
(Foto: Charlotte May/Pexels)
Uma transformação profunda está redefinindo a forma como as pessoas se informam. Em um contexto marcado por turbulências políticas, incertezas econômicas e rápidas mudanças tecnológicas, novos desafios remodelam o ecossistema da informação e colocam em xeque modelos consolidados de produção, distribuição e consumo de notícias. Esse cenário é retratado no recém-divulgado Digital News Report 2026, pesquisa anual considerada uma das principais referências mundiais sobre hábitos de consumo de notícias e tendências do jornalismo.
O Digital News Report 2026 é produzido pelo Reuters Institute for the Study of Journalism (RISJ), vinculado à Universidade de Oxford, no Reino Unido. Para esta 15ª edição, foram ouvidas quase 100 mil pessoas em 48 países diferentes. Os resultados apresentam um panorama abrangente das tendências de consumo de notícias, dos desafios e das oportunidades que moldam o presente e o futuro do jornalismo e da comunicação.
Segundo o relatório deste ano, o ambiente de informação global em 2026 se caracteriza por uma volatilidade sem precedentes: é um período de profundas incertezas, tanto para o setor de notícias quanto para o mundo em geral. O documento aponta para um momento crítico: os caminhos entre o jornalismo e o público estão se tornando menos diretos, mais fragmentados e menos intencionais.
Pela primeira vez na história do relatório, o uso de redes sociais e redes de vídeo (54% das audiências) superou o acesso direto a sites e aplicativos de organizações de notícias (51%) como principal forma de acesso online. Esse fenômeno, chamado de “plataformização”, é impulsionado por uma mudança drástica no formato de preferência: o vídeo online.
É um marco importante na transformação do ecossistema informacional. Em meio a essa volatilidade tecnológica e política, a confiança global nas notícias caiu para o seu nível mais baixo (37%) em 29 dos 48 países analisados. É o menor patamar registrado desde o início da medição. Nos Estados Unidos, por exemplo, apenas um quarto da população (25%) afirma confiar nas notícias na maior parte do tempo.
Parte desse declínio global reflete tensões que extrapolam o campo jornalístico e atingem o próprio tecido institucional das democracias contemporâneas. A confiança em instituições políticas, econômicas e sociais tem se deteriorado de forma mais ampla, enquanto o jornalismo passa a ocupar um lugar cada vez mais vulnerável, frequentemente alvo de críticas e ataques diretos por parte de lideranças políticas de alta visibilidade.
Por outro lado, a evitação de notícias permanece alta (42% do público), refletindo uma audiência desinteressada perante o excesso de informação e a polarização.
Nesse cenário, cresce a inquietação sobre como reconstruir a credibilidade da informação que pauta o debate público e estabelecer vínculos com públicos cada vez mais fragmentados. Em um ambiente marcado pela desconfiança e sobrecarga informacional, quais caminhos podem devolver relevância e confiança ao jornalismo?
A ascensão dos criadores de conteúdo
Nesse novo ecossistema informacional, novas figuras surgem para desafiar as hierarquias tradicionais da notícia: os criadores de conteúdo e influenciadores digitais ganham destaque. Cerca de 27% dos entrevistados obtêm notícias de criadores focados em informação.
O relatório alerta que esse território se trata de um campo complexo e pouco delimitado, no qual as fronteiras entre jornalismo e ativismo político tornam-se cada vez mais difusas.
O público vê esses criadores como mais divertidos, autênticos e fáceis de entender do que os jornalistas tradicionais. No entanto, existe um paradoxo: embora sejam mais acessíveis, os criadores de conteúdo são considerados menos confiáveis e menos imparciais do que os meios de comunicação tradicionais. Para a maioria, os influenciadores complementam o consumo de notícias tradicionais, em vez de substituí-lo.
A fronteira da Inteligência Artificial
O relatório questiona o papel da inteligência artificial, seria a disrupção mais significativa para a indústria de notícias desde o lançamento do iPhone em 2007? A inteligência artificial generativa começa a deixar sua marca na jornada de consumo. O uso de chatbots de IA para acessar notícias subiu de 7% para 10% globalmente. Usuários utilizam essas ferramentas para resumir histórias complexas, traduzir conteúdos ou fazer perguntas de acompanhamento para obter mais profundidade.
A indústria, porém, teme o cenário do “Google Zero”: a possibilidade de que resumos gerados por IA nas buscas reduzam drasticamente o tráfego de referência para os sites originais dos veículos.
No quesito jornalismo e uso de IA, o caso do jornal alemão Tagesspiegel ilustra de forma crítica a quebra da premissa “human in the loop” (humano no controle), citada pelo Digital News Report 2026 como o padrão atual para a integração da Inteligência Artificial nas redações, onde a ferramenta deveria apenas simplificar processos e não assumir o núcleo do trabalho editorial. Incidentes de uso não revelado de IA para gerar artigos de opinião tendem a agravar essa fragilidade institucional. A substituição da expertise humana por modelos automatizados sem transparência representa um risco reputacional severo, pois ignora a demanda dos leitores por autenticidade e perspectivas originais, elementos que justificam o apoio financeiro e a função social das organizações de notícias.
Confiança em queda e o desejo por imparcialidade
Embora a confiança geral nas notícias tenha atingido seu nível mais baixo desde o início da série histórica (situando-se em 37%), a imprensa não está isolada nesse cenário: a queda da confiança acompanha a crise de credibilidade e a instabilidade que afetam as instituições de modo geral. Fatores como ataques de políticos a jornalistas e a percepção de influência indevida de proprietários de mídia e governos corroem essa base.
Apesar do avanço da polarização, o ideal de imparcialidade ainda se mantém predominante: 45% dos entrevistados nos 47 países afirmam preferir receber notícias de fontes que não adotem um ponto de vista específico. Esse percentual é mais do que o dobro dos 22% que dizem preferir veículos que compartilhem sua própria visão de mundo.
O desafio de ser relevante
No Brasil, os meios de comunicação tradicionais continuam perdendo espaço como fonte de notícias, enquanto os chatbots de inteligência artificial ganham popularidade e o uso das redes sociais para consumo de informação permanece elevado. O jornalismo nesse panorama enfrenta o desafio de reconectar-se com um público que se sente sobrecarregado e evita as notícias.
Apesar do cenário de volatilidade e queda de confiança, há também oportunidades identificadas. Elas passam, segundo o relatório, pelo investimento em conteúdos explicativos e contextualizados, pela transparência no uso da inteligência artificial nos processos editoriais e pelo fortalecimento de marcas jornalísticas capazes de oferecer referências confiáveis em um ambiente marcado pela desinformação e dispersão das audiências. A ascensão dos criadores de notícias oferece à mídia tradicional a chance de aprender com sua linguagem autêntica, além de possibilitar novas colaborações e modelos híbridos de produção. O desafio é construir relações duradouras de confiança.
Nesse contexto, o relatório sugere que a sustentabilidade das organizações de notícias dependerá da sua capacidade de interpretar as transformações que redefinem a vida pública, explicar fenômenos complexos e produzir informação com rigor, transparência e relevância. Em sociedades cada vez mais polarizadas e mediadas por plataformas e sistemas de IA, a credibilidade se torna um diferencial estratégico e uma condição essencial para a sobrevivência do jornalismo.
Publicado originalmente em objETHOS.
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Magali Moser é Doutora em Jornalismo pelo PPGJor/UFSC e jornalista da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc)
