Sexta-feira, 10 de abril de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1383

As contranarrativas que a grande mídia oculta na cobertura da Palestina

(Foto: Ahmed Abu Hameeda/Unsplash)

Há pouco mais de uma década, escrevo no Observatório da Imprensa. Entre as temáticas que mais abordei nesse período, estão os discursos geopolíticos da grande mídia. Constatei que tais linhas jornalísticas, via de regra, seguem fielmente os interesses presentes nas agendas externas dos Estados Unidos e de seus aliados. Outro ponto observado foi o baixo engajamento do público em geral em relação a questões geopolíticas.

No entanto, essa realidade mudou após a Operação Dilúvio de Al-Aqsa, realizada pelo Hamas e outros grupos da resistência palestina, lançada da Faixa de Gaza contra o sul de Israel, em 7 de outubro de 2023. Posteriormente, o Estado sionista intensificou o genocídio que já dura oito décadas contra o povo palestino. De maneira inédita, estes acontecimentos trouxeram um foco de tensão geopolítica para o centro da agenda pública brasileira.

Se o interesse das pessoas por questões internacionais mudou nos últimos anos, o mesmo não se pode dizer quanto ao viés ideológico da imprensa hegemônica. Ela continua como canal de propaganda de Washington e companhia.

Assim, construiu-se o discurso sobre Israel estar se “defendendo” dos “terroristas” palestinos. Colonizadores foram transformados em vítimas e colonizados em algozes. Ao ocultar toda a historicidade e complexidade que envolvem a geopolítica palestina, foi possível construir a narrativa do “7 de outubro” como o “início” do “conflito Israel-Hamas”.

Diante dessa realidade, é importante não apenas denunciar as manipulações midiáticas; também é fundamental recuperar a história das relações entre palestinos e israelenses.

Pensando nessas questões, a partir de minha experiência como crítico midiático e professor universitário na área de ensino de Geografia, escrevi o livro “Palestina na geopolítica global pós-2023: narrativas e contranarrativas”, recentemente lançado pela Editora CRV.

Na obra, busco fazer justamente aquilo que a grande mídia negligencia: apresentar as causas do conflito (melhor dizendo, genocídio) Israel-Palestina. Para tanto, recorro a um amplo referencial dos mais variados campos do conhecimento: História, Arqueologia, Ciência da Religião e, como não poderia deixar de ser, Geografia.

Nesse último ponto, destaco o excelente prefácio escrito por Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil – FEPAL. Uma das principais vozes do debate público progressista nacional, Ualid explica que o objetivo do sionismo é extrair toda a demografia (o povo palestino) de uma geografia (o território palestino).

Uma experiência sui generis de colonialismo, que visa eliminar toda a população autóctone da região colonizada. Por isso, persegue exaustivamente alcançar uma maioria demográfica de judeus europeus na Palestina. Com a intensificação do genocídio desde 2023, infelizmente, isso foi atingido.

Aliás, compreender o sionismo (movimento que está por trás da criação do Estado de Israel) como uma doutrina colonial, supremacista e racista é condição sine qua non para não aderir ao discurso de “ataque terrorista do Hamas”. De acordo com o princípio de autodeterminação dos povos, legitimado pela Assembleia Geral da ONU, os palestinos, sob ocupação colonial, têm o direito de se rebelar contra o colonizador, independentemente dos meios utilizados.

Em “Palestina na geopolítica global pós-2023: narrativas e contranarrativas” também destaco as recentes mudanças no ecossistema comunicacional. Diante das cenas alarmantes que nos chegam pelas redes sociais de Gaza e da Cisjordânia (o outro território palestino ocupado) e dos esforços da imprensa alternativa em divulgar os fatos, já não é mais possível para a grande mídia ocultar o genocídio. Não por acaso, pesquisas demonstram a percepção negativa sobre Israel entre populações de todo o planeta. A máscara sionista – e consequentemente a da imprensa ocidental – está caindo.

Mas ainda há muito a fazer. Com o livro brevemente aqui apresentado, espero ter contribuído para esse debate necessário – sem dúvida o principal, do ponto de vista anticolonial (não “decolonial”!) de nosso tempo.

***

Francisco Fernandes Ladeira é Pesquisador de pós-doutorado do IFMG – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Unicamp.