Quinta-feira, 1 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1408

Não existe amor na Folha de S.Paulo

(Foto: Nascimento Jr./Pexel)

Há alguns dias, fui parar na emergência do Hospital do Coração. Ao ouvir que estava com uma crise severa de depressão e ansiedade, o médico disse: “E quem não está?”.

Respondi de bate-pronto: “A direção da Folha de S. Paulo”. 

Todos os anos sou convidado para um encontro no prédio do jornal. Não como jornalista, mas na condição de assinante. A primeira a me convidar foi Suzana Singer. Depois, Alexandra Moraes, que amo, admiro e por quem nutro um respeito profissional inigualável.

Declinei em 2026. Simplesmente não sei que críticas pontuais posso fazer a um veículo que se divorciou por completo da minha realidade. Na minha última visita à redação, perguntei ao editor Eduardo Scolese se o “aquário” cogitou declarar voto no segundo turno de 2022. Era uma escolha óbvia entre democracia e bárbarie.

Scolese disse que o assunto foi até ventilado, mas rechaçado de pronto por confrontar o Manual de Redação. Dias depois, ele lançou o ótimo livro “1461 dias na trincheira”, em que relatou como os anos de bolsonarismo simplesmente destruíram a saúde mental de seus colegas.

Fiquei a me perguntar: que manual é esse que ignora o sofrimento de jornalistas?

Que manual é esse que praticamente ri quando Bolsonaro diz que Patrícia Campos Mello “queria dar o furo”?

Que manual é esse que vira pro lado e finge que não viu ameaças de morte contra a fotógrafa Gabriela Biló?

O livro “A Globo Volume 1 (Hegemonia)”, de Ernesto Rodrigues, relata a indignação inicial de William Bonner, em 2022, com uma série de reportagens mostrando a volta da fome ao Brasil. Segundo o autor, Bonner teria insinuado que o material poderia ser embalado e enviado para a campanha de Lula.

Na sequência, o editor e apresentador voltou atrás e exibiu. Afinal, a conclusão era óbvia: isenção política não é se isentar de dizer que parte da população está morrendo. Quando uma cartilha fere a missão do jornalismo, que se dane a cartilha.

Não sei a quantas anda o equilíbrio emocional dos repórteres da Folha neste momento, mas seus colunistas andam perdendo a cabeça por coisas que nada têm a ver com o que eu sofro num dia a dia de dívidas, empregos precários e mensalidades caríssimas de escola e plano de saúde.

Numa semana, todos eles decidiram que o grande problema do Brasil era um estudante fantasiado de nazista que apanhou na UFRJ. Na outra, parecia que se um cabo e um soldado fechassem o STF, como propôs o filho 02, todos os problemas do Brasil acabariam.

Ah, mas o STF não tem compostura! E quando foi que Gilmar Mendes e seus colegas se comportaram como monges, gente? Aliás, quando foi que algum poder brasileiro teve essa tal de compostura desde que Dom João VI desceu por aqui, dizem, com frango frito nos bolsos?

Dora Kramer diz que Lula inventou o nós contra eles. Jura? E eu achando que a luta de classes existia desde nobres e vassalos, senhores de engenho e escravos ou, quem sabe, patrões e empregados. Se Lula inventou isso, basta que ele saia para o fim da história proposto por Francis Fukuyama se concretizar? Nossa, que fácil!

Mas, peraí, não era só derrubar a Dilma e pronto? Dez anos depois, estamos convivendo com emendas parlamentares, Banco Master e outros problemas. Depois é o WhatsApp que vende soluções fáceis…

Wilson Gomes, surgido no debate público como um competente professor universitário, parece ter gostado de exercer na Folha o papel de “a esquerda que a direita ama”. Algum problema em ser direita? Por convicção, não. Mas se a intenção dele for brilhar no papel de esquerdista arrependido, não é nem original. Carlos Lacerda e Paulo Francis, entre outros, já executaram esse papel com muito mais talento, competência e, acima de tudo, autenticidade.

Outros articulistas dizem que a segurança é o Calcanhar de Aquiles da esquerda. Mas a realidade insiste em trazer políticos de direita ligados a milícia, bicheiros, CV e PCC. Ah, Cláudio Castro, esse esquerdista insolente! Salve, Camarada Milton Leite!

A esquerda, aliás, é depositária das carências da redação inteira. Não entende os evangélicos para Juliano Spyer. Não entende a música sertaneja para Gustavo Alonso. Não entende nada para Mariliz Pereira Jorge. Mas mesmo sem esse entendimento, Edir Macedo vai fazer um Templo do Salomão em Gramado, o agronegócio segue empurrando a Ana Castela nos meus ouvidos e o Nikolas tá aí com o “ativo minerário” do amigo.

Mas quem dera a culpa de tudo fosse só do Lula, do STF e do PT. Na maior parte das vezes, a culpa é… minha. Se minha saúde falha, quem mandou não comer linhaça, descansar, fazer mais exercícios e fazer uma pausa para me alongar durante o trabalho? Claro, eu fui parar no hospital porque teimei em trabalhar 12 horas por dia para que minha família não morra de fome. Baita teimosia. Eu tinha escolha, né?

A Folha habita um outro plano. Eu, infelizmente, continuo vivendo no Brasil real. No bairro que moro em São Paulo, não há árvores, comércio, amigos e nem amor. Só cimento, carros e edifícios subindo. É um deserto tão grande de afetos, que meu filho brinca todas as tardes dentro de uma farmácia, onde os atendentes o chamam pelo nome, o pegam no colo e fazem festinha na data de aniversário. Infelizmente, nem essa amizade está dando para cultivar. De três em três meses, alguém sai por não aguentar a escala 6 x 1 e os baixos salários. Mas a Folha disse que a culpa é deles. Brasileiro quer trabalhar pouco.

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Rafael Simi é jornalista formado na PUC-Rio, com passagem pelas redações do Grupo Globo. Escreveu o livro “De volta para o passado – O Brasil de 1985 e o que fizemos depois”.