
(Foto: Sebastian Unrau/Unsplash)
Como o cinema tem tratado as diversas faces da questão ambiental? Da crise civilizatória à perda de biodiversidade, do colapso climático à busca da sacralidade da Terra, a realidade ecológica está em ficções e documentários de diferentes formas, sejam distópicas ou apontando caminhos, como elemento central ou paisagem de fundo. Ao assistir 𝗦𝗮𝗰𝗶: 𝗢 𝗘𝗺𝗯𝗮𝗶𝘅𝗮𝗱𝗼𝗿 𝗱𝗮 𝗠𝗮𝘁𝗮 (2025), com direção de Maurício PC e texto de Ricardo Evangelista, percebe-se que o filme não se rende à mensagem fácil nem à diversão superficial. Com uso expressivo das cores e esmero na animação, a obra revela um cuidado estético que valoriza a composição cinematográfica. Neste caso, a cultura supera o entretenimento. Razão e sensibilidade atuam como motores de um enredo ecológico, evidenciando a contribuição da cultura popular como aliada do meio ambiente. Ao assumir o papel de herói brasileiro, o Saci ressignifica o repertório da identidade nacional, destacando sua formação enraizada na base social.
A película em questão nos convida a refletir sobre como a devastação ambiental impacta de maneira desproporcional os grupos vulnerabilizados – como populações indígenas, comunidades negras e moradores de periferias urbanas. No Brasil, a Constituição de 1988 foi pioneira ao reconhecer o direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Contudo, os instrumentos internacionais ainda estão distantes de incorporar plenamente a diversidade humana como sujeito de direitos. Os responsáveis pelos estragos ecológicos não são apenas agentes individuais, mas estruturas de poder que perpetuam modelos econômicos predatórios, desconsiderando os direitos das populações vulnerabilizadas e os limites do planeta.
A felicidade de Maurício PC, Ricardo Evangelista e equipe, ao enfatizar o protagonismo histórico do Saci como “embaixador da mata”, sublinha a importância do fator racial na agenda ambiental e climática. O racismo ambiental perpetua desigualdades e nega direitos às comunidades negras, indígenas, quilombolas, ribeirinhas e aos moradores das periferias – estas, como lembra o geógrafo Milton Santos (1926-2001), compreendidas como territórios urbanos excluídos ou segregados pelo desenvolvimento e pela dinâmica da urbanização brasileira. Reconhecer essas questões é, portanto, um passo essencial para políticas ambientais verdadeiramente justas e inclusivas.
O uso da natureza e de seus infinitos recursos, muitos deles ainda desconhecidos como forma de cura e história, e compartilhar história e tradições ancestrais que nos fizeram chegar até aqui é método diário de resistência para nos fortalecer. Nos fortalece no campo, na floresta e nas cidades, afinal estamos todos conectados. Unir o passado e o futuro faz parte da nossa missão de transformar políticas públicas e os sujeitos para construir uma sociedade antirracista.
No Brasil, a população negra representa 56%, segundo o Censo/IBGE 2020. O racismo ambiental diz respeito a quem são as pessoas que vivem nas favelas, nos morros, às margens dos rios, dos trilhos e das represas – tanto nas pequenas quanto nas grandes cidades. Qual é a cor dos corpos levados pelas enchentes, soterrados pelos deslizamentos e afetados pela escassez de alimentos nas zonas urbanas? Ao revisitarmos o processo de colonização europeia nas Américas iniciado em 1492, percebemos que as caravelas ainda navegam por nossos mares – agora sob novas roupagens. A chamada “colonização verde”, disfarçada de solução territorial, revela-se como a atuação de grandes corporações e do Estado, que recorrem à violência para sustentar projetos de dominação e extermínio em escala global.
Os impactos da crise climática recaem com maior intensidade sobre aqueles que menos contribuíram para o aquecimento global. Nas regiões empobrecidas e socialmente marginalizadas, o número de mortes causadas por secas, enchentes e tempestades foi 15 vezes superior, na última década, ao registrado em áreas com maior infraestrutura. Trata-se de uma violação histórica da experiência humana, marcada pela escravização de um povo por quatro séculos e pela consolidação de uma sociedade estruturada para mantê-lo subjugado. A organização social brasileira está profundamente alicerçada no racismo, sustentada pelo “pacto da branquitude” (Cida Bento, 2022) e pelo “fascismo da cor” (Muniz Sodré, 2023). “Cada minuto de resistência dos povos originários, desde a invasão às nossas terras, cada gota de sangue derramado pelo povo africano e seus descendentes em todo o período colonial é a sustentação de uma democracia de mentira na qual meu povo continua sendo violentado”, alerta Mariana Belmont na apresentação do livro 𝗥𝗮𝗰𝗶𝘀𝗺𝗼 𝗔𝗺𝗯𝗶𝗲𝗻𝘁𝗮𝗹 𝗲 𝗘𝗺𝗲𝗿𝗴𝗲̂𝗻𝗰𝗶𝗮𝘀 𝗖𝗹𝗶𝗺𝗮́𝘁𝗶𝗰𝗮𝘀 𝗻𝗼 𝗕𝗿𝗮𝘀𝗶𝗹 (2023). A consciência ecológica brasileira é essencial para preservar a extraordinária biodiversidade do país, combater as injustiças socioambientais e construir um futuro sustentável para todas as comunidades.
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Marcos Fabrício Lopes da Silva é Doutor e Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE/UFMG). Poeta, escritor, professor e pesquisador. Jornalista, diplomado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), e autor do livro 𝗠𝗮𝗰𝗵𝗮𝗱𝗼 𝗱𝗲 𝗔𝘀𝘀𝗶𝘀, 𝗰𝗿𝗶́𝘁𝗶𝗰𝗼 𝗱𝗮 𝗶𝗺𝗽𝗿𝗲𝗻𝘀𝗮 (Outubro Edições, 2023-2024). É participante do Coletivo AVÁ, coorganizador do Sarau Marcante e Membro da Academia Cruzeirense de Letras – ACL (Cruzeiro-DF).
