro das Relações Exteriores.
As movimentações militares dos Estados Unidos no Caribe reacenderam a chama dos conflitos. Poucas horas após o bombardeio ilegal de um pequeno barco ao largo da Venezuela pelo exército de Donald Trump, Gustavo Petro convocou, em 5 de setembro, uma reunião extraordinária da CELAC, a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe. Em 16 de setembro, em resposta, os Estados Unidos anunciaram que a Colômbia era considerada país não confiável em sua luta ao lado dos Estados Unidos contra o tráfico de drogas. A continuidade das ações de guerra unilaterais pelos Estados Unidos e a morte de colombianos nessas operações foram consideradas inaceitáveis e condenáveis por Gustavo Petro.
As declarações do presidente colombiano provocaram insultos e anúncios de sanções por parte de Donald Trump: suspensão dos programas de cooperação militar e policial, uma vez que Gustavo Petro foi designado por seu homólogo norte-americano como “um chefe de narcotraficantes”. Outras sanções comerciais podem vir a seguir. A questão é saber se Gustavo Petro dispõe da funda de Davi para aguentar o tranco e derrotar seu adversário. O multilateralismo, com a união fazendo a força, é a carta jogada pelo presidente colombiano. Uma carta sem efeito, na medida em que Donald Trump tem ignorado as normas do Direito, tanto internacional quanto interno, desde o início de seu segundo mandato.
Por outro lado, os potenciais aliados da Colômbia estão relutantes. Em julho, em Bogotá, 32 delegações estiveram presentes para debater sanções contra a política de Israel em Gaza, mas apenas 11 assinaram a declaração final. O mesmo cenário se repetiu em 5 de setembro, ao final da reunião extraordinária convocada pela Colômbia para condenar as ações militares norte-americanas no Caribe. Essa escalada de tensão bilateral abriu, por outro lado, uma frente interna na Colômbia. Os atores econômicos cujos interesses dependem do mercado norte-americano estão cada vez mais nervosos e não escondem isso, a quatro meses das próximas eleições presidenciais.
Texto publicado originalmente em francês, em 25 de outubro de 2025 no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Donald Trump et Gustavo Petro : David étasunien contre Goliath colombien ?”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/129966.Tradução de Andrei Cezar da Silva e revisão de Luzmara Curcino.
Notas
[1] Em Andrés Villamizar “Arancel de Trump afectaria a mas de 3000 empresas colombianas”, el Colombiano, 26 de janeiro de 2025.
[2] O Grupo de Haia foi constituído em 31 de janeiro de 2025 para coordenar uma ação internacional em defesa dos direitos do povo palestino, pela África do Sul, Bolívia, Colômbia, Cuba, Honduras, Malásia, Namíbia e Senegal.
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Jean Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
