Sexta-feira, 29 de maio de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1390

A convocação de Neymar e a disposição do jornalismo para inflar determinadas pautas

(Foto: Gustavo Gomes/Agência Brasil)

Neymar Júnior, 34 anos, um dos jogadores de futebol brasileiro mais comentados pelo jornalismo do país na atualidade, foi a principal pauta jornalística no que se refere à participação da seleção brasileira na Copa do Mundo de Futebol de 2026. Nem a configuração diferenciada da copa, que será realizada em três países de proporções continentais (México, Estados Unidos e Canadá), ou a dúvida sobre participação do Irã, que está no meio de uma guerra iniciada pelos Estados Unidos, ganhou tanto destaque. A pergunta “Neymar será convocado por Ancelotti?” ecoou em diferentes veículos. A pergunta que os jornais tentavam responder não era “Qual será a seleção convocada por Ancelotti?”, mas se o técnico convocaria o jogador. E a resposta veio no dia 18 de maio, em um grande show montado no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Neymar foi convocado para a Copa do Mundo de Futebol de 2026.

E qual a relação dessa convocação com o jornalismo? Para quem acompanha jornalismo esportivo, por interesse no assunto ou só porque essa informação apareceu nas mídias sociais, pode observar o quanto a convocação do Neymar foi tratada como uma pauta recorrente. Esse texto não quer discutir se Neymar deveria ou não ser convocado. A proposta é refletir sobre a disposição do jornalismo para inflar pautas desse tipo.

Essa tentativa do jornalismo de influenciar na convocação da seleção para a copa do mundo não é novidade. Em 2002, a pressão era para o Felipão convocar o Romário. Em 27 de fevereiro de 2002, o Estadão publicou no jornal impresso que: “O atacante Romário vai à Copa do Mundo, queira ou não o técnico da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari.” O jornal também anunciou que o então presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, teria feito uma intervenção exigindo a convocação do jogador. Em 21 de março, antes da convocação para a copa de 2002, o jornal chegou a publicar o mapa astral de Romário e de Scolari, explicando o motivo da falta de entendimento entre os dois. Romário não foi convocado para a copa de 2002. Os técnicos da seleção brasileira foram pressionados inúmeras vezes para alterar a composição dos times, mas em 2026 a postura da imprensa transformou essa pressão em um espetáculo amplificado nas mídias sociais.

Neymar Júnior, que mesmo quando estava perto dos 30 anos ainda era tratado como “menino Ney”, foi um jogador moldado diante das câmeras do jornalismo e das plataformas de mídias sociais. Ele é um projeto de craque, e de marketing, planejado para gerar muito lucro. O que Neymar posta no seu perfil do Instagram, com mais de 230 milhões de seguidores, vira notícia, pode ser a reação ao não ser convocado para um amistoso da seleção ou um momento de afeto com os filhos. E, claro, também tem as postagens de publicidade, que geram lucro. No caso de um jogador convocado para a seleção de futebol, o perfil será valorizado e vai lucrar ainda mais com publicidade. Neymar não é apenas um atleta, é um produto que precisa de visibilidade para continuar lucrando, e, para isso, é preciso tratá-lo como uma pauta permanente no jornalismo.

O Globo Esporte (GE) se mostrou bastante preocupado com essa pauta, só em 2026, até a data da convocação, foram mais de noventa publicações sobre o assunto. Nesse período é possível encontrar notícias como “Ronaldinho vê Brasil forte e torce por Neymar na Copa do Mundo” e, após a convocação para um amistoso da seleção, “Neymar se diz ‘chateado e triste’ por ausência em lista da Seleção, mas avisa: ‘Foco continua’”. Num tom cada vez mais emotivo, um dia antes da convocação, o GE publicou “Criança pede convocação de Neymar em oração, e jogador responde: ‘Vai dar tudo certo’”. Mais do que a cobertura de uma pauta, que precisa ter os desdobramentos acompanhados, a convocação de Neymar para a copa praticamente configurou uma campanha que conclamava a população para cobrar de Ancelotti e da CBF a convocação de Neymar. Para isso, usa argumentos como: o apoio de Ronaldinho, um dos principais jogadores da Copa de 2002 – quando o Brasil conquistou o último título, o sentimento e a força de vontade do jogador e, por fim, a oração de uma criança. O GE operou com a emoção para inflar a pauta e, com isso, inflar o produto.

Outros veículos jornalísticos trabalharam na mesma abordagem. O Estadão publicou “’Atenção, Ancelotti’: imprensa internacional se impressiona com Neymar às vésperas da convocação”. A ESPN, especializada em jornalismo esportivo, destacou “Neymar explica choro em hino nacional e se diz ansioso por convocação: ‘Longos anos de trabalho e sofrimento’”. Em abril, o Datafolha fez uma pesquisa para saber a opinião dos brasileiros sobre a convocação de Neymar, a resposta foi que 53% da população deseja ver o jogador em campo na Copa do Mundo. Um dia antes da convocação, o TNT Sport fez uma enquete para saber se o público achava que Ancelotti deveria convocar o atleta para a copa. Nessa matéria, o TNT Sports divulgou que 88% das respostas na enquete indicaram que: “Sim, Neymar deveria ser convocado para a copa”. Além disso, repercutiu nos diferentes jornais a composição da seleção brasileira no álbum de figurinhas da Copa, já que não tinha uma figurinha do Neymar, o que foi amplamente questionado por jornalistas.

A campanha deu certo, mais do que ser convocado para a copa, Neymar ganhou mais 1 milhão de seguidores no Instagram após a convocação, dentre os atletas selecionados, foi o teve o maior crescimento nas redes. A Panini, editora responsável pelo Álbum da Copa do Mundo, anunciou que vai lançar um pacote com atualizações do elenco. Na nova versão, serão incluídos os atletas convocados que não estão no álbum atualmente, ou seja, teremos figurinha do Neymar.

O Trivela, no programa Futebol em Contexto, abordou Como Neymar tomou conta do debate no Brasil, com uma análise do atleta e do personagem que sustenta o produto. O programa problematiza como um jogador em declínio segue sendo o personagem central do futebol brasileiro e como ele tomou conta do debate sobre Copa do Mundo no país. Dentre os vários destaques do debate, como a produção de um projeto que está acima da pessoa e a influência do staff que cerca o jogador, os debatedores trataram sobre a infantilização de Neymar. Alan Simon e Tim Vickery pontuaram que Neymar precisa deixar de ser tratado de maneira tão infantilizada. O menino de oito anos, para quem o projeto de produto foi idealizado, já tem 34 anos, e ele precisa responder por suas ações. Aqui, observa-se o uso das mídias sociais e a postura de fãs que ainda tratam o atleta como o menino Ney, mas também destaca-se a postura do jornalismo ao pautar o jogador sem considerar sua postura profissional e seu impacto social.

Essa reflexão atenta para a falta de descolamento entre a produção jornalística e o produto Neymar. Será que os jornais precisam produzir tantas notícias sobre Neymar? Ou a estratégia é inflar fatos, como se fossem grandes novidades, para manter esse produto sempre atual? Em tempos de mídias sociais e de superexposição de atletas formados para serem celebridades, é preciso parar para pensar o que realmente é um fato noticioso no jornalismo esportivo e quais pautas merecem ser publicadas.

Publicado originalmente objETHOS.

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Sílvia Meirelles Leite é Professora da UFPEL e pesquisadora do objETHOS/UFSC