Terça-feira, 17 de março de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1379

O genocídio dos Kaiowá no MS

Causou-me certa revolta ver o tratamento dado pela imprensa (ou o “não tratamento”) às ações genocidas cometidas contra comunidades kaiowá no Mato Grosso do Sul nos últimos dias. No dia 18/11, o cacique Nísio Gomes foi assassinado diante de seu filho, numa ação que deixou outros feridos e desaparecidos. O pequeno destaque dado a essas acontecimentos (sobretudo se confrontado com o destaque dado na mídia internacional) parece destoar da importância dos fatos que, em poucas palavras, comprovam a existência de um genocídio em curso no território brasileiro, um escândalo que não interessa nem ao governo federal – porque prejudicaria a autoridade moral da presidente Dilma para repreender os problemas de direitos humanos do Irã, por exemplo – nem à sociedade brasileira, que não quer ver-se confrontada com os próprios demônios.

O corpo de Nísio foi levado pelos assassinos, diante do que a Polícia Federal passou a investigar um caso de simples “desaparecimento” – e a imprensa imediatamente aceitou a versão oficial. Na mesma semana, os jornais locais noticiaram a prisão de um índio por porte de maconha (um jornal de Amambai, MS, cidade onde ocorreu o morticínio) e a ocorrência de violência entre os próprios índios na aldeia suburbana do Jaguapiru, em Dourados (pela afiliada da rede Globo, TV Morena, Dourados), notícias estas que reforçam a ideia essencializante de que os índios são violentos por natureza, bárbaros inadaptáveis à vida civilizada.

Dias depois, no dia 27/11, o prefeito de Iguatemi e outras autoridades ameaçaram de morte um grupo de índios dentro de um ônibus, chamando-os de vagabundos, sem saber que estavam diante da visita do secretário de Articulação Social da Secretaria-Geral da Presidência, Paulos Maldos, e dois representantes da Secretaria de Direitos Humanos. Este acontecimento, segundo minha observação, não foi noticiado. Trata-se de colonialidade da mídia local e nacional, isto é, as mídias põem-se a favor da dominação dos povos indígenas, em nome dos “interesses” da nação? Trata-se de covardia, isto é, medo de contrariar os interesses dominantes das sociedades e governos locais e nacionais? Por que as mídias não buscam formas de fazer uma cobertura mais honesta da questão indígena no Brasil de hoje (passando pelo diálogo com as Universidades, por exemplo)? (João Nackle Urt, professor, Dourados, MS)

 

Quem observa o observador?

Sempre usei este Observatório como fundamento de informações livres que meus alunos pudessem acessar e claramente ver as posições de quem e a quem interessa sua publicação. Mas, de uns tempos para cá, este OI se transformou em lugar de recados cifrados entre o “trabalhadores de imprensa”, que é o termo referente a jornalistas. Temas novaiorquinos, parisienses em destaque – esqueçam a ilha do Hudson e o rio sagrado do Sena ou Tâmisa. Sei que nossa imprensa é sucursal dos grandes conglomerados além-bordas. Vejo o orgulho dos redatores deste OI ao falar dos modelos industriais estadunidenses e congêneres. Que margem nos sobra, aqui em Pernambuco, em um jornalismo tosco reflexo parco do modelo jornalístico que os vossos redatores representam. Ter um Kotscho na redação de artigo já é por si só uma chapa branca. De que importa a opção religiosa de Alberto Dines, dono deste espaço que pretende ser público, se não existe nenhuma religião laica, muito menos secular, se o seu opinar jornalístico ainda está pautado em uma crítica da década de 50?

A quem reclamar neste OI? Discussões internas entre a casta de jornalistas, ou melhor, “trabalhadores de imprensa”, escamoteiam o real papel do que deveria ser este espaço que, repito, é público, de crítica e ênfase a deturpação jornalística dos fatos, e não briga de egos entre congêneres de métier. Não indico mais o OI para meu alunos atualizarem seus conhecimentos sobre as versões sobre a realidade atual, mas sim, como a imprensa e os meios de comunicação em massa deturpam até as melhores ideias. Aqui fica uma sugestão, já que, por não ser jornalista, embora mestre em Comunicação, eu saiba que este email não terá relevância: a criação de uma ouvidoria para este observador ou, como vocês gostam de termos da imprensa internacional, um ombudsman deste OI. Um ouvidor para este observador, como vocês se auto-referenciam. Grato pela atenção, ou desatenção (Paulo Diniz, professor de História, Recife, PE)

