Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

Imprensa sabe se crise no bolsonarismo é passageira ou bateu no teto?

(Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Como se dizia no tempo das máquinas de escrever nas redações, foi um fim de semana de fortes emoções para os seguidores do ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 70 anos. Aconteceu de tudo um pouco. Inclusive a prisão preventiva de Bolsonaro. Frente aos acontecimentos, lembrei-me que no início do seu mandato escrevi que a velocidade com que as coisas aconteciam no governo tornava a cobertura jornalística uma montanha-russa: as manchetes dos noticiários trocavam várias vezes em questão de horas. Bolsonaro concorreu à reeleição e perdeu para o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos. Mas ele e seus seguidores não saíram das manchetes por conta de terem se envolvido em uma tentativa de golpe de estado. Em 2024, se elegeu presidente dos Estados Unidos um dos ídolos e amigos de Bolsonaro, o republicano Donald Trump, 79 anos. Ele assumiu em janeiro de 2025 e no início demonstrou interesse pelo destino do ex-presidente brasileiro e seus seguidores. Mas a relação esfriou. Vamos conversar sobre o assunto.

A história começou na sexta-feira (21), com os jornais destacando a descoberta de que o deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), 53 anos, estava vivendo desde setembro em um luxuoso condomínio em Miami, Flórida, nos Estados Unidos. O deputado é delegado da Polícia Federal (PF) e durante o governo Bolsonaro foi diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Foi acusado, julgado e condenado a 16 anos de prisão pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) no processo relatado pelo ministro Alexandre de Moraes, 56 anos, por ter montado a “Abin paralela” para espionar os adversários do ex-presidente. Teve os seus dois passaportes (privado e parlamentar) apreendidos pela Justiça e estava proibido de sair do país por estar aguardando em liberdade o trânsito em julgado de sua condenação para começar a cumprir a pena. Aqui tem uma pergunta. Como Ramagem fugiu do Brasil? Pelo que sabemos, a fuga foi organizada e executada por profissionais. Ele pegou um avião de carreira para Boa Vista, capital de Roraima, região que conhece profundamente por já ter trabalhado lá e onde tem laços familiares. Conheço bem a região. Uma boa parte da economia depende dos garimpos ilegais instalados em áreas indígenas e financiados por organizações criminosas locais. Ramagem saiu do Brasil de carro e duas rotas estão sendo investigadas. A primeira é partindo de Boa Vista e seguindo por um percurso de 215 quilômetros até Pacaraima, pequena cidade que nasceu ao redor do marco de fronteira BV-8, onde atuava um Pelotão Especial de Fronteira do Exército, a poucos metros do território da Venezuela. A primeira vez que estive lá ainda se chamava BV-8 e fiquei surpreso quando vi um jovem com uma prancha de surfe no meio da floresta. Na época, não sabia que a 120 quilômetros dali ficam as praias do Caribe. O segundo roteiro é saindo de Boa Vista e percorrendo 130 quilômetros até Bonfim, um lugarejo nos arredores da fronteira com a Guiana. Já estive lá algumas vezes fazendo reportagens. Na primeira vez cheguei a Bonfim à noite, muito cansado, e fui jantar. Tive uma surpresa. Descobri que maioria da população local falava dois idiomas: um indígena e o inglês. Poucos falavam português. A minha aposta é que Ramagem fugiu por Bonfim e de lá foi para Georgetown, capital da Guiana, de onde partem diariamente 16 voos internacionais para 14 locais diferentes. Agora, mais uma pergunta. O deputado teve os dois passaportes apreendidos. Como entrou nos Estados Unidos? A imprensa precisa esclarecer este elo da história. O ministro Moraes decretou, na sexta-feira (21), a prisão preventiva de Ramagem. Esta história ainda não terminou. Como disse, a fuga foi coisa de profissional. E por isso acendeu uma luz vermelha entre as autoridades brasileiras sobre a possibilidade de ocorreram mais fugas para o exterior.

