
(Foto: brotiN biswaS/Pexels)
O jornalismo brasileiro vive uma crise de soluços deontológicos, escancarada na reportagem publicada pela jornalista Malu Gaspar, no apagar das luzes de 2025. Com base em fontes sigilosas, a matéria denuncia que o ministro do STF, Alexandre de Moraes, teria feito pressão em favor do Banco Master. O alvo da intimidação seria o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Em 18 de novembro, o BC decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. Na noite anterior, a Polícia Federal prendera Daniel Vorcaro, dono do banco. As acusações são de um esquema de fraude bilionária cometidas por Vorcaro e os sócios do Master.
No entanto, sobram lacunas e questionamentos nas reportagens publicadas pelo jornal O Globo. Malu utiliza o direito ao sigilo das fontes, consagrado pela prática jornalística, pelo Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros e pela Constituição Federal. Mas, em revelações desse teor, espera-se que as fontes consultadas pela repórter e/ou que lhe passaram a informação, apresentem algo mais contundente. Um áudio gravado das reuniões entre Moraes e Galípolo. Uma foto do encontro, nomes de quem participou. Ou algo muito mais complexo e raro, como uma declaração pública ou entrevista em on de alguma das fontes, sustentando a acusação, oferecendo provas, indícios ou vestígios que levem mais cedo ou mais tarde à confirmação da denúncia. Mas nada disse veio, até agora.
Na realidade, em outra reportagem publicada no dia 29 de dezembro de 2025, Malu Gaspar recuou da acusação. Segundo o texto também publicado no jornal O Globo, o ministro Alexandre de Moraes, ao ser informado do teor das acusações contra o Banco Master, teria solicitado a Galípolo rigor nas apurações. Da mesma forma, não apareceu nenhum documento, fonte ou indício de que o diálogo entre ambos tenha tratado desse tema, ainda que isso seja absolutamente plausível e venha à tona em algum momento. De resto, Moraes e Galípolo divulgaram notas sucintas confirmando as reuniões, segundo eles para conversar sobre as sanções da Lei Magnitsky. As sanções foram impostas ao ministro do Supremo e à esposa dele, Viviane Barci de Moraes, em julho de 2025, pelo governo dos Estados Unidos.
O pano de fundo da denúncia publicada por Malu Gaspar é um contrato do escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes com Daniel Vorcaro. Por meio dele, Viviane representaria o Master diante de instâncias como a Receita Federal. O contrato teria sido assinado em 2024, portanto antes da liquidação extrajudicial do banco, da prisão de Vorcaro e das reuniões entre Moraes e Galípolo.
Mas, até o momento, nem Malu, nem os grandes repórteres investigativos, os grandes jornais impressos, a combativa mídia independente, as redes de rádio e TV apresentaram o contrato! Ninguém mostrou a íntegra do documento com o teor do contrato, as assinaturas dos contratantes, o valor acordado, os bastidores da negociação e o mais relevante: por que Vorcaro contratou justamente o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes? Segundo a deontologia e as melhores práticas da profissão, esse deveria ser o início de qualquer investigação jornalística que mereça ser assim chamada. A partir daí, tentar provar a rede de relações, pressões imorais e ilegalidades.
Como fazer jornalismo e dar continuidade a uma denúncia dessa gravidade, sem provas documentais? Guardadas as devidas proporções, como um historiador constrói o conhecimento histórico sem as fontes que o transportem a outros povos, tempos e eventos? Não se está acusando Malu Gaspar de mentir ou manipular, ou ser utilizada pelo veículo para o qual trabalha para fins escusos e não declarados. O que se espera, como essência de qualquer conteúdo classificado de jornalismo, é prioridade e cuidado absoluto com fontes e documentos que possam revelar escândalos dessa natureza.
Não por acaso, esse zelo é a síntese da vida profissional de Seymour Hersh, um dos principais e mais premiados jornalistas investigativos dos Estados Unidos. No documentário “Em busca da verdade”, que acaba de estrear na Netflix, Hersh conta os bastidores de como teve acesso a documentos oficiais ultrassecretos, a fontes da CIA e das Forças Armadas, e recebeu denúncias de anônimos. Ao longo de décadas, essas fontes forneceram a Hersh informações privilegiadas e documentos que o ajudaram a revelar, por exemplo, o massacre de My Lai, na Guerra do Vietnã.
Ainda hoje, ele preserva a identidade de muitos informantes. Da mesma forma, nunca descuidou das provas documentais que validam, corroboram e complementam as informações recebidas. Durante todo o tempo, o jornalista faz referências às fontes e aos documentos. Sempre impressos à mão, no computador, em cadernos, pastas e arquivos físicos que preenchem a sala onde o jornalista trabalha, os documentos compõem o cenário realista ideal. Em um momento das gravações, ao perceber que poderia ter perdido o controle sobre os seus bens mais preciosos, ameaça desistir do documentário.
Os bastidores da apuração do massacre de My Lai são uma aula de jornalismo: apuração rigorosa, checagem com fontes e provas documentais, compromisso com os fatos, a verdade, os leitores e a humanidade. Valeria um documentário somente sobre as descobertas de Hersh a respeito das atrocidades cometidas por militares norte-americanos no Vietnã.
Mas o ponto alto do documentário, que resume o trabalho inspirador de Hersh, está em uma resposta franca e objetiva. Quando questionado o que faria se não tivesse acesso às fotos de tortura na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, Seymour Hersh responde sem titubear: não publicaria, não haveria matéria! Sem Hersh, talvez não soubéssemos dos crimes de Abu Ghraib. Por outro lado, se não tivesse publicado a reportagem por falta de provas documentais, ainda assim teria mantido a coerência, o respeito aos leitores e a confiança recebida em troca.
Essa coerência levou Seymour Hersh a expor, com naturalidade, o maior erro da carreira: publicar a versão da fonte, o ditador sírio Bashar al-Assad, de que não utilizara gás tóxico contra a própria população. Isto é, seja Malu ou seja Hersh, a busca da verdade não pode limitar-se ao soluço das fontes.
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Ramon Lamoso de Gusmão é Mestre em Educação e em História, historiador, professor e jornalista concursado da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) desde 2007.
