Sexta-feira, 29 de maio de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1390

Acordo de UOL e Folha com OpenAI é boa notícia pra quem?

(Foto: Andrew Neel/Pexels)

O UOL e a Folha de S.Paulo anunciaram nesta semana um acordo com a OpenAI para fornecer conteúdo jornalístico para treinamento de modelos de inteligência artificial. Executivos dos dois lados festejaram a parceria, alegando que ela trará mais confiabilidade para as respostas aos usuários do ChatGPT e que este é um sinal da qualidade do jornalismo brasileiro. Para além da autocelebração, sabe-se muito pouco desse que é considerado o primeiro acordo comercial entre mídias brasileiras e uma das gigantes globais do setor de IA. Mas existe um punhado de razões para acreditar que essa não é uma boa notícia nem para os leitores nem para o jornalismo.

Como reconhecem as empresas brasileiras, o acordo resolve uma ação judicial que foi movida pela própria Folha em agosto de 2025. À época, o jornal se queixava de o ChatGPT coletar conteúdos sem autorização ou pagamento, e exigia indenização por esse uso indevido. Segundo a Folha, a disponibilização gratuita de resumos de notícias – inclusive aquelas reservadas a assinantes – prejudicava seus negócios. Nove meses depois, a indignação se transformou no eufórico anúncio do acordo. O primeiro motivo para considerar que a parceria não é uma boa notícia é o sigilo que permeia o contrato. Os leitores não foram informados como isso vai se converter em melhoria no serviço prestado pelo UOL ou a Folha, e nem se seus comentários, cartas ou manifestações nesses sites estão inclusos no que será acessado pelos raspadores da OpenAI. Não seria justo e esperado que, pelo menos, os assinantes tivessem mais detalhes sobre a novidade?

É legítimo que as empresas jornalísticas zelem por seus acervos, e que os autores exijam alguma remuneração pelo uso de seus conteúdos por terceiros. Neste sentido, Folha e UOL deveriam repassar a jornalistas e colaboradores parte do que a OpenAI pagar. Se isso não está previsto no acordo firmado, temos mais um ponto crítico à parceria, já que teremos uma dupla apropriação indevida desses conteúdos. Os efetivos criadores e produtores de conteúdo jornalístico estarão alijados de um processo de divisão de benefícios, constituindo-se em mais uma forma de exploração do trabalho humano por grandes empresas.

Novela repetida

Mas mesmo considerando que o jornalismo de UOL e Folha melhore consideravelmente a partir de agora, que seus leitores sejam mais bem informados dos termos da parceria e que jornalistas recebam algum repasse das vantagens financeiras, o acordo não é uma boa notícia para o mercado jornalístico brasileiro. Como os detalhes não são conhecidos, o que garante que outros acordos sejam celebrados em condições justas? O que assegura que empresas menores possam se sentar à mesa e negociar um mínimo de condições equilibradas?

Quem acompanha a relação tensa entre plataformas digitais e organizações jornalísticas sabe que a estratégia de pactuar no varejo degrada o ambiente no atacado. Os casos do Canadá e da Austrália mostram como o problema da remuneração pelo conteúdo jornalístico não foi solucionado e fragilizou ainda mais as empresas médias e pequenas, que se viram fora dos circuitos de negociação ou obrigadas a aceitar termos degradantes e ofensivos.

No Brasil, o mercado jornalístico é diverso, assimétrico, altamente dependente de tecnologias estrangeiras e muito precarizado. Existem iniciativas muito bem-sucedidas como UOL e Folha, mas também meios que sobrevivem à base de doações insuficientes, voluntarismo e verbas publicitárias esparsas. O jornalismo local é raquítico e tem se mostrado incapaz para debelar pra valer os desertos de notícia, mas essa modalidade é igualmente impactada com o surgimento de soluções de IA, geralmente fornecidas pelas mesmas empresas que rapinam seus conteúdos pelas back doors de seus sites.

Sem transparência

O acordo Folha/UOL/OpenAI não só domestica dois poderosos meios de comunicação, mas também tem potencial para atrapalhar a investigação que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu contra a Google em abril deste ano. O procedimento administrativo foi instaurado para averiguar como a conduta da big tech tem impactado o mercado jornalístico, esvaziando o tráfego nos sites de notícias, gerando dependência de soluções tecnológicas e degradando a atividade no país. O alinhamento com uma gigante da IA pode, por analogia, inspirar aproximações deletérias com as plataformas digitais, que também fazem parte do mesmo ecossistema de tecnologia global. E isso, definitivamente, não vai fortalecer o jornalismo brasileiro, nem necessariamente vai melhorá-lo.

Os executivos de UOL e Folha podem gastar todos os seus elogios com a parceria que acabaram de formar, mas é difícil acreditar que a melhor saída seja a busca de soluções individualizadas para remunerar o uso de conteúdo jornalístico. Assim como é difícil acreditar que contratos secretos ou mal explicados contribuam para o crescente debate público sobre regulação de IA, proteção e fortalecimento das indústrias locais e soberania digital nacional.

A sociedade brasileira tem demonstrado interesse e energia para participar dessas discussões. Regular IA é necessário até mesmo para evitar riscos sistêmicos que afetem a população ou a economia do país. Mecanismos de protecionismo devem alcançar também o jornalismo, segmento que muito contribui para a formação do imaginário coletivo, do senso crítico e da noção compartilhada de realidade. E a defesa das fronteiras brasileiras não se expressa apenas em mapas ou divisas, mas também é motivo de preocupação no ambiente digital, onde também devem prevalecer o bem-estar coletivo, os direitos humanos, os valores e interesses da população.

A opacidade do acordo UOL/Folha/OpenAI combina com o espírito das big techs, que se negam a prestar contas e a se abrir ao julgamento do público. Essa opacidade deveria ser combatida e denunciada pelo jornalismo da Folha e do UOL. Haverá espaço para que esses meios façam coberturas críticas e independentes sobre o setor de IA? O acordo prevê isso?

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Rogério Christofoletti é Professor de jornalismo na UFSC e membro do coletivo Diracom (Direito à Comunicação e Democracia).