Bolsonaro é ficha número um entre os suspeitos a arriscar uma fuga. Condenado a 27 anos de prisão pela Primeira Turma por cinco crimes, um deles o de ser chefe da organização criminosa que tentou dar o golpe de estado, o ex-presidente também aguarda transitar em julgado a sua condenação para começar a cumprir a pena. Aguardava usando uma tornozeleira eletrônica em prisão domiciliar na sua residência, em um condomínio de luxo em Brasília (DF). Na sexta-feira, um dos seus filhos parlamentares, o senador pelo Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro, 44 anos, convocou pelas redes sociais os seguidores do seu pai para uma vigília de orações no sábado (22) nas proximidades do condomínio. Nos primeiros minutos da madrugada de sábado tocou o alarme da tornozeleira do ex-presidente. Com um ferro de soldar, tentou separar o sistema eletrônico da estrutura do equipamento – há um vídeo disponível na internet e reportagens nas capas dos principais jornais ao redor do mundo. A PF somou a fuga de Ramagem, a vigília religiosa convocada pelo senador e o rompimento da tornozeleira e chegou à conclusão que o próximo a tentar escapar para os Estados Unidos era Bolsonaro. Plano simples, imaginaram as autoridades. A vigia religiosa se transformaria em um tumulto e o ex-presidente sairia de fininho do condomínio rumo à embaixada americana, que fica a 13 quilômetros da sua casa. Moraes decretou a prisão preventiva de Bolsonaro e determinou que seja cumprida em uma sala especial na sede da PF, em Brasília. No domingo (23), os advogados de Bolsonaro explicaram que o motivo dele ter tentando romper a tornozeleira deve-se a uma alucinação que sofreu em consequência de uma medicação que havia tomado – reportagens na internet. O fato é o seguinte. Por que os bolsonaristas tentam fugir para os Estados Unidos? Acreditam que serão protegidos pelo presidente Trump, que é amigo de Bolsonaro. Lembro que o presidente americano foi influenciado pelo lobby de um dos filhos do ex-presidente, Eduardo, 41 anos, deputado federal por São Paulo, a tarifar as exportações brasileiras para os Estados Unidos e exigir a anistia de Bolsonaro e seus seguidores para negociar a situação com o presidente Lula. Trump e Lula acabaram se aproximando pelos interesses econômicos do dois países e Eduardo ficou “pendurado no pincel” – matérias na internet.

O deputado se exilou por conta própria no território americano. Considero importante lembrar que, em junho, a deputada Carla Zambelli (PL-SP), 45 anos, que foi julgada e condenada a 10 anos de prisão por ter se aliado ao hacker Walter Delgatti e invadido o sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), antes de começar a cumprir a pena fugiu para a Argentina, onde usou a sua cidadania italiana para embarcar num voo para Miami. Lá, tentou se aliar a Eduardo. Não conseguiu, porque os bolsonaristas a culpam pela derrota do ex-presidente para Lula em 2022. Então, foi para a Itália, onde está presa aguardando a deportação para o Brasil. Além desses foragidos existem mais 100 que participaram da tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, quebrando tudo que encontraram pela frente no Palácio do Planalto, no Congresso e no STF. Eles foram condenados e se refugiaram em países vizinhos. Como toda esta história vai terminar? O primeiro capítulo do final deverá ser escrito nos próximos dias, quando acaba o trânsito em julgado das sentenças de Bolsonaro, Ramagem e mais seis integrantes do Núcleo Essencial da tentativa de golpe e eles deverão começar a cumprir as suas penas. Estas pessoas fazem parte de um grupo de 37 ex-ministros e funcionários de alto escalão do governo Bolsonaro que foram indiciadas pela PF como responsáveis pela tentativa de golpe. Foram divididas em seis núcleos, que estão em diferentes estágios do julgamento. Entre os 37 réus, 27 são militares (ativa, reserva e reformados). Essa é uma das raras vezes da história política brasileira que um ex-presidente e generais serão presos por tentativa de golpe. Não é pouca coisa.

Publicado originalmente em “Histórias mal Contadas”

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.