
(Foto: Startup Stock Photos/Pexels)
Já estive dos dois lados de uma crise: o de quem precisa responder e o de quem precisa ouvir. A crítica é inevitável, e necessária. E eu trabalho há bastante tempo com comunicação para entender que reputações sólidas não são feitas de vidro; elas inclusive se fortalecem com as críticas.
Mas há uma diferença enorme entre criticar e atacar. Especialmente quando a liberdade de expressão trata ataque como opinião.
A crítica exige presença intelectual. Pede argumento, contexto e algum grau de responsabilidade com as palavras. O ataque, não. O ataque precisa apenas de impulso, indignação e, em tempos de internet, ainda ganha a vantagem de ser feito à distância.
Pode ser feito em segundos, sem escuta, sem apuração, sem consequência. Uma frase dura, uma ironia cruel, uma acusação definitiva. Publica-se. Compartilha-se. E, na maioria das vezes, segue-se a vida como se nada tivesse acontecido.
Tenho pensado muito sobre isso como profissional de comunicação. Trabalho com reputação, imprensa, crises, posicionamentos. Vejo todos os dias como uma palavra pode construir ou destruir. E, na internet, isso ganha escala, velocidade, plateia.
Não que a rede tenha inventado a agressividade humana. Mas, em tempos polarizados, a plateia muitas vezes parece valer mais do que a verdade. Como se o mundo coubesse em apenas dois lados.
Também não podemos fingir que esse ambiente é neutro. Revolta e indignação geram engajamento. Engajamento gera tempo de tela. Tempo de tela gera dados, publicidade e dinheiro. Algumas das maiores empresas de comunicação e tecnologia do planeta vivem dessa engrenagem: quanto mais capturam nossa atenção, mais valioso se torna o negócio. Nesse modelo, a agressividade não é um acidente do sistema. É, muitas vezes, parte do seu combustível.
Walter Benjamin, ao refletir sobre a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, escreveu sobre a perda da aura, essa presença única, irrepetível, que se desfaz quando tudo pode ser copiado, multiplicado. A ideia me parece cada vez mais atual, não apenas para a arte, mas para as pessoas. Na internet, algo da nossa presença também se perde. O rosto vira avatar. A vida vira print.
A comunicação digital nos dá uma sensação de proximidade sem a responsabilidade da presença. Estamos perto demais das opiniões dos outros e longe demais da vida real de quem as emite.
Na vida real, a coragem tem olho no olho. Tem voz que treme, pausa, hesita, volta atrás. Na internet, a coragem se confunde com performance. É fácil ser feroz diante de uma tela.
Isso não significa defender silêncio ou imunidade à crítica. Pelo contrário. A crítica é indispensável à democracia, ao jornalismo, às instituições, às empresas, aos líderes e a qualquer projeto que se pretenda público.
Quem comunica precisa estar disposto a ser questionado. Quem ocupa espaço público precisa aceitar escrutínio. Quem toma decisões precisa responder por elas. O problema começa quando a crítica abandona o compromisso com a verdade e passa a operar no território da punição.
Hoje, atacar virou uma forma de pertencimento. Em ambientes digitais, a agressividade funciona como senha de entrada. Quanto mais dura a frase, maior a chance de aplauso. Quanto menos nuance, mais compartilhamento.
Não há política, cultura, defesa ambiental, luta social ou construção coletiva sem indignação. O problema não está em se indignar. O problema está em transformar indignação em licença para desumanizar e incendiar pessoas. Uma instituição não é apenas sua última crise.
Benjamin também escreveu sobre o declínio da experiência narrável diante do avanço da informação. A informação chega rápido, envelhece rápido e exige atualização constante. A experiência, ao contrário, precisa de tempo. E estamos vivendo justamente essa pobreza de experiência: sabemos cada vez mais coisas sobre tudo e compreendemos cada vez menos.
A inteligência artificial adiciona mais uma camada a esse debate. Pela primeira vez, podemos produzir textos, imagens, acusações, defesas, memes e versões da realidade em escala industrial, com aparência de sofisticação. A IA organiza argumentos, simula estilos, acelerar respostas, cria discursos convincentes. Mas ela não sente vergonha. Não se arrepende.
A vida na IA pode ser eficiente, mas a vida real continua sendo o lugar onde as consequências acontecem.
É preciso ter coragem para ser real. Aparecer por inteiro. Assinar o que se diz. Admitir dúvida. Rever uma frase. Pedir desculpas. Escutar antes de concluir. Entender que a vida real é sempre maior do que a versão que cabe em um post.
A democracia precisa de crítica. O jornalismo precisa de crítica. As marcas precisam de crítica. Os líderes precisam de crítica. Todos nós precisamos. Mas a crítica que melhora o mundo é diferente do ataque que apenas satisfaz a raiva de um instante.
Na internet, a liberdade para atacar é cada vez mais espantosa. Mais espantoso ainda será se conseguirmos usar a mesma liberdade para reconstruir algum tipo de presença, responsabilidade e conversa.
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Aline Salcedo é jornalista e relações-públicas, com quase 30 anos de experiência em comunicação corporativa, assessoria de imprensa, reputação e gestão de crise. Atualmente, atua como Diretora de Comunicação de MARAEY, projeto turístico-residencial sustentável em desenvolvimento em Maricá, no Rio de Janeiro. Ao longo da carreira, construiu sólida trajetória na redação da Editora Abril e na FSB Comunicação. É especialista em transformar temas complexos em narrativas claras, estratégicas e de impacto. Também escreve sobre corrida, comportamento e longevidade para a Veja Rio, conectando sua experiência pessoal ao olhar jornalístico.