 

Racismo e sexismo nos telejornais

As pessoas olham para suas TVs mas não veem nada. A notícia da troca de âncora no JN http://gente.ig.com.br/patricia-poeta-substitui-fatima-bernardes-no-jornal-nacional/n1597392037687.html não chegou a causar estranheza e justamente por isto merece passar por uma sintonia fina. Todas as âncoras dos telejornais brasileiros são brancas, jovens e bonitas. A única que não se ajusta a este perfil agora é a âncora do Jornal da Cultura, mas ela mesma (assim como Fátima Bernardes) já preencheu este requisito no passado. A beleza é fundamental, dizia o poetinha Vinícius de Moraes. Mas em se tratando de jornalismo não vejo por que o critério beleza física deva ser o único ou principal requisito. Mas é assim que tem sido e em todos os canais de TV – do Jornal da Band ao Jornal da Gazeta, só modelos fotográficos femininos na frente das câmeras.

A ênfase nas modelos fotográficos femininas brancas e jovens é importante. Afinal, no Brasil os âncoras não precisam ser belos, bastando que sejam experientes. Nem o Boechat nem o Boris Casoy são bonitos ou jovens. A mesmas redes de TV que tecem loas sobre a igualdade racial e de gênero usam critérios bastante racistas e sexistas ao escolher as carinhas que preenchem os telejornais. Tudo considerado muito normal, até pelos jornalistas. O diabo se esconde no detalhe e o racismo e o sexismo não precisam se esconder. Eles são tão óbvios que por isto mesmo não podem ser vistos (Fábio de Oliveira Ribeiro, advogado, Osasco, SP)

 

Sugestão

Sou antigo observador do Observatório da Imprensa e até sinto que existe real vontade de melhorar o conteúdo da TV aberta do Brasil. Mas é difícil demais e jamais um Alberto Dines, com toda sua inegável competência, vai ser ouvido em suas críticas a favor da qualidade na mídia. Minha sugestão seria, se possível, criar um espaço tipo site de relacionamento onde qualquer um, independente de âncoras ou formadores de opinião, pudesse dar seus palpites sobre a qualidade da TV aberta brasileira.

Não é possível que nós, o povão, não tenhamos um espaço para falar, por exemplo, do abuso dos comerciais, que ocupam mais de 70% dos horários da TV. Não é possível entender por que não podemos criticar as baixarias dos Ratinhos, Datenas e toda essa turma de “comunicadores” da tarde nas TVs. Tem que ter um espaço, sim, um espaço livre no qual as emissoras possam se espelhar sem intermediários. Críticas e elogios diretos 24 horas por dia, tanto nas TVs comerciais como nas do governo. O site direto e reto, com perguntas como “O que acha dos noticiários da TV?”, “O que acha dos programas de auditório na TV?” Diga o que pensa e faça sua sugestão. É preciso que todos (da mídia) saibam que não somos burros, que entendemos o comprometimento ideológico dos noticiários e queremos dar uma opinião livre sobre baixarias. Acho que sonho demais… Mas sonhar não custa nada e vou sonhar sempre (Franklin B.C. Caixeiro, aposentado, Angra dos Reis, RJ)

 

O que faltou na notícia da morte de Sócrates

Neste domingo (04/12), morreu um grande jogador e foi homenageado por vários meios de comunicação extensivamente. Entretanto, nenhum deles se dignou a publicar o nome do hotel em que tanto o jogador, quanto sua esposa e um amigo passaram mal por conta da comida. Pior ainda: um caso de saúde pública (pois não é a primeira vez que ocorre problema com restaurante de hotel) é encoberto (ou ignorado) para poder se fazer propaganda de um esporte. Uso o termo “propaganda” pois a marca Corinthians vale muito em termos de audiência, conforme todos sabemos. Isso, para mim, é prova de que não existe “jornalismo independente” neste país. Gostaria muito da opinião dos senhores sobre o caso (Luiz Fernando Lins, empresário, São Paulo, SP